ZERO HORA: Como as facções criminosas avançam pelo interior do RS

Nas ruas simples do Interior, a marca das facções passou a fazer parte do cenário cotidiano Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Articulados a partir dos presídios, criminosos que espalham terror pela Região Metropolitana expandem sua influência. Em busca de vantagens no mundo do crime, estão fatiando o Estado

Por: Eduardo Torres

Só há um muro na rua de casas simples, piso de paralelepípedos, típica do interior, no bairro Madre Tereza, em Santo Antônio da Patrulha. É a parede lateral do salão de uma igreja. Pois foi ali que a chegada das facções criminosas deixou sua marca. Em tinta azul: ¿14-18-12¿, marca dos Manos, com referência a artigos da antiga lei de drogas. Abaixo, em preto: ¿BNC¿, Bala na Cara.

Desde o começo do ano, este é um ponto sob disputa dos dois principais grupos criminosos originários da Região Metropolitana. A algumas quadras da pichação, Pedro Conceição, 19 anos, e o sobrinho João Pedro Conceição, quatro anos, foram executados em um ataque contra a casa de madeira da família em 29 de maio. Noventa e três cápsulas deflagradas foram recolhidas. O tio, de 55 anos, que estava junto, não sabe explicar exatamente o que aconteceu. Desde aquela noite, não consegue dormir. A família assistia a um filme quando criminosos invadiram a casa e abriram fogo:

— Me joguei no chão e rezei. Foi o que deu para fazer naquela hora — desabafa.

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Conforme o delegado Valdernei Tonete, as vítimas não eram os alvos do bando. Pedro não tinha envolvimento com a criminalidade. A vida dele, segundo o tio, era dedicada a cuidar de cavalos e galinhas que ficaram no pátio da casa.

As mortes engrossaram uma conta macabra no município de 43 mil habitantes: nove pessoas já foram assassinadas este ano. É o mesmo número registrado em todo o ano passado.

A mãe e os oito irmãos de Pedro, entre eles a mãe de João Pedro, foram embora da cidade.

— Está todo mundo apavorado porque poderiam ter atirado em qualquer casa. Moro há 20 anos aqui e nunca vivi nada parecido — diz uma moradora de 44 anos, que pede para não ser identificada.

Santo Antônio da Patrulha é o palco mais recente de um novo estilo de avanço da criminalidade pelo Estado. Desde o ano passado os homicídios saltaram no Litoral Norte, sobretudo em Capão da Canoa, que teve aumento de 66% nos assassinatos no primeiro trimestre deste ano. Os Bala na Cara e Os Manos disputam entre si o controle e fatiam o Rio Grande do Sul. Em pelo menos sete regiões, fora da Metropolitana, há relatos da presença deles.

Com 13 mil habitantes, Santo Augusto, no Noroeste, vive em pânico depois de uma investida com tiros a esmo que resultaram na morte de um idoso de 69 anos sem envolvimento com a criminalidade. Os homicídios aumentaram 60% na região em relação aos cinco primeiros meses de 2016. No Sul, São José do Norte já perdeu 14 jovens este ano. É quase o triplo de todo 2016. Nos vales do Taquari e Rio Pardo, as facções já interferem até no mercado de cigarros.

A situação se agravou no início deste ano a partir de uma espécie de ¿doutrinação¿ de criminosos próprios de cada região depois de presos e em contato com líderes da Região Metropolitana. O objetivo vai além da possibilidade de exclusividade na venda de drogas em uma determinada área. Os tentáculos das facções criam cadeias de comércio ilegal e controle de rotas de drogas e armas no Estado. E quando encontram regiões fragilizadas pela falta de policiais nas ruas, a criminalidade dispara. Na Região Noroeste, o roubo de veículos aumentou 166% no primeiro trimestre deste ano em relação a 2016.

Articuladas a partir dos presídios, as facções têm na superlotação do sistema o combustível ideal para arregimentar mais integrantes. Este é um dos motivos para o avanço no Litoral Norte. Segundo a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), a Penitenciária Modulada de Osório — única casa prisional na região — tem ocupação 120% acima da capacidade: tem vaga para 800 e está com 1.758 presos.

Para as facções, a vantagem de ter aliados no Litoral é tanto logística — para eventuais fugas — quanto comercial, já que o fornecimento da droga é feito a partir da base da facção. Aos traficantes locais, a sociedade é a garantia de segurança para manter seus pontos.

