Mãos ao alto: o dia a dia de uma comunidade assustada

Análise mostra o que passam os pedestres em Novo Hamburgo

Carolina Zeni Jornal NH

Não existe um padrão. O certo é que quase sempre os dias amanhecem com assaltos em Novo Hamburgo. Os criminosos não têm horário certo ou dia marcado para atacar. Mas quem anda pela rua sabe que pode ser a próxima vítima. As formas de surpreender os pedestres para assaltar também variam. Às vezes, as vítimas são atacadas por indivíduos armados em motocicletas, em outras por bandidos em bicicletas e, até mesmo, a pé. Para mostrar como é o dia a dia de pedestres no Município, o Jornal NH analisou, durante dez dias seguidos, todas as ocorrências de assaltos e roubos a pessoas que tiveram bens levados nas ruas. De 1o a 10 de setembro, foram 24 crimes deste tipo (confira ao lado).
Deste número, seis ocorrências policiais – podendo ou não conter mais de uma vítima – foram com um indivíduo a pé e armado (por pistola ou objeto cortante). Quatro foram de vítimas abordadas por dois indivíduos armados em motocicletas. É um retrato da dura realidade vivida pelos hamburguenses. Gente que sai do trabalho e é roubada, pessoas assaltadas esperando o ônibus, uma comunidade com medo e intimidada pela insegurança.

O MEDO

Ontem, após a primeira reportagem do tema, um fotógrafo, de 52 anos, que preferiu não se identificar, enfatizou a situação. Para ele, pedestres convivem com a desconfiança todos os dias, em qualquer horário. “Quando tu tá na rua e vê um carro da Brigada, tu já sente um pouco mais de segurança. Sinto falta de efetivo da polícia. A gente vive com medo”, disse.

Mapa mostra os 20 pontos mais perigosos de Novo Hamburgo Na última reportagem da série, apresentamos os pontos mais visados por bandidos, segundo ocorrências da Polícia   

De todas as 1.369 ocorrências de roubos a pedestres consumados e registrados em delegacias de Novo Hamburgo de janeiro a setembro deste ano, há ruas e bairros com maior incidência desse tipo de crime. Neste período, os três bairros que mais registraram roubos a pedestres foram o Centro, com 255 ocorrências, Canudos, com 199, e o Rio Branco, com total de 124.

As equipes de reportagem e a de tecnologia da informação do Jornal NH fizeram um cruzamento de dados repassados pela Polícia Civil, com base nas ocorrências policiais, e com isso foi possível apontar os 20 pontos mais perigosos da cidade para pedestres. Nos nove primeiros meses do ano, em praticamente todos os dias houve pelo menos um registro de ocorrência de assalto a pedestre.

O mapa é um diagnóstico da insegurança na cidade, especialmente para quem circula a pé pelas ruas. Além de servir como alerta para a população, espera-se que as autoridades governamentais ligadas a segurança pública, em todas as instâncias, consigam, com a colaboração da comunidade, reverter este quadro.

Nunca reaja

Reagir a assaltos nunca é aconselhável nem para policiais treinados. “Se precisamos reagir, significa dizer que já fomos surpreendidos e a vantagem está toda com o criminoso. A probabilidade do insucesso neste caso é grande”, ressalta o tenente-coronel da Brigada Militar, Márcio Uberti. O conselho dele é que as pessoas estejam sempre atentas, observando o local onde circulam e aproximações de estranhos, evitando locais desertos, escuros. Confiar em seus instintos é importante quando um pedido estranho desperta desconfiança. Nesses casos, é aconselhável antecipar sempre com ações pró-ativas, como atravessar a rua, entrar em algum estabelecimento para despistar. “(Evitar) exposição em locais públicos, de objetos que atraiam a atenção e o interesse dos criminosos, tais como joias, celulares, dinheiro”, recomenda Uberti.

Por que o problema persiste?

Um dos sargentos da Brigada Militar em Novo Hamburgo, Ricardo Echevaste Rivero aponta que um dos maiores problemas para a má resolução nos crimes de roubo a pedestre é a falha no judiciário. “Se trabalha em cima de um crime, vai atrás dos indivíduos, coloca sua vida em risco. E aí, quando chega na delegacia para apresentar a ocorrência, você percebe que, em muitas das vezes, o teu trabalho esbarra nas leis. Pouco depois, eles (os bandidos) estão cometendo novos crimes. Porque é aquela história, ‘não dá nada’ e os advogados encontram brechas nas leis”, desabafa.

