OSCAR BESSI: O guarda-vidas e o cadeirante

Encontro entre guarda-vida e Luiz Fernando fez com que o sonho de entrar no mar fosse realizado | Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação / CP

Talvez não exista maior mensagem de fé e esperança que sentir a presença do amor. Ele como deve ser, bastante em si, natural, menos traduzido em palavras e mais em gestos e fatos. Perceptível, ainda que anônimo e corriqueiro feito a vida. Intenso como a humanidade. Trago a narrativa do soldado da Brigada Militar Taigor Pedroti, um bageense que serve em Montenegro, onde empilha prisões de traficantes e assaltantes. No verão, ele muda o uniforme e vai para uma guarita zelar pela vida dos banhistas. Guarda-vidas em Balneário Pinhal, ele me enviou este texto emocionante
que chamou de “Lição de Vida”. Texto que ofereço aos gaúchos para que façamos do réveillon um momento de reflexão sobre o que somos e podemos ser.
“Gostaria de compartilhar a lição de vida que tive. Estava como guarda-vidas na minha guarita quando, à esquerda, vi uma família na água e apenas uma pessoa dessa família na areia. Percebi que era um cadeirante, então desci da guarita e me aproximei. Começamos a conversar. Luiz Fernando, 44 anos, há vinte anos sofreu um acidente de carro e teve uma grave lesão na coluna, ficando paraplégico. Perguntei se ele gostava do mar e se queria tomar um banho. Imediatamente ele me olhou e respondeu que querer ele queria, mas era impossível, pois pesava aproximadamente 130 kg e não tinha movimentos da cintura para baixo. Indaguei se ele estava disposto a tentar. Ele não pensou duas vezes e falou para irmos em frente”.
“Com muito cuidado e esforço, eu e seu irmão conseguimos levá-lo até o mar. Foi quando, naquele instante, percebi a grande lição
de vida. Luiz Fernando começou a se jogar água como uma criança, o sorriso em seu rosto era de felicidade imensa. Ele não parava de apertar a minha mão e agradecer, mas a parte mais marcante foi quando ele olhou para todos ao seu redor e falou: Esse é o meu melhor presente de Natal”.
“Então parei para refletir. Tanta gente por aí com saúde e força para correr atrás dos seus sonhos e objetivos, mas só reclamam da vida. E o Luiz Fernando ali, feliz, mesmo com suas limitações. Ele não reclamava da vida. Ele também não estava preocupado em ganhar presentes materiais no Natal. Ele só queria a liberdade de poder se locomover como se tivesse pernas boas. Essa sensação o mar lhe proporcionou. Eu gostaria que todos nós parássemos um minuto para refletir e ver o quanto materialistas somos. Queremos sempre ter e ter mais. Tantos se jogam na violência, desrespeito e
desonestidade por isso. Que neste ano novo de 2018 possamos dar mais valor ao que temos de verdade e, muitas vezes, não damos o devido valor a nossa saúde, a nossa fé, aos nossos amigos e a nossa família. Feliz 2018”.

CORREIO DO POVO

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