ZERO HORA: Confrontos com a polícia registram recorde de mortes no RS

21030899Levantamento dos últimos 16 anos mostra que, até o final de junho de 2016, 58 civis foram mortos, mais do que o dobro que no mesmo período do ano passado

O intenso tiroteio entre assaltantes e policiais militares, em Alvorada, no final da tarde desta terça-feira, culminando em três mortes — todas de suspeitos de integrarem uma quadrilha —, um cliente baleado e outras duas pessoas feridas a coronhadas, é o retrato de uma realidade assustadora. Nunca morreram tantas pessoas em confrontos com a Brigada Militar (BM) como neste ano no Rio Grande do Sul. O recorde leva em conta o primeiro semestre dos últimos 16 anos, desde que a Secretaria da Segurança Pública (SSP-RS) passou a divulgar seus indicadores.

Até o final de junho de 2016, 58 civis foram mortos — mais do que o dobro que no mesmo período do ano passado (28 casos) e 81% mais do que o antigo recorde (32), em 2012. No mesmo período deste ano, nenhum policial militar foi morto, assim como aconteceu em 2015 e 2014.

 

Já o índice de feridos é invertido. Caiu, ainda que pouco, o número de civis feridos (de 227 para 224) do ano passado para cá, e aumentou, em 10,5%, o de PMs machucados (de 85 para 94).

O levantamento da SSP não traz a quantidade de confrontos que culminaram em homicídios e ferimentos, mas especialistas ouvidos por ZH acreditam que o cenário é reflexo de um aumento do número de confrontos — e que a tendência é de os índices piorem.

Embora não concordem exatamente sobre o que leva aos embates, analistas e representantes da BM têm uma certeza: a expressão “bandido bom é bandido morto”, definitivamente, não condiz com a realidade. Mesmo com mais civis mortos (e acredita-se que em sua maioria sejam criminosos, por costumeiramente estarem armados e enfrentarem a polícia), os índices de criminalidade continuam subindo.

— Bandido bom, bom entre aspas, é bandido preso. Trancafiado. Encarcerado. O Comando-Geral (da Brigada) não incentiva o evento morte, pelo contrário — ressalta o comandante da BM, coronel Alfeu Freitas, negando que haja qualquer mudança de ordem “superior” no sentido de agir com mais vigor no combate à violência.

Freitas voltou a repetir o que disse após o rumoroso caso do tiroteio em frente ao Hospital Cristo Redentor, ocorrido em abril deste ano na Capital: “se alguém tem de morrer, que seja o bandido”.

— Meliante, quando atira, não se preocupa onde o tiro vai cair. O brigadiano sim. Toda vez que tira a arma do coldre, decide se vai atirar, onde vai atirar, se vai matar. Tem de proteger a si próprio e a todos os inocentes — afirma o coronel.

Para Fernanda Bestetti de Vasconcellos, socióloga, professora da Universidade Federal de Peloas (UFPel) e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, há um sério problema na legitimação social dada à polícia para matar criminosos. Como o que, segundo ela, ocorreu no caso do Cristo Redentor, quando a população ovacionou a morte de quatro suspeitos:

— O perigo é a polícia tomar pra si essa atribuição de matar quem acha que é suspeito. Nisso, se vão inocentes, com certeza. E mesmo aqueles que têm envolvimento com o crime, não têm de morrer. O papel da polícia é prender para a Justiça julgar, não é matar. Não temos pena de morte no Brasil.

Está na questão judicial, segundo Adriano Klafke, tenente-coronel da BM e especialista em gestão no setor de segurança, um dos principais fatores que faz aumentar o número de confrontos com PMs.

— A sensação de impunidade que os bandidos sentem os incentiva a enfrentar a polícia. Eles sabem que estão em maior número, que vão portar arma e não vai dar nada, que o sistema prisional está lotado e que serão soltos. Então, por que não ir para o embate? — aponta Klafke.

Para o especialista, mais importante que o número de mortes em confrontos é encontrar os motivos que levam a elas. Conforme ele, por muito tempo, as execuções entre organizações criminosas, ocorridas na periferia, foram relegadas. Enquanto isso, as facções se empoderaram em termos de capital e de força armada. Bem munidas, elas se espalharam pelas cidades e aumentaram os confrontos com os policiais.

— Precisamos combater a origem dos confrontos. Controlar a entrada de armas. Retirar o estímulo que leva à morte — pondera Klafke.

Embora o número tenha ficado zerado do lado dos PMs, poucos dias depois de encerrado o primeiro semestre, um policial morreu enquanto abordava um grupo suspeito. Presidente da Abamf, entidade que representa os servidores de nível médio da BM, Leonel Lucas defende que é preciso investir no policiamento para que essa estatística não cresça.

— A bandidagem está muito mais bem equipada que a gente. Nosso armamento é obsoleto, e o deles, é de primeiro mundo. Nossa sorte é que somos melhor preparados do que eles. No entanto, é cada um por si. A Brigada não está treinando ninguém — afirma Lucas.

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