PIONEIRO: Um único policial civil é responsável por organizar e monitorar criminosos foragidos em Caxias

Foto: Roni Rigon / Agencia RBS

Em um ano, investigador retirou das ruas 94 homens com mandados de prisão, condenados na Justiça ou que fugiram de presídios

Leonardo Lopes PIONEIRO

Enquanto a sociedade lamenta a impunidade de bandidos que cometem crimes e seguem livres nas ruas, uma pequena equipe de policiais comemora cada captura de foragido em Caxias do Sul. Foram 94 homens com mandados de prisão, condenados na Justiça ou que fugiram de presídios retirados das ruas em 2016. O trabalho é organizado e liderado por um único policial na Delegacia de Furtos, Roubos, Entorpecentes e Capturas (Defrec). Ele prefere ser chamado apenas de inspetor Maciel e monitora uma lista com 480 foragidos, estabelece redes de informações e desenvolve operações discretas com apoio dos colegas de delegacia.

É um trabalho minucioso. Originalmente, a atuação da Defrec deveria ser restrita a presos com condenações no regime fechado ou de alta periculosidade como assassinos e estupradores. Porém, de acordo com o delegado Mário Mombach, a falta de estrutura de todos os órgãos fez com que o setor de Capturas tenha que agira no atacado. Assim, diariamente, Maciel estuda a listagem de foragidos enviada pelo Poder Judiciário e estabelece parâmetros para capturá-los.

— Não procuramos apenas um foragido, estamos sempre atrás de vários. O foco é em mais de 20. Conforme vão surgindo as informações, avançamos e montamos as arapucas. Ninguém some sem deixar rastros — garante o investigador.

O rastreamento começa de forma aleatória. Vale estudar a personalidade do foragido, mapear onde ele morava, o que fazia e com quem andava. As denúncias da comunidade são uma importante ferramenta, mas a maioria das pessoas reluta em ajudar por medo de represálias dos criminosos. A investigação precisa ser cautelosa e certeira.

— É um trabalho de inteligência. Mais de 80% (dos foragidos) sabe que está sendo procurado e muda de endereço. Aos poucos descobrimos onde estão e avançamos.  Afinal, caso algo dê errado, serão mais seis meses até encontrar o rastro de novo — aponta Maciel.

A regra da Polícia Civil é trabalhar em duplas. Por segurança, nenhum agente é autorizado a ir cumprir uma prisão sozinho. Só que a crônica falta de policiais no Rio Grande do Sul impossibilitou que o setor de Capturas tivesse um segundo investigador, como seria o ideal. Assim, quando há informação do paradeiro de algum foragido, o inspetor Maciel precisa pedir apoio dos demais integrantes da Defrec. Quando o efeito está reduzido, é inspetor e o próprio delegado que saem à caça dos foragidos.

Contudo, a Defrec prefere ver a questão por um outro lado: a excelência do trabalho desenvolvido. O principal ponto, na opinião do delegado, é o baixo número de confrontos. A única troca de tiros deste ano ocorreu em 28 de novembro e terminou com Marcelo Rodrigues da Rocha, 29 anos, baleado na perna. Ele era procurado desde 4 de outubro e possuía condenação de 9 anos por tráfico de drogas.

— É um trabalho extremamente discreto e que não termina em enfrentamento. Claro, há uma resistência de alguns procurados, mas a maioria é surpreendida e entende que já perdeu — ressalta Mombach.

Número de capturas da Defrec é recorde

Cada captura vai para o livro de prisões da delegacia. Desde 2004, são 718 nomes registrados. Apesar do ano conturbado na segurança, com falta de efetivo e salários parcelados, as 94 prisões de 2016 representam o maior número dos últimos 12 anos. Para o delegado Mário Mombach, a única explicação possível é o gosto pela atividade policial.

— É só comprometimento e coração destes policiais envolvidos. Isso que faz a diferença entre um policial bom e um mais ou menos — opina.

O inspetor Maciel, que foi promovido a chefe da investigação da Defrec no final do ano passado, admite que o trabalho no setor de capturas é quase uma diversão.

