OSCAR BESSI: O salvador de Santa Maria

Por Oscar Bessi CORREIO DO POVO

Foto: sequência de registros do Sd Corrêa – no policiamento, com o menino caiense Guilherme, um grande amigo dos PMs, e na sua saudação de praxe aos banhistas da Guarita 88, em Atlântida.

Não sei exatamente a data, mas lá se vão quase dez anos. Um rapaz, recém-saído da adolescência, deixou a sua querida Santa Maria para se entregar ao sonho de ser policial militar gaúcho. Um soldado do Interior. Não foi uma batalha fácil passar pela bateria de exames intelectuais, físicos, médicos, psicológicos e ser aprovado num concurso com milhares de concorrentes. Alguém perguntará, como me fez uma amiga escritora portuguesa, qual a lógica de tantos ainda toparem a função policial neste Brasil de violências absurdas e rotineiras, famoso por não apreciar muito quaisquer regras, e menos ainda que as fiscaliza. Simples, também é da diversidade humana isto de ter ideal. De aceitar romper muralhas, educar, ser correto, enfrentar a moda. E nas mais áridas terras, no mais inóspito rincão de mundo, sempre haverá alguém disposto a semear o que há de mais belo entre nós.

Pois este jovem não só ingressou nos quadros da Brigada Militar, classificado numa cidade distante da sua, como se tornou salva-vidas. E todo verão lá vai ele, a mochila repleta de convicções e energias, disposto a encarar uma missão tão árdua quanto enfrentar as balas dos criminosos: zelar pela vida dos banhistas à beira-mar. Praia, no verão, remete a dias de justo relaxamento, gritos de liberdade contra o estresse do ano inteiro, e excessos, e folias, e descuidos. Menos para o salva-vidas. Este precisa estar na sua guarita o dia inteiro, todos os dias, com o olhar atento a cada centímetro da orla lotada, músculos prontos para entrarem em ação assim que uma criança, ou um adulto, correr perigo, sucumbir às artimanhas perigosas das ondas ou escorregar no próprio descuido com as regras de segurança. Neste momento, ele tem frações de segundo para salvar ou perder vidas.

Há poucos dias, Eduardo Corrêa, o rapaz de Santa Maria, um colorado simpático que serve na BM de São Sebastião do Caí, confessou aos amigos estar um pouco triste. Viveria outro Natal e Ano-Novo longe da família, renúncia praticamente ininterrupta desde que se propôs àquela missão. Então, no mesmo dia, ele já encerrava suas atividades e desativava sua guarita quando, em seus primeiros minutos de folga, ouviu alguém gritar que havia um casal no mar, em apuros. Largou tudo e entrou na água. Salvou uma menina de 19 anos e um rapaz de 29, que chegou a ser hospitalizado, mas sobreviveu sem nenhuma sequela. “Nada é em vão nesta vida”, ela disse aos mesmos amigos, depois, dizendo-se feliz por estar ali, naquele momento, para poder salvar os dois jovens. Longe dos seus, ele irradiava alegria ao pensar sobre seu dia na solidão noturna das horas depois. Eu sei, meus leitores dirão que 2017 começou como todos os anos, cheio de mortes, chacinas e tragédias. Mas a história do Soldado Correa, parecida com outras tantas de todos os verões, merecia ser contada.

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