Com o coração nos coturnos

danibat0036POR Danibat

(…) “Aquele 30 de novembro de 2015 era um dia quente, em que eu estava de folga e resolvi levar meus meninos no dentista. Ando sempre maquiada. Sempre me arrumei para que meu marido tivesse orgulho da mulher que tinha em casa. Na volta do dentista estava com enxaqueca (algo não muito comum). Resolvi, então, tirar a maquiagem e trocar de roupa. Fui deitar um pouco, mas antes, liguei para o Rafael. Queria combinar a janta. A ligação foi rápida. Nem o “tchau” foi dito, porque ele precisava atender uma ocorrência. Mal sabia eu que aquela seria a última vez que ouviria a sua voz” (…)

Essa é apenas uma parte do relato que ouvimos de Jeniffer Oliveira, que com 25 anos se viu viúva. Ah, mas aqui vale uma observação, ela não gosta desta palavra. “Ela ainda soa muito forte pra mim”, comenta. O soldado da Brigada Militar, lotado em Gravataí (RS), Rafael de Ávila, 30 anos, estava em um dia de trabalho como os outros, quando por volta das 14 horas, a sua guarnição foi chamada para atender uma ocorrência de assalto em andamento no centro da cidade. Ao chegar ao local com seus colegas de farda, foram recebidos a tiros pelos três assaltantes. Um dos tiros entrou no único espaço que tem embaixo do braço, entre a axila e o colete à prova de balas. Rafael ainda foi socorrido ao Hospital Dom João Becker, a poucos metros da ocorrência, mas acabou não resistindo.

(…) “Eu estava deitada e ouvi palmas em frente de casa. Quando olhei, havia dois sargentos em uma viatura discreta (um carro comum). Eu tinha mandado algumas mensagens de WhatsApp  para o Rafael para decidirmos a janta, mas ele não tinha respondido ainda. Lembro de ter aberto a porta e  ainda brincado… ‘agora é cena de filme?’. Com um sorriso amarelo, eles me disseram que a guarnição do Rafael tinha sofrido um acidente, que ele estava sendo medicado, mas que precisavam que eu assinasse alguns papéis no hospital. Troquei de roupa e fui com eles. Ao chegar na frente do hospital tinha muita gente, viaturas, PMs. Na hora, pensei que o Rafael estivesse bem, mas que alguém deveria ter ficado gravemente ferido. Fui entrando no hospital e cada vez mais me convencia que alguém estava muito mal. Via colegas fardados chorando nos corredores. Foi só quando um médico veio em minha direção e disse que me acolheria em uma sala, que a ficha começou a cair. Tudo aquilo era por causa do Rafael.” (…)

Uma cena que não se apaga

Jennifer lembra do médico falando com ela, explicando o que havia acontecido, onde o tiro tinha entrado e os órgãos que haviam sido atingidos. “Nesta hora a minha sensação era de flutuar. Eu só pensava que o final daquela fala não podia ser ruim. Até que ele disse ‘nós tentamos de tudo’. A partir daí, meu mundo desabou e, até agora, eu pareço estar diariamente acordando de um pesadelo.”

A jovem insistiu para ver o marido, mesmo já sem vida. “A cena foi horrível. O cheiro forte e ruim de sangue. Ele com o rosto desfigurado, boca aberta. É muito diferente daquele Rafael que estava no velório. Não desejo esta cena para ninguém. Está marcada para sempre, infelizmente, na minha cabeça.” É na fé em Deus que ela busca força para seguir. “Minha vida agora, é cuidar dos meus filhos.”

Nos pequenos, detalhes…

Se tudo o que foi contado até gora já é triste e impactante. Pare e some um fator crucial para a  história. Jennifer e Rafael têm dois filhos: Ryan, 5 anos, e Arthur, 3. Por conta de uma ação criminosa eles perderam o melhor amigo, o pai presente, o herói de farda. Sim, para eles, assim como para muitas crianças (e adultos, porque não?) o pai era o maior herói.

Para o mais novo, a tragédia fez com que o pai virasse um linda estrela em uma noite de céu limpo. Porém, para Ryan, a história é muito mais impactante agora. Com voz e jeito de criança pequena, ele expõe ideias fortes. “Eu quero dar um tiro no coração dos bandidos que mataram o meu pai.” “Por que o meu pai não atirou no bandido e o bandido matou o meu pai?” e a mais forte de todas: “quero levar um tiro e ir com o meu pai para o céu”.

Muitas pessoas julgam Jennifer por ter levado os meninos ao velório, mas ela acredita que a dor precisava ser sentida por todos, ela e os meninos. “O Rafael iria querer que os meninos estivessem ali. Por isso os levei. Eles precisavam se despedir do pai de alguma forma”, afirma a mãe.

Na farda o orgulho e a saudade

No último dia 25 de agosto, quando se comemora o Dia do Soldado no Brasil, o projeto Danibat Fora dos Trilhos decidiu contar a história desta família, mostrando que, mesmo com tudo o que ocorreu, é possível ter momentos de felicidade e se criar filhos sob a perspectiva da justiça e do bom exemplo. Por isso, Ryan e Arthur foram fotografados com a mãe na Estância Província de São Pedro, em Gravataí. No ensaio, os pequenos usaram fantasias de super-heróis e também a roupa que atualmente mais gostam de vestir: a farda da Brigada Militar. “Essa é minha roupa preferida, porque é igual a do meu papai”, afirma Ryan. Ele ainda ressalta que o pai “está no céu”. “Antes, ele protegia a gente aqui. Agora, cuida da gente lá do céu.” Neste momento, mesmo com apenas cinco anos, o menino enche os olhos de água e emociona também o irmão, que diz ter “saudade do papai.”

Vivendo o momento

Ainda em meio a um turbilhão de emoções, principalmente ao ver seus filhos fardados, Jennifer deixa um recado às famílias dos heróis das ruas:”Por mais que seja arriscado, tenho a certeza de que todos, assim como o Rafael, têm orgulho da farda que vestem. Eles precisam lembrar que para as crianças são super-heróis e que para quem fica em casa, são o porto seguro. Não deixem nada para amanhã. Vivam o hoje, porque não sabemos o que nos espera. Nossos planos viraram apenas sonhos. Vivam e amem, agora.”

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