— Virou um esporte para mim. Gosto de buscar, de resolver estes quebra-cabeças, até nos finais de semana, quando nos mobilizamos para fazer a captura no momento certo. Tem vezes que eles só vêm para a cidade passar um dia e precisamos estar atentos — comenta.

O trabalho infiltrado até chegar ao procurado também gera boas histórias. Certa vez, os agentes da Defrec descobriram que a única forma de chegar a um foragido era por meio de compradores de gado.

— Estudamos como seria e fomos ver o rebanho. Chegamos de caminhonete, mas o capataz da fazenda avisou que carro não chegaria até o local e teríamos que encilhar os cavalos. Ficamos nos olhando, porque não tínhamos nenhuma experiência em lida de campo. Quem vai comprar gado, sabe encilhar. Mas não podíamos estragar o disfarce. Fizemos de qualquer jeito, andamos com a cela quase caindo, mas conseguimos chegar. Confirmamos que era o gado roubado e, na hora da compra, prendemos o procurado — relembra.

Brigada Militar retirou 378 bandidos das ruas

A Brigada Militar é a responsável por um número maior de prisões: foram 378 foragidos capturados entre janeiro e novembro do ano passado. Porém, o trabalho dos policiais militares ocorre por meio de barreiras, perseguições, abordagens e denúncias que chegam da comunidade. Na Polícia Civil, a ação ocorre por definir um alvo e rastreá-lo.

— É preciso ressaltar que a BM prende mais e faz este trabalho de rua. Só que, no caso deles, os foragidos acreditam que são pegos por azar. No nosso caso, o fator psicológico é maior, porque há um trabalho de polícia judiciária indo atrás dele. Não é algo circunstancial. Na maioria das vezes, os presos ficam chocados de imaginar que o Estado está dando uma resposta — opina o delegado Mombach.

O total de 472 prisões em 2016 _ somando o trabalho da BM e da Polícia Civil _ mostra o quanto a lista de foragidos é dinâmica. Isso seria reflexo da morosidade dos processo judicias, que levam anos para um desfecho, e a fragilidade da fiscalização da progressão de regimes no sistema penal.

Apesar do número expressivo de 2016, os agentes da Defrec lamentam não ter alcançado o objetivo estabelecido: chegar as 100 capturas.

— Queríamos e teríamos condições. Mas há outras ocorrências na delegacia que precisam de velocidade (na resposta) ou tem prazo de conclusão e a captura é suspensa. Para 2017, pretendemos ultrapassar o número de 2016 —complementa Maciel.

POR TODOS OS LADOS

Por motivos óbvios, a Defrec não escancara sua forma de trabalho. No entanto, algumas estratégias inusitadas que resultaram em prisão podem ser reveladas. Alguns casos envolvem monitoramento de mais de oito horas. Confira outras artimanhas que já foram usadas para atrair e flagrar foragidos:

Marcar encontros se passando por mulheres
Fingir que o pneu de um carro furou
Desligar a luz na caixa para fazer o morador sair de casa
Vender livros de porta em porta até chegar ao foragido
Pegar uma roçadeira e ficar na estrada, para poder monitorar o endereço de um foragido

DENUNCIE

Na lista de procurados pela Defrec no ano passado, há desde homens e mulheres envolvidos em pequenos delitos a criminosos com vasta ficha na polícia.

Um dos fugitivos, por exemplo, é Odair Vieira Rodrigues, o Jaja, 40 anos. Ele é procurado desde junho de 2009, quando progrediu para o regime semiaberto e fugiu. Em 2012, a Justiça decretou novamente a sua prisão para cumprimento para cumprimento de uma pena de 56 anos por crimes variados. É acusado de uma tentativa de assassinato ocorrida em 2013 em Vacaria. Jaja tem passagens também por roubos (a maioria a residência), sequestro-relâmpago e porte ilegal de arma. Gosta de frequentar a área rural. Foi visto pela última vez na localidade de Santo Antão, em Galópolis, em agosto do ano passado. Também costumava circular por Vila Seca e Parada Cristal.

Informações sobre o paradeiro de Jaja e de outros foragidos podem ser encaminhadas para a Defrec no telefone (54) 3221.4555, em horário comercial, ou pelo aplicativo WhatsApp no número (54) 98432.9312. O telefone 181 (Disque-Denúncia) também atende 24 horas.

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