Por mais visibilidade, BM amplia frequência de blitze e gera reclamações

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Armas de grosso calibre quase sempre são utilizadas nas barreiras da Operação Força de Emprego Tático Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS
Armas de grosso calibre quase sempre são utilizadas nas barreiras da Operação Força de Emprego Tático
Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Há pouco mais de um mês, a Operação Força de Emprego Tático implantou nova estratégia de combate à criminalidade em Porto Alegre e Região Metropolitana. Objetivo também é fugir da patrulha das redes sociais

Uma nova estratégia de policiamento ostensivo vem alterando a rotina de motoristas que circulam diariamente nas ruas de Porto Alegre e municípios da Região Metropolitana. Há pouco mais de um mês, a Brigada Militar (BM) lançou uma operação para intensificar as blitze e, ao mesmo tempo, tentar escapar dos patrulheiros das redes sociais, que compartilham em tempo real a localização da polícia. A cada dia, novas barreiras são montadas em diferentes pontos – muitas vezes de forma simultânea – e de hora em hora são redirecionadas para outro local. Além de driblar os radares da internet, a intenção também é dar mais visibilidade para o trabalho da corporação.

Os resultados preliminares da Operação Força de Emprego Tático (FET) mostram que, na maioria das vezes, as ações são realizadas apenas para contenção de fluxo, com poucos policiais e armas de grosso calibre para intimidar quem passa. Ou seja, quase nenhum motorista é abordado e o objetivo é apenas reduzir a velocidade em “artérias” do trânsito ou possíveis rotas de fuga de suspeitos, restringindo o tráfego em uma ou duas pistas de determinadas vias. E é exatamente esta conduta que tem gerado reclamações.

Mesmo assim, o entendimento do Comando de Policiamento da Capital (CPC) é de que a estratégia vem dando resultados positivos. As estatísticas para os primeiros 30 dias de operação, iniciada em 11 de maio, comprovam que a contenção de fluxo é a medida mais utilizada. Foram 237 barreiras deste tipo instaladas para o período. Somente no dia 25 de maio, por exemplo, foram contabilizadas 40 ações com este perfil na cidade.

Os relatórios da operação registram ainda que foram montadas, para o mesmo intervalo de tempo, 60 barreiras de fiscalização. Nestes casos, os policiais param os veículos que consideram suspeitos e fazem uma espécie de revista, tanto no carro, quanto nos ocupantes.

Para cada mês, maio e junho, a média de policiais utilizados foi de 1,3 mil. No total, quase cinco mil pessoas foram abordadas nas ruas de Porto Alegre, o que resultou em 66 prisões. O número de veículos fiscalizados foi de mais de 2,2 mil, implicando apenas 78 autuações por algum tipo de irregularidade, como apreensão de CNH e flagrantes de embriaguez ao volante. As apreensões de drogas e armas não foram significativas.

Em barreiras de fiscalização, PMs vistoriam veículos e fazem revistas Foto: Ricardo Duarte / Agência RBS

A maioria das barreiras ocorre em Porto Alegre, mas a operação também se estende a cidades da Região Metropolitana. Em Gravataí, por exemplo, uma blitz instalada no dia 18 de junho gerou transtornos aos motoristas em toda Avenida Dorival Cândido Luz de Oliveira, uma das mais importantes da cidade. Filas de carros se formaram para passar pela ação do Batalhão de Operações Especiais (BOE), que começou por volta das 18h30min e terminou pouco depois das 19h30min, se deslocando para outro ponto da cidade.

Durante cerca de 60 minutos, a barreira parou 20 veículos e abordou aproximadamente 30 pessoas. Quando pararam motoristas, os policias do BOE revistaram os ocupantes e toda a parte interna dos carros na tentativa de encontrar drogas ou armas. Ninguém foi preso e não houve nenhuma apreensão no local.

A série de reclamações começa, normalmente, pelas redes sociais, por onde as pessoas reclamam de blitze “infrutíferas”. É o caso da biomédica Jéssica Martins, que atua como motorista e faz transporte de crianças todos os dias, em diferentes turnos.

