Brigadiana é ironizada após ver contracheque: “Será que aceita doação de cesta básica?”

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Viviane Contessa, 34 anos, é soldado da Brigada Militar na região central do RS há oito anos Foto: Facebook / Reprodução
Viviane Contessa, 34 anos, é soldado da Brigada Militar na região central do RS há oito anos
Foto: Facebook / Reprodução

Servidora da Brigada em Santiago foi alfinetada no último sábado enquanto fazia o patrulhamento no centro da cidade

Em um misto de humilhação e desânimo, a policial militar Viviane Contessa, 34 anos, recorreu às redes sociais para relatar uma situação que, segundo ela, lhe “tirou o chão”. Servidora da Brigada em Santiago, na região central do Estado, ela foi ironizada na última sexta-feira enquanto fazia o patrulhamento no centro da cidade. Após checar o contracheque e ver o depósito de apenas R$ 600, ela ouviu de três jovens a seguinte frase: “Será que eles (PMs) aceitam doação de cesta básica?”

Em vez de abordar o trio, a brigadiana não esboçou qualquer reação e foi para casa. Em seguida, sentou em frente ao computador e desabafou no seu perfil do Facebook (veja abaixo). Até a tarde desta segunda-feira, eram quase seis mil compartilhamentos. Viviane é mãe de dois filhos e servidora da BM há oito anos. Em entrevista à reportagem, ela relatou que o seu sonho de se tornar policial virou um “pesadelo”. Confira, a seguir, os principais trechos:

Por que você procurou as redes sociais para desabafar? O que ocorreu?

Na hora que aconteceu, guardei tudo aquilo na mente, fui escrevendo e publiquei. Nem cheguei a ler depois. Eu estava de serviço normal no Centro junto com um colega e parei para ficar num ponto estratégico, de visibilidade. Passaram três rapazes por mim, bem apresentados, e eu escutei a frase “será que eles estão aceitando doação de cestas básicas?” Até então, não levei como se fosse para mim, mas junto com a frase veio um sorriso irônico e um olhar de canto de olho. Notei que era para mim. Me desestabilizei, perdi o chão, já que tinha acabado de ir ao banco pegar um extrato do meu contracheque.

Você chegou a abordar os jovens?

Não. Em qualquer outra situação, eu iria perguntar se há algum problema. Mas ali, eu estava totalmente perdida. Parece que se abriu o chão. Me deu uma vergonha, me senti tão pequena naquele momento. Pensei “pô, estou aqui para ajudar, por que estão fazendo isso com a gente?” Não dá para entender. Isso(atrasos salariais) está mexendo com a nossa cabeça, não tem como se concentrar, a não ser que se faça papel de Robocop – programa e vai trabalhar. Mas atrás da farda tem um ser humano com família. Naquele momento, o meu lado polícia meio que sumiu. Eu não sabia como agir pela primeira vez em oito anos.

Estás pensando em sair da Brigada Militar?

Estou na BM porque sempre foi meu sonho. Sou apaixonado pelo que faço, não me vejo fazendo outra coisa. Ou, até então, nunca me vi. Tenho esperança ainda de que as coisas mudam, de que isso vai passar, de que teremos um plano de carreira e vão começar a valorizar nosso trabalho, que não é fácil. No momento, o sonho de tornou um pesadelo.

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