De acordo com o diretor de Polícia do Interior, delegado Fernando Sodré, a presença de facções cada vez em mais regiões do Estado é a maior preocupação atual do departamento. O foco é detectar as fontes de lucratividade e descapitalizar os grupos criminosos com ações contra a lavagem de dinheiro, por exemplo. Mas, admite, é insuficiente:

— A articulação acontece nas cadeias. Tanto com presos do Interior levados à Região Metropolitana, quanto o contrário. A prioridade de qualquer ação pública hoje tem de estar centrada em assumir o controle do sistema prisional. Com as cadeias lotadas, fica quase impossível separar o joio do trigo.

O diretor do Departamento de Segurança e Execução Penal da Susepe, Ângelo Carneiro, admite que a superlotação é um fator facilitador. Números da superintendência apontam cadeias lotadas em todas as regiões onde foram detectadas movimentações.

— Todo e qualquer grupo nas nossas prisões está mapeado. É um trabalho permanente do nosso serviço de inteligência e de troca de informações com a Brigada Militar, Polícia Civil, Polícia Federal e até a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) — detalha.

Segundo ele, mais de 15 ações de facções se organizando no Interior já foram detectadas e sufocadas.

Para o sociólogo Juan Fandino, o fenômeno atual começou a ser gerado quando o crime chegou ao Interior. A dependência da estrutura das grandes facções, agora, é consequência quase natural.

— Nesse momento as facções estão no seu apogeu, têm mais dinheiro e buscam lucro. Não são os criminosos daqui que vão para lá, mas eles que exercem a influência e garantem a dependência das demais regiões de toda a estrutura que criaram — explica.

O Estado precisa agir, aponta o especialista, para garantir que o atual momento seja somente um ciclo. Precisa evitar que as facções se perpetuem:

— A facção se fortalece do esgotamento da reserva moral de uma comunidade, temos visto isso nas periferias de Porto Alegre e nos presídios superlotados, onde exercem controle total. Comunidades empobrecidas, sem assistência plena do Estado se tornam terrenos férteis para a estrutura criminosa.

Em casos pontuais, houve reforço do policiamento após aumento no número de homicídiosFoto: Jean Pimentel / Agencia RBS

Formas de barrar as facções

Novos presídios: a principal fonte de disseminação das facções para o Interior está nos presídios. A organização dos grupos criminosos é facilitada pela superlotação e ausência de estrutura alternativa nas cadeias. No último dia 12, o governo estadual anunciou a construção de três novos, em Viamão, Alegrete e Charqueadas. De acordo com o diretor do departamento de segurança e execução penal da Susepe, Ângelo Carneiro, o objetivo é que as novas casas prisionais, com capacidade para 924 presos, sigam o modelo já adotado na Penitenciária Estadual de Canoas.Lá, o preso usa uniforme, estuda, trabalha e tem o direito à visita diferenciada. Não tem lotação o que, de acordo com Carneiro, facilita o acompanhamento do tratamento penal de cada preso.

Isolamento de lideranças: a estratégia adotada pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) para barrar a guerra de facções na Região Metropolitana foi a transferência cada vez mais frequente de líderes dos grupos para penitenciárias federais. A construção de um presídio nesses moldes no Estado aumentará o poder de barganha para o envio de mais presos a serem isolados fora do Rio Grande do Sul.

PMs nas ruas: O crescimento das facções criminosas em regiões como a Noroeste encontra um agravante perigoso. Alguns dos municípios afetados pelo problema sequer contam com policiamento ostensivo suficiente. No mês passado, o governo estadual anunciou que nenhum município do RS terá menos que três policiais militares em serviço a partir deste mês. A meta é, a partir do final do ano, aumentar este número para cinco brigadianos.

Regionalização: as apurações policiais sobre o avanço das facções levaram o Departamento de Polícia do Interior a criar grupos regionais de investigação específicos. A intenção, de acordo com o delegado Fernando Sodré, é otimizar esforços entre os diversos municípios de cada região e detectar toda a rede formada pelos grupos criminosos, ao invés de investigar isoladamente.

Parcerias: ação considerada exemplar na tentativa de frear o avanço das facções, a Operação Serrania, desencadeada no Presídio Estadual de Caxias do Sul foi conjunta entre a Polícia Civil, Ministério Público, Brigada Militar e Susepe. Nas áreas de fronteiras, a parceria dos órgãos estaduais se dá com a Polícia Federal. E em áreas como os vales do Taquari e Rio Pardo, a Polícia Civil e a Brigada Militar atuam com a Polícia Rodoviária Federal para tentar coibir o contrabando que municia traficantes locais.

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