Ingresso de mulheres na Brigada Militar está perto de completar três décadas

Mariel Trigos Pires, 23 anos na BM/Foto:Anderson Ribeiro
Maribel Trigos Pires, 23 anos na BM/Foto:Anderson Ribeiro

O domingo que passou foi uma data significativa na história da Brigada Militar. Isso porque, há 29 anos, formou-se a primeira turma de soldados femininas que passaram a integrar a corporação responsável pela segurança do povo gaúcho.
A turma mais antiga de Bagé, por sua vez, completará 24 anos em 2016. Na época, ingressaram 30 mulheres. Dessas, 27 atuam até hoje, em diversos pontos do Estado, ocupando cargos de soldados, sargentos e capitãs, entre outros.
Exemplos
Um exemplo é a primeiro-sargento Maribel Trigos Pires, de 43 anos, que ingressou na primeira turma feminina de Bagé, ou seja, está completando 24 anos de serviços prestados à comunidade. “Na época era um quadro especial. Era separado as mulheres dos homens. Já em 1997, juntaram ao quadro combatente. Tivemos, naquele momento, uma excelente acolhida. Éramos jovens. Fomos para um ambiente militar e fora dos nossos lares”, salienta.
Maribel comenta que após a formatura no curso, vieram os períodos de adaptações. “Porque a comunidade, naquela década, e os colegas, não estavam prontos e tinham dificuldades em nos receber. Sentíamos, nas abordagens, que não tínhamos credibilidade. Mas fomos ganhando este espaço”, lembra.
A primeiro-sargento salienta que, hoje, as mulheres na BM são reconhecidas, principalmente pela eficiência e o trato diferenciado, com mais sensibilidade. “Sabemos que, na força, não podemos competir. Trabalhei mais de 16 anos no policiamento ostensivo. Passei por diversas situações de risco, como disparo de arma de fogo, facas e apreensão de drogas. Porém, nunca precisei atirar, porque sempre utilizo as técnicas e obedeço aos princípios de abordagem da BM. Claro que, em alguns casos, é necessário. Mas isso é feito por policiais treinados”, diz. Maribel trabalhou, também, na policia montada, onde, segundo ela, os números de atendimentos eram elevados. “Foi bem na época das invasões de terra e em assentamentos. Passávamos a campo, cuidávamos dos cavalos e, certamente, enfrentávamos dificuldades. Mas são experiências. Passei por diversos ciclos na BM”, enfatiza.
Maribel é casada, tem dois filhos, de 21 e 15 anos, e diz que, com o tempo, aprendeu a lidar com as situações. “A responsabilidade, a culpa e o profissionalismo andam lado a lado. Deixamos de participar de várias etapas da vida de nossos filhos. Em fevereiro de 2017, encerra meu ciclo na BM. E, para mim, encerro com chave de ouro, pois sou instrutora do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) e acredito que conseguimos ajudar as crianças”, garante.
A profissional destaca que, para as mulheres que querem ingressar na Brigada Militar, as palavras são perseverança, autoconfiança e fé. “Essas três coisas me motivaram por estes longos anos. E tudo que sonhamos, temos que buscar”, encerra.

Jerusa Oliz Nunes Alves, 16 anos de atuação/Foto: Divulgação/FS
Jerusa Oliz Nunes Alves, 16 anos de atuação/Foto: Divulgação/FS

Já a soldado Jerusa Oliz Nunes Alves, de 39 anos, e que completa 16 anos na BM, avalia sua história na Brigada como uma transformação. “Me formei em Pedagogia e comecei a prestar concurso público porque queria uma estabilidade. Fiz mais de um ano de curso em Porto Alegre, na Academia de Polícia Montada. Hoje, tenho dois filhos, 19 e 10 anos, mas, na época, deixei meu marido e um filho com três anos de idade, em Bagé, para ir atrás de um objetivo”, explica.
Ela comenta que trabalhou durante dois anos na rua e passou, também, pelo Cartório de Termo Circunstanciado, sessão de justiça, e comunicação social do regimento até que, em 2008, foi para Sant’Ana do Livramento fazer o curso de instrutor do Proerd. “Nesses anos de Brigada Militar sentimos o preconceito. Porém, é bem menor, e as mulheres conseguem desenvolver seus trabalhos com mais facilidade. Na época do curso,de 60 combatentes, apenas 16 eram mulheres. Muitas pessoas perguntam se não temos medo. Concordo que somos um pouco mais frágeis, não temos a mesma força, mas temos a mesma técnica”, destaca.
Sobra a atuação, diz: “Temos mulheres trabalhando em áreas de frente. A BM tem lugar para todos. Eu me encontrei no Proerd. Acredito que o trabalho que fazemos, de prevenção, é para o futuro e tem grande importância. Mesmo dentro da dificuldade por que passamos com a falta de efetivo, estamos atuando em todos os polos”, salienta.
A profissional enfatiza que já passou por diversas ocorrências difíceis. “Logo que cheguei a Bagé, atendi uma ocorrência em que uma pessoa se matou na minha frente. Isso faz a gente pensar no que poderíamos ter feito para evitar. Sempre que saio de casa, peço proteção e que Deus me ajude a voltar. No final do ano, muitas mulheres irão para a reserva. Meu desejo a elas é que tenham muita saúde para aproveitarem o tempo junto a suas famílias. Não é fácil ser mãe, esposa e policial militar. Deixamos de participar de momentos importantes na vida de nossos filhos”, encerra.

FONTE: Folha do Sul

 

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