O juiz da Vara de Execuções Criminais em Novo Hamburgo, Fernando Noschang, explica que há uma confusão nesta afirmação. “Ao Judiciário é imposto o estrito cumprimento da lei, sob pena, inclusive, de responsabilização pessoal do magistrado que a descumprir. Então, se falha há, deve ser atribuída ao Legislativo e, não em menor grau, ao Executivo, antes de ser atribuída ao Judiciário, que não é infalível, por óbvio.”

Presídios lotados

Outro problema que está relacionado ao elevado número de crimes, segundo o juiz Fernando Noschang, é o abandono, por décadas, do sistema prisional. “Hoje não há vagas nos presídios em quantidade suficiente, o que obriga presos recém detidos ficarem algemados aos prédios das delegacias (corrimões, cadeiras, lixeiras), expostos ao relento, até que vagas surjam. A Justiça acaba reconhecendo, em sede de habeas corpus, que manter presos em tais condições é desumano e humilhante, vindo a, eventualmente, conceder a liberdade provisória (mediante medidas cautelares), a fim de superar a ilegalidade”, explica.

O que diz a lei?

Segundo o advogado e especialista em Ciências Criminais, Ruiz Ritter, o crime de roubo, no artigo 157 do Código Penal, tem como sanção pena privativa de liberdade (e multa), que pode chegar a dez anos de reclusão, excepcionados casos em que a prática se der com emprego de arma ou concurso de pessoas, circunstâncias, e outras, que autorizam que a pena seja aumentada em um terço. Para ele, a “velha fórmula” de tratamento da violência por meio do Direito Penal é que está ultrapassada. Sobre a lotação nos presídios, Noschang acrescenta: “O curioso é ouvir, ao mesmo tempo em que dizem que se solta demais, que o sistema carcerário está assoberbado porque se prende em demasia. Ora, ou há excesso de liberalidade ou há excesso de rigor.”

Em nove meses, 1,3 mil pedestres foram vítimas de assalto em Novo Hamburgo

Apesar de alto, número ainda é menor do que em 2016

Juarez Machado/GES Centro de Novo Hamburgo e Canudos são os bairros com maior número de assaltos

Mesmo sem reação e quaisquer possíveis gestos impulsivos, um homem que trabalha como modelista, de 46 anos, teve seu maxilar quebrado por um bandido há poucas semanas no Centro de Novo Hamburgo. O crime foi pelas 21 horas de um sábado, na escadaria da Rua Gomes Portinho, enquanto o modelista voltava para casa a pé. O caso não é uma exceção.

Diariamente, a comunidade é surpreendida – a caminho do trabalho, da escola, em todos os bairros – por bandidos, armados ou não, e tem seus pertences levados. Ou, pior, assim como o modelista, em muitos casos, as vítimas ainda são espancadas, abordadas com socos, empurrões e outras agressões. “Estou evitando aquele trecho”, confirma o homem de 46 anos. Ele integra os 1.369 pedestres assaltados na cidade de janeiro até setembro deste ano. No mesmo período do ano passado foram 1.504, o que representa um decréscimo de aproximadamente 10%. Porém, um policial civil que não quis se identificar informou que “é possível que algumas ocorrências de menor relevância não tenham sido registradas em parte de setembro deste ano porque a Polícia esteve em greve alguns dias do mês”.

Apesar da aparente queda, a insegurança segue. O modelista teve uma fratura bilateral de mandíbula e passou por uma cirurgia, estando ainda em recuperação. Segundo levantamento do Jornal NH, analisando esse tipo de crime de janeiro a setembro deste ano, o dia de maior incidência de roubo a pedestre na cidade é em segundas-feiras. A noite é o turno mais visado pelos bandidos. O registro em delegacia desse tipo de crime varia diariamente. Às vezes nenhum, outras vezes quatro, seis, sete, nove, dez registros diários. O número ainda pode ser maior, já que os dados analisados são de roubos a pedestres consumados e não os tentados. Sem contar as ocorrências não registradas na Polícia.

Insegurança agravada por diversos fatores

Conforme o irmão do modelista, um analista de sistemas, 43, que se mostrou indignado com a situação, o ladrão estaria desarmado para ter cometido o crime. “Se tivesse arma, seria pior”, comenta. Mas um outro agravante, ainda, é a situação nas Delegacias de Polícia. “Naquele dia fui fazer o boletim de ocorrência enquanto levavam ele (irmão) para o HPS, em Porto Alegre. A delegacia estava tão cheia que não tinha algemas suficientes, porque Novo Hamburgo é o plantão de várias cidades. Daí doei umas abraçadeiras de nylon para liberar a Brigada Militar de Ivoti que estava lá”, conta.