— Vejo umas três ou quatro blitze por dia, pelo menos. Só que no fim das contas atrapalham mais do que ajudam. São feitas em horários de pico do trânsito, em locais críticos. Por exemplo, a Avenida Nilo Peçanha. Quase sempre tem. E eles (os policiais) ficam parados, conversando, dando risadas. Não param ninguém — critica.

O empresário Rodrigo Haag, que atende clientes em várias regiões da cidade, também já notou o aumento no número de blitze e reforça a reclamação de Jessica. Porém, reconhece a importância das barreiras no combate à criminalidade.

— Trabalho diariamente enfrentando o trânsito da cidade para atender clientes. Impossível não notar o aumento, para não falar em surgimento, das blitze da Brigada Militar ao longo do dia, especialmente em locais de grande fluxo. Mas muitas vezes eles (a BM) nem abordam os veículos, só restringem o fluxo mesmo. Atrapalha muito o trânsito, mas acredito que é um mal necessário. Acho que também é para dar mais visibilidade ao policiamento, né? Em função da crise que o Estado enfrenta — opina.

Procuramos não causar transtornos à população, diz CPC

O tenente-coronel Mário Ikeda, comandante do CPC, acredita que a nova estratégia da corporação já trouxe resultados positivos dentro do que era esperado. Ikeda admite que muitas vezes as operações podem atrapalhar a vida de “pessoas do bem” que ficam trancadas no trânsito, mas reforça a importância da ação para escapar das redes sociais.

— É uma estratégia nova que adotamos para dar mais visibilidade ao policiamento e que tem uma característica de circulação constante de combate à criminalidade. Montamos as barreiras e de hora em hora trocamos de ponto. Isso nos permite furar estes alertas que são enviados pelas redes sociais e que prejudicam nosso trabalho — destaca.

Os locais das blitze, segundo a BM, são definidos levando em conta regiões de grande circulação da Capital e tentando evitar horários de pico. Veículos de passeio, motocicletas e táxis são os principais alvos das barreiras.

— Temos pessoas de bem que não querem passar pelas barreiras. Por isso, procuramos fazer fora dos horários de pico para não causar transtornos para a população. Não é este o objetivo. Porém, sabemos que os criminosos também estão atentos a estas mídias e tivemos de mudar a maneira de agir — diz Ikeda.

O comando da Brigada Militar ressalta que as ações também se estendem a municípios da Região Metropolitana. A mobilidade e os horários indefinidos são os principais trunfos da operação, segundo o subcomandante-geral da corporação, coronel Paulo Stocker.

— Pode ser pela manhã, à tarde, à noite ou na madrugada. São várias barreiras ao mesmo tempo. Já chegamos a ter quase 30 simultâneas. A mobilidade é tão grande que confunde quem está procurando nas redes sociais. Não tem como escapar. E quem não deve não se preocupa com isso — salienta o coronel.

Estratégia da BM é aumentar visibilidade e fugir da patrulha das redes sociais Foto: Ricardo Duarte / Agência RBS

Informar locais de blitze não é crime, reforça delegado

Tratada como “inimiga” da operação Força de Emprego Tático, a rede social fornece diversos canais para que as pessoas se informem sobre as blitze. Contas no Twitter e grupos de Whatsapp são as ferramentas mais utilizadas  para quem quiser compartilhar lugares de barreiras, tanto em Porto Alegre quanto na Região Metropolitana.

No entanto, por mais que prejudique o trabalho da Brigada Militar, a conduta do usuário da rede social não configura crime. Ou seja, não é possível responsabilizar ou penalizar alguém que tenha este tipo de atitude. É o que afirma o delegado Marcínio Tavares Neto, titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos do Estado.

— Não existe conduta criminosa nisso. Faz parte da sociedade. Não tem como impedir as pessoas de se comunicar. Seria descabido perseguir o cidadão se a lei não o impede. Não há nada previsto no Código Penal — explica.

A alternativa que resta para a polícia, segundo o delegado, é apostar na mobilidade e frequência das blitze, o que já vem sendo feito.

— Não podemos querer arranjar crime para tudo. A polícia é que tem de ser mais dinâmica. Fazer blitze mais rápidas. De meia em meia hora muda de lugar, levanta acampamento. É assim que deve ser — acrescenta o delegado.

*Zero Hora