“Não tem como nos controlarem”: mulheres contam como pararam a PM do ES

Familiares de policiais militares em manifestação em frente ao Quartel do Comando Geral da PM

Familiares de policiais militares em manifestação em frente ao Quartel do Comando Geral da PM

Paula Bianchi

Do UOL, em Vitória

Na entrada do principal quartel da Polícia Militar de Vitória, no bairro de Maruípe, quem decidia quem entrava e saía do local na manhã desta terça-feira (7) era um grupo de cerca de 30 mulheres, familiares de policiais militares.

Acampadas no local desde sábado (4) e armadas com panelas, buzinas e cadeiras de praia, elas controlam os portões do quartel, em meio a reações ora de apoio, ora de censura por parte da população.

Um dos policiais militares que fazia a guarda do quartel avisou que alguns PMs poderiam sair sem farda, e logo as mulheres mudaram de posição, colocando cadeiras de praia em frente ao portão –há grupos de manifestantes posicionadas em todas as saídas do quartel.

Sem se identificar –”somos todas Maria hoje”–, elas contam que decidiram começar o movimento por WhatsApp. Uma avisou a outra, e logo um grupo foi para a porta do quartel, espalhando o movimento Espírito Santo adentro.

Aos 67 anos, C. chegou ao acampamento no domingo (5), após ficar sabendo do movimento por amigas. “Essas coisas hoje são como rastilho de pólvora. Não tem como nos controlarem”, diz.

Irmã, sogra e tia de PMs, ela diz estar ali pela família. “Estamos todos cansados, são sete anos sem aumento. Você vê os seus saindo para trabalhar e não sabe se eles vão voltar.”

Durante o tempo que a reportagem passou no local, os poucos carros que deixaram o quartel pediram permissão às manifestantes para passar. “Aquele ali é da Polícia Civil, ele pode ir”, disse uma das mulheres, explicando porque haviam deixado que um carro deixasse o local.

“Ficam falando em greve, mas PM não pode fazer greve e familiar muito menos. Isso não é uma greve deles, é um movimento nosso”, disse a mulher de um PM.

Segundo elas, os policiais querem trabalhar. “Mas se saírem, deito no chão, não vão passar por cima.”

Cada entrada do quartel conta com uma barraca grande, com colchões e cobertores, e um toldo. Há café, leite, pão, biscoitos, frutas, frios e até uma sanduicheira.

“Trouxemos tudo de casa e também tempos recebidos doações da população, que sabe que estamos fazendo isso por eles também”, diz.

Ofensas x elogios

A reação dos moradores da cidade varia entre ofensas –um motociclista chegou a descer e discutir com uma manifestante, mas partiu quando elas ameaçaram chamar os PMs dentro do quartel–, e elogios.

Um cabo de folga, que preferiu não se identificar, passou caminhando pelo local fez questão de parar para cumprimentá-las. “Parabéns pela iniciativa, nós estamos com vocês”, afirmou.

Uma professora de 22 anos chorou ao falar do noivo. “Eu costuro a farda do meu namorado. Ganhando R$ 900, como você vai fazer planos, pensar em casar, ter família?”, questiona.

As manifestantes minimizam os dados do Sindipol-ES (Sindicato dos Policiais Civis do Espírito Santo) que apontam que mais de 60 pessoas foram assassinadas desde sábado (4), quando iniciaram o movimento.

“Estão fazendo isso para nos desacreditarem, não é real, o Estado sempre foi violento.” A média diária de homicídios no Estado praticamente sextuplicou, com base nos dados do sindicato.

Uma das mulheres explica que elas só pretendem deixar as portas dos quartéis quando forem recebidas pelo governador, Paulo Hartung. “Eles querem nos vencer pelo cansaço, mas nós vamos cansar eles antes”, diz.

Em nota, a Secretaria de Segurança informou que só dialogará com os familiares de policiais quando os agentes voltarem ao trabalho nas ruas.

Entenda a crise no Espírito Santo

No sábado (4), parentes de policiais militares do Espírito Santo montaram acampamento em frente a batalhões da corporação em todo o Estado. Eles reivindicam melhores salários e condições de trabalho para os profissionais.

Desde então, sem patrulhamento nas ruas, uma onda de violência tomou diversas cidades.

A Justiça do Espírito Santo declarou ilegal o movimento dos familiares dos PMs. Segundo o desembargador Robson Luiz Albanez, a proibição de saída dos policiais caracteriza uma tentativa de greve por parte deles.

A Constituição não permite que militares façam greve. As associações que representam os policiais deverão pagar multa de R$ 100 mil caso a decisão seja descumprida.

A ACS-ES (Associação de Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiro Militar do Espírito Santo) afirma não ter relação com o movimento. De acordo com o cabo Thiago Bicalho, do 7º Batalhão da Polícia Militar do Estado e diretor Social e de Relações Públicas da associação, os policiais capixabas estão há sete anos sem aumento, e há três anos não se repõe no salário a perda pela inflação.

Segundo o secretário estadual de Segurança Pública, André Garcia, as negociações sobre salários e condições de trabalho de policiais serão feitas apenas quando o patrulhamento na rua for retomado e a situação estiver controlada.

O ministro da Defesa, Raul Jungmann, disse nesta segunda (6) em Vitória que militares das Forças Armadas ficarão no Espírito Santo durante o “tempo necessário” para que a ordem no Estado seja restabelecida.

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