AssaltosEle, casualmente, tinha os aparatos consigo, já que desenvolve com as abraçadeiras cadeiras de locomoção para cães deficientes. “O que eu não imaginava era que tinha só um plantão para várias cidades, isso deve dar bastante deslocamento para a BM. (No dia), acho que eles só podiam voltar depois de concluir a detenção, por isso tentei ajudar, para ganhar tempo”, complementa.

A situação de superlotação não é o único dos problemas. Muitas pessoas da comunidade ainda acreditam na necessidade de se ter mais efetivos nas ruas. É o que reforça o delegado da 1a Delegacia de Polícia, Tarcísio Kaltbach, que atesta que o roubo é sempre uma situação preocupante. “O ideal é aumentar o efetivo da prevenção, ou seja, mais brigadianos e GM (guardas municipais) nas ruas. A presença física é muito importante, pois ajuda a inibir o delinquente”, reforça. “Quanto a Polícia Civil, deve ser feito um monitoramento das regiões ou bairros de maior incidência de roubos, serviço de acompanhamento e operações policiais de surpresa.”

Vítimas são ‘pessoas distraídas e desatentas’

Não há um perfil de criminoso, segundo a Brigada Militar. Para o tenente-coronel Márcio Uberti Moreira, comandante do 3º Batalhão de Polícia Militar (BPM), toda e qualquer pessoa em situação suspeita ou local de risco podem e devem, a qualquer momento, ser abordado e verificado pelos policiais. Quanto ao perfil de vítima, as análises criminais têm demonstrado que a vítima não é escolhida por características pessoais, mas sim pela oportunidade do cometimento do crime dada ao delinquente. É o que diz Uberti.

“São pessoas distraídas e desatentas, geralmente em locais ermos, sozinhas ou que ostentam um bem ou produto de cobiça para o criminoso. Principalmente no roubo a pedestres e de veículos”, salienta o tenente-coronel da BM quanto ao perfil de vítimas deste tipo de crime.

Para BM, efetivo nas ruas não é solução

Para o tenente-coronel Uberti, o aumento de efetivos nas ruas não é a solução para diminuição da incidência de roubos a pedestres. Sejam eles consumados ou tentados. “A solução passa também pelo investimento em equipamentos e tecnologias de apoio da ação policial. Neste sentido, Novo Hamburgo se recente, pois ao contrário de municípios muito menores da região e que investem na segurança pública local, Novo Hamburgo é carente em apoio e investimentos mínimos e básicos aos órgãos de segurança pública”, reflete.

De acordo com Uberti, alguns exemplos são a falta de GPS nas viaturas, viaturas novas e equipamento eletrônico. “Agora, nosso maior problema é a saída de brigadianos do policiamento ostensivo preventivo para cumprir funções que não nos competem, como as custódias de presos em delegacias e hospitais”, aponta. “Por lógico, cada PM que não está nas ruas fazendo policiamento aumenta a chance da ocorrência criminosa.”

Bruna de Bem/PMCP
Mesmo impondo medo aos criminosos, BM afirma que maior policiamento nas ruas não é solução

‘Está longe de ser preocupante’

De acordo com o tenente-coronel Márcio Uberti, a situação de roubo a pedestre em Novo Hamburgo, assim como outros tipos de crimes, vem seguindo uma tendência de redução de indicadores criminais. “Portanto (a situação) está sob aspecto técnico, sob controle, longe de ser preocupante”, enfatiza. Sentimento diferente tem uma agente de saúde, de 25 anos, moradora de Novo Hamburgo. “Eu entro em pânico cada vez que vejo um motoqueiro”, diz ela, rendida e assaltada por um homem em uma moto às 16h15 do dia 23 de agosto, na Avenida Pedro Adams Filho, no Centro.

“O motoqueiro me abordou, mandou eu ficar quieta e pegou as minhas coisas. Não vi se ele estava armado, porque fiquei muito assustada”, contou. Antes, a mulher já fazia acompanhamento médico para tratar depressão e, depois do episódio, a situação piorou. “Tenho mais medo das coisas agora, me sinto num ambiente inseguro e com vontade de me enfiar num buraco.”

Uma estudante de 22 anos também vive com medo. “O maior medo do assalto não é apenas levar os pertences, mas da agressão. Tantas histórias horríveis vêm acontecendo que não tem como não sentir medo. Hoje em dia não tem mais horário ou local e tudo é possível. E isso assusta. Tenho amigos que não saem mais à noite com medo da violência”, relata ela, que já foi assaltada, mas em Porto Alegre.

Na quinta-feira: uma análise minuciosa de dez dias seguidos de ocorrências de roubo a pedestre em Novo Hamburgo.

 

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