ZERO HORA: SOLDADOS DO TRÁFICO EM BONDES DO TERROR

Depois de presos em confronto com a BM, e de terem um companheiro morto, eles continuaram ameaçando rivais Foto: Reprodução / Diário Gaúcho
Depois de presos em confronto com a BM, e de terem um companheiro morto, eles continuaram ameaçando rivais
Foto: Reprodução / Diário Gaúcho

A ousadia de criminosos parece se superar a cada dia em Porto Alegre. Não bastam execuções em saguão de aeroporto, dentro de hospital, pais assassinados diante de filhos, esquartejamentos, chacinas. Na última semana, o Ministério Público denunciou cinco homens pela morte de um empresário, por engano, dentro do estacionamento de um supermercado da Zona Sul. Dois deles – Geovani Bueno Antunes, o Choupana, 22 anos, e Carlos Henrique dos Santos Duarte, o Nego Beiço, 18 anos – aparecem em um vídeo feito por um policial após a Brigada Militar prender 10 suspeitos de participar de um bonde para atacar facção rival e tomar o ponto de tráfico. Confira, nessas páginas, como esses jovens poderiam ter tomado rumos diferentes em suas vidas caso o crime não tivesse cruzado seus caminhos.

O primeiro chamado veio de boca em boca, nas ruas da Vila dos Sargentos, na Zona Sul: um bonde partiria para atacar os pontos de tráfico do Beco do Adelar, no bairro Aberta dos Morros, controlados por uma facção rival. Era a continuação da missão que acabou com a execução do empresário Marcelo Dias, 44 anos, no Zaffari da Cavalhada.

Josimar Bandeira Corrêa, 21 anos, escalado para fazer parte do grupo, ficou contrariado. Era 22 de outubro, sábado, e ele estava com a namorada. Comentou que não iria. Mas contato via WhatsApp reforçou a convocação.

– Quando chega essa mensagem, é proibido dizer “não” à facção – contou um amigo que não quis ser identificado.

Um carro parou e um fuzil lhe foi entregue. O humor mudou: passou à euforia de quem está acostumado a partir para matar ou morrer. E foi com o bonde para a missão. Cerca de três horas depois, moradores aplaudiam a saída de um ônibus da BM, com os presos, no Beco do Adelar. O local havia sido palco de batalha. Policiais e criminosos tiveram intensa troca de tiros. Um dos suspeitos, Régis Maurício Lima Alves, 27 anos, morreu. Sete jovens foram presos e três adolescentes, apreendidos. Todos foram colocados em um ônibus. Alheios aos aplausos da rua, foram filmados por um PM em vídeo de 17 segundos.

– O que alimenta as facções é este conceito de “vida loka”, que vivenciam no dia a dia. São jovens sem perspectivas e com uma missão. Não há preocupação com o futuro, nem com quem esteja mais próximo. Do tipo ‘se tiver de assaltar, assalto. Se tiver de matar, mato’. A morte realmente faz parte – avalia o delegado Rodrigo Pohlmann, do serviço de inteligência da Secretaria da Segurança Pública (SSP), que mapeia facções criminosas da Capital.

No vídeo, pouco se importam que atrás da câmera está um PM. Um avisa que irá esquartejar, e outro, que matará.

– É a quebra do limite moral, eles não têm medo de sofrer punição. São vaidosos ao extremo. Não basta pertencer ao grupo, ser bandido. É preciso ser bandidão. Há outra escala de valores. O arrependimento ou sentimento da perda de companheiro ficam para segundo plano – explica o psiquiatra Luiz Carlos Illafont Coronel, do Gabinete de Gestão Integrada da SSP.

PRISÕES SÃO COMO CAMPOS DO ESTADO ISLÂMICO, AFIRMA JUIZ

Reginho, morto no confronto, era morador da Vila dos Sargentos, como a metade dos ocupantes do ônibus. Tinha trajetória semelhante a todos: jovem, usuário de drogas e envolvido em outros crimes que o levaram cedo à prisão.

– Para uma pessoa tida como clinicamente normal, o uso de drogas tem potencial de multiplicar até três vezes o comportamento violento. Em alguém com transtornos mentais, o potencial sobe para 10 vezes – afirma Luiz Coronel.

Segundo ele, 84% da população carcerária hoje sofre de algum transtorno mental. Desde a dependência química, que aflige metade dos detentos, até esquizofrenia, bipolaridade ou depressão. A maior parte não é diagnosticada, muito menos tratada. No mundo do crime, eles se tornam úteis.

– É preciso criar presídios mas, principalmente, tratar detentos – avisa.

Mesmo que a estrutura de comando tenha nas cadeias seu escritório, a construção de soldado disposto a matar ou morrer começa antes. O aplauso da comunidade no Beco do Adelar, para o juiz Sidinei Brzuska, é inútil.

– As prisões hoje são como campos de treinamento do Estado Islâmico. Um preso já chega ao sistema como uma bomba prestes a explodir, e ela não é desarmada em uma galeria que vive e fala do crime o dia inteiro. É o efeito contrário da ressocialização.

