PIONEIRO: Crença de que bandido bom é bandido morto mantém um ciclo sem fim

21360062Como crimes de homicídio afetam a qualidade de vida da população

Crença de que bandido bom é bandido morto mantém um ciclo sem fim

A morte de pessoas envolvidas com a criminalidade sempre é comemorada por parte da população, mas essa violência produz reflexos no cotidiano de cidadãos sem relação com a disputa pelo tráfico de drogas e desacertos entre bandidos. A crença de que bandido bom é bandido morto também mantém um ciclo sem fim, que forma novos criminosos, estimula mais matanças e fortalece o tráfico e assaltos.

— Em Porto Alegre, as pessoas de bem estão morrendo com os bandidos, assim como já ocorre em Caxias — lembra o professor Charles Kieling, historiador formado pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) com mestrado em Ciências Sociais na área de segurança pública pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Um dos efeitos mais perversos é a falta de qualidade de vida, segundo Kieling, que já estudou a violência na cidade.

— Se o filho vai sair, fica o medo dos pais, o constante monitoramento, a dúvida se ele vai voltar bem para casa ou não. É o efeito colateral sobre os inocentes dessa guerra da bandidagem, o que impacta no emocional das famílias — pondera Kieling.

Por outro lado, ele reforça que um bandido elimina um desafeto ou concorrente para se impor e faturar mais dinheiro, além de arregimentar parceiros.

— O bandido se empodera e empodera quem está com ele. Significa que ele terá mais poder, mais dinheiro, o que atrai os jovens, dá status. Isso significa mais criminosos nas ruas, mais roubos, mais tráfico.

O juiz Leoberto Brancher tenta, há anos, alertar sobre os riscos de se combater violência com mais violência. Atual coordenador do Programa Justiça Restaurativa para o Século 21 do Tribunal do RS, ele não vê saída com essa estratégia.

— A lógica da eliminação, da negação do outro, desumaniza a resposta contra a violência. Você autoriza o excesso quando aceita que um bandido mate outro. A violência continuará se reproduzindo sempre.

O magistrado entende que Caxias do Sul e outras cidades chegaram ao extremo por falta de freio:

— E onde perdemos esse freio? Por falta de repressão? São três pontos para discutir: o sistema penitenciário, que só tem reproduzido a violência; a exacerbação da população; e a disfuncionalidade da Justiça: esse cara que cumpriu a pena está apto a voltar para a sociedade? É violência para neutralizar outra.

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