Sem saber, policial troca tiros com o próprio primo na Zona Norte do Rio: ‘Levei um choque’, conta o soldado

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‘Levei um choque’, conta o soldado, que preferiu não se identificar Foto: Arquivo pessoal
‘Levei um choque’, conta o soldado, que preferiu não se identificar Foto: Arquivo pessoal

Um, de 32 anos, nasceu na Abolição; o outro, de 23, no bairro vizinho do Engenho de Dentro, também na Zona Norte do Rio. Apesar da diferença de idade, os primos chegaram a dividir partidas de futebol e encontros de família ao longo da juventude, até que a vida os afastou. No último fim de semana, porém, reencontraram-se em circunstância inesperada: nos lados opostos de um intenso tiroteio.

O parente mais velho, depois de batalhar o pão de cada dia trabalhando como motoboy, conseguiu entrar na Polícia Militar há cerca de três anos. O mais novo, não muito mais tarde, foi preso pela primeira vez, acusado de roubo. Na madrugada de domingo, com quatro comparsas, voltou a cometer o mesmo crime, apenas um mês após deixar a prisão.

— Estávamos eu e um colega fazendo um patrulhamento de rotina, quando nos deparamos com um carro em atitude suspeita. Iniciamos a perseguição, e eles efetuaram disparos contra a nossa guarnição. Quando terminou e dei a volta no veículo, para conferir a situação e checar os feridos, ouvi a voz dele: “Primo, me socorre” — lembra o soldado do 9º BPM (Rocha Miranda), que preferiu não se identificar:

— Nunca imaginei que algo assim aconteceria. Levei um choque, mas tive que agir com profissionalismo, seguindo o mesmo procedimento que faria com qualquer cidadão. Resguardei o local, acionei o Corpo de Bombeiros e disse para ele aguardar, só falei que a ambulância estava chegando.

Baleado quatro vezes, o assaltante, que ocupava um carro roubado, sobreviveu e continua internado, sob custódia, no Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, Zona Norte do Rio. Ao primo policial, restou lamentar:

— Na verdade, ele é irmão de minha prima, não chega a ser parente de sangue, mas desde pequeno tínhamos esse vínculo. Eu dava conselho, dizia para estudar, só que acabamos seguindo rumos diferentes.

O soldado conta ainda que o núcleo familiar do primo era mais humilde, sempre tendo enfrentado dificuldades financeiras. Outros irmãos dele, inclusive, também se envolveram com o crime. Antes do confronto armado, o policial já havia ouvido falar sobre o descaminho do parente, mas sem conhecer maiores detalhes.

— Eu quis estudar, ele não. A vida não é fácil pra ninguém. Eles sempre foram sofredores, mas não dá o direito de fazer uma coisa assim. Ao contrário, precisa batalhar ainda mais para superar.

A postura do PM rendeu elogios por parte do chefe, o coronel Carlos Roberto Garcia de Oliveira, comandante do 9º BPM:

— Fiquei muito feliz com a ação dos policiais. Tiveram êxito em impedir o deslocamento de marginais, um comportamento padrão, sobretudo em um momento no qual tanto se questiona atuações atabalhoadas de alguns PMs, como na ação em que cinco jovens morreram em Costa Barros (os rapazes foram baleados durante uma operação no dia 28 de novembro do ano passado).

A aprovação do superior direto e o orgulho por pertencer aos quadro da corporação, entretanto, não evitaram uma alfinetada na PM. Aproveitando a entrevista, o soldado reclamou da demora para conseguir obter a autorização para o porte da arma de uso pessoal.

— Estou há seis meses tentando e não consigo. Fiz o meu serviço todo direito, e agora não posso nem me proteger. É complicado.

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