O psiquiatra vai adiante:

– Estamos depositando diariamente um exército de jovens, de mão beijada, para essa estrutura. É a desestruturação das famílias e da sociedade – diz.

O papel da figura paterna é mostrar limites, conforme o psiquiatra. Esse é o principal ponto de ruptura que se vê nas periferias.

– A sociedade precisa oferecer a essas famílias suporte para contrapor a ausência paterna. Seja com mais creches, escolas de tempo integral ou atividades. Se o Estado não investir em questões básicas, o jovem busca valores errados – explica.

Sem referências positivas, o comportamento violento tende a se multiplicar. Em 70% dos casos de criminosos com transtorno antissocial houve, sobretudo na infância, algum episódio violento que o marcou para sempre.

EDUARDO TORRES

JOVENS PRONTOS PARA MATAR OU MORRER

Bonde, no jargão do crime, é como um grupo de assalto em uma guerrilha. É formado para missão ordenada pelo comando da facção. Não há tempo para questionar a ordem.

– É como uma “grenalização”: eles agem apaixonadamente por uma causa que não explicam. É fé cega. Aí entra em cena o efeito manada – observa o juiz Sidinei Brzuska.

Aquela missão de 22 de outubro foi iniciada dois dias antes, em um ataque errado no estacionamento do supermercado Zaffari. Na tarde do sábado, o objetivo não seria mais a um alvo do grupo inimigo, mas à base dele.

Não são mais criminosos de uma comunidade que se reúnem para o ataque, mas os chamados para o bonde funcionam como uma tropa convocada.

– Eles vêm de diversos lugares, geralmente controlados pela facção. Recebem mensagem pelo celular para estar em tal lugar, tal hora, onde um carro tal vai apanhá-lo. Recebe arma e cumpre a missão. Depois, mensagens são enviadas ao comando para comprovar o cumprimento da missão. Muitas vezes os envolvidos nem se conhecem, mas negar a participação no bonde pode significar a morte deles. São como funcionários – aponta o delegado Rodrigo Pohlmann.

Naquele bonde, a facção usou jovens da Vila dos Sargentos – de onde teria partido o líder do grupo – na Zona Sul, das vilas da Tamanca e Ipe, na Zona Leste, de Viamão e de Alvorada.

COMO VAI SER O AMANHÃ, POUCO IMPORTA, AVALIA DELEGADO

A recompensa por isso está bem longe de ser o glamour de vida lucrativa no crime. De acordo com a polícia, quem vai no bonde, já é funcionário do grupo. Recebe para atuar em assaltos e no tráfico de drogas, mas neste mundo em que matar ou morrer faz pouca diferença, não há espaço para o acúmulo. O dinheiro que ganham geralmente é consumido em uma noite, esbanjando, ou na compra de armas.

Mesmo que a guerra entre facções represente muita lucratividade para quem está no topo da pirâmide do tráfico de drogas, para quem integra um bonde, a lógica é outra. A maioria dos integrantes daquele bonde é miserável.

– Contentam-se com o leite do dia, a comida do dia e amanhã veem como vai ser. O importante é a satisfação do momento – avalia o delegado.

SOLDADOS DO TRÁFICO CONTRATADOS NA CADEIA

A relação de emprego surge geralmente na cadeia. Na galeria controlada pela facção, o detento com menos condições financeiras passa a ser sustentado pelo grupo. E isso geralmente se reverte em dívida a ser paga nas ruas.

A reportagem conta, ao lado, a história dos integrantes deste bonde, presos naquele sábado, e gravados pelo policial militar. Foram ouvidos mãe, pai, mulher e amigos que mostram os caminhos que os levaram a matar ou morrer pelo crime, e são apontadas possíveis alternativas para que evitassem a vida pregressa.

Herdou o crime

Em uma das mãos, a tatuagem denuncia: BNC. É a abreviatura da facção Bala na Cara que Vágner Reis Júnior, 22 anos, carrega. Para o pai, uma sentença.

– Quando entra nesse negócio de facção é horrível. Só tem dois caminhos: a morte ou Jesus – diz.

Vágner Reis, 41 anos, sabe do que fala. E tem noção da sua participação na chegada do filho até o bonde que invadiu o Beco do Adelar. Quando o filho tinha 10 anos, se envolveu com drogas, tráfico e acabou preso. Na cadeia, reverteu o rumo. Converteu-se à religião.

– Tudo na vida é aprendizado. Assim como aprendi, ele também vai ter de tomar essa atitude por ele mesmo.

No vídeo, Vágner Júnior, algemado, conserva um sorriso irônico e também solta gritos, em tom de ameaça aos rivais. O envolvimento do jovem aconteceu na Vila Castelinho, área dominada pela facção em Viamão, aos 16 anos.

Na última vez que tentou conversar com o filho, meses atrás, o pai pressentiu que a prisão seria questão de tempo. O rapaz só falava em armas, facção, “cheio de gírias”. Antes de ser preso, ainda entregou seu filho aos cuidados do avô. Com uma frase que ficou na memória dele: “Prefiro ele nas mãos do senhor do que como eu, com uma arma na mão”.

Emprego na facção

– Emprego para cadeieiro, nem pensar.

A frase calou o jovem, com 20 anos, recém saído do Central. Ainda não foi condenado pelo homicídio que o colocou lá, mas soou como sentença.

Primeiro, a perda do pai, morto a tiros, aos seis anos. Depois, aos 16, outra porta fechada: abandonou a escola no 6º ano para cuidar da primeira filha. Mas foi depois daquela resposta que Jonatan tomou a decisão que o levou a estar naquele bonde.

– Aquele dia ele voltou para casa muito revoltado, disse que não tinha mais jeito. Iria fazer tudo o que a facção mandasse. Seria o emprego dele – conta a companheira, Greice Correia, 22 anos.

A família mora na Vila Castelinho, em Viamão, em lugar que deveria ser uma casa de alvenaria. Mas o imóvel está desabado, restou só uma peça e é onde as meninas sobrevivem do jeito que dá. O pai não tem parada fixa. Vai para onde lhe mandam.

Quando preso, Jonatan já vivia em condições precárias. Na galeria, era um “caído”. A facção custeou sua estadia e o jovem saiu devendo. Sem emprego formal, virou soldado do crime. Por isso, Greice não se surpreendeu com o que viu no vídeo. O ódio de Jonatan, nas imagens, é quase automático: “Vai morrer!”, ele grita.

Mente transtornada

Com olhos vidrados, estampando a tensão, foi o último a falar no vídeo. Atropelando as palavras, disse: “O fuzil que tava na minha mão, ia cravar ele no…”.

Quando soube, o aposentado Línio Corrêa, 73 anos, não conteve o choro. Triste, tentava se conformar, sobretudo, com a impotência diante do mundo do crime em que se encontra o filho.

– O ódio é normal na situação em que ele está. Tenho muito medo pelo meu filho e pelos outros que estão próximos dele.

É que, mais uma vez, Josimar foi tratado pelas autoridades como preso comum. Foi enviado à Pasc junto dos outros integrantes do bonde. No casebre simples do fundo de um terreno no Guarujá, na Zona Sul, o pai guarda uma mochila com calhamaço de documentos, laudos e todo o tipo de registro possível demonstrando que Josimar sofre de transtornos mentais graves. Uma sacola plástica, igualmente cheia, expõe o risco. São os medicamentos que o jovem se negou a tomar. O transtorno cognitivo grave se mostrou um dos sinais da esquizofrenia, diagnosticada aos 12 anos.

Junto nesse cenário, o uso de drogas e o convívio com o tráfico na Vila dos Sargentos. Até que, naquele sábado, colocaram um fuzil em suas mãos.

O bonde caiu

Morador da Vila dos Sargentos, Geovani Bueno Antunes, o Choupana, 22 anos, fica em silêncio no vídeo, com olhar preocupado.

Para a polícia há um motivo para isso: ele teria sido alçado ao comando da quadrilha depois da prisão de um dos gerentes do bando dias atrás. Seria responsabilidade dele organizar o bonde que atacou o Beco do Adelar, assim como a emboscada que acabou na morte, por engano, do empresário Marcelo Oliveira Dias, 44 anos.

Na lógica da facção criminosa, ele deixou um prejuízo para trás. Tanto pelas prisões quanto pela perda de armas no confronto com a Brigada Militar. Até chegar ao bonde que atacou o Beco do Adelar, Geovani colecionou passagens pela polícia e os benefícios da impunidade.

Em 2013, aos 16 anos, ele conseguiu a proeza de ser relacionado em quatro atos infracionais diferentes no intervalo de apenas quatro meses. Só foi internado na Fase depois do último caso, em agosto daquele ano. Na instituição, ficou conhecido por um histórico problemático.

“Não era o meu filho”

Quando o vídeo começa, Carlos Henrique é um dos mais agressivos. Fala alto, olha para a câmera e, sem se importar que um PM é quem filma, dispara: “Vai ver, ET, vamos te esquartejar”. A vigilante Mara Regina Silva dos Santos, 38 anos, mãe dele, não acredita no que viu.

– Aquele não era o meu filho. Aquele ódio não é dele. Sempre foi um guri alegre. Nunca foi agressivo.

Horas depois, preso, desabou em frente à mãe.

– Chorou muito, pediu que eu ajudasse. No fundo, acho que pela ausência do pai, protegi ele demais. Talvez não tenha dado limites. Se ele fez mesmo tudo o que estão dizendo, terá de pagar – desabafa.

Morador de Viamão, Carlos Henrique completou 18 anos quatro meses atrás. O rapaz foi denunciado pelo Ministério Público como um dos atiradores que vitimou, por engano, o empresário no estacionamento do Zaffari, dois dias antes de cair no bonde que invadiu o Beco do Adelar.

Aos 15 anos, ele abandonou a escola, no 4º ano do Ensino Fundamental. Foi quando, lembra a mãe, ele resolveu procurar o pai. Chegou a conviver por um tempo com ele, na Zona Norte de Porto Alegre, mas não deu certo. Aí o rumo do Carlos Henrique mudou. Em 2013, teve o primeiro registro policial, em um caso de ameaça, com faca, em uma escola de Viamão.

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