Negociador salva suicida, preso por porte ilegal de arma

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1_major_araujo___diego_figueira-1378103Saiba detalhes da ação que durou cinco horas e invadiu a madrugada no Rio Branco

A madrugada desta quarta-feira foi bastante agitada no bairro Rio Branco. Durante cinco horas, a Brigada Militar negociou com um homem que ameaçava cometer suicídio. A história terminou bem, mas o homem, de 38 anos, acabou preso por porte ilegal de arma de fogo. Ele tentava tirar a própria vida com um revólver calibre 38 com a numeração raspada.
A ocorrência teve início às 20 horas da terça-feira (15), em um apartamento da Rua Cairú. Começou antes, quando, em desespero, o homem ameaçou a ex-companheira na casa dos pais dela. Sem sucesso, resolveu ameaçar suicídio. O caso mobilizou agentes do 15º Batalhão de Polícia Militar, do Batalhão de Operações Especiais, policiais civis e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

A negociação começou por volta das 21h30, chefiada pelo major Rogério Araújo. O homem fez, inclusive, um disparo dentro do apartamento, e acabou entregando-se por volta das 3 horas. Confira uma entrevista com o major Araújo, encarregado da negociação que evitou um final trágico para a triste história do homem que tentou o suicídio.

Diário de Canoas – Em quanto tempo o senhor chegou ao local?
Major Rogério Araújo – Fui avisado por volta de 20h45 e às 21h15 estava lá.
DC – Neste tempo sem a presença do negociador a situação é mais perigosa?
Major Araújo – Nosso pessoal estava começando a conduzir a situação, mas a orientação é sempre chamar o negociador, desde o início da crise. Perigo há até a situação se resolver, mas quando cheguei já procuramos familiares para ajudar. Expliquei os procedimentos a ele e à família. Comecei a negociação e pedi apoio à irmã.
DCExiste um procedimento padrão em situações como esta?
Major Araújo – Basicamente é fazer com que o suicida confie no negociador. Comecei a fazê-lo acreditar que cumpriria o que estávamos combinado. E é preciso ir além da mera confiança. Tenho realmente de fazer o que digo.
DC – O que foi mais difícil na situação desta madrugada?
Major Araújo – A condição de mentalmente perturbado do suicida. Ele tem um histórico médico, passava por um drama familiar que se repetia e não vinha tomando a medicação prescrita. O problema, aí, é lidar com a imprevisibilidade, porque não se trata de um criminoso que não tem nada a perder, mas de um homem numa situação de desespero.
DC – E que tipo de problema essa imprevisibilidade pode trazer?
Major Araújo – Surgiu o que chamamos, nos cursos que fiz, em São Paulo e na Argentina, de “suicide by cop” (em inglês, suicídio pelo policial): às vezes, o sujeito não tem coragem de puxar o gatilho e tenta levar o policial a fazer esse serviço. Ele chegou a perguntar se eu não queria atirar nele, e eu disse que não. “E se eu apontar a arma para ti? Aí tu vais ter que atirar em mim”, ele disse. Outro momento tenso foi quando ele fechou a porta do quarto e disparou, simulando suicídio. Era outra tentativa de nos fazer entrar atirando. O mais tenso, mesmo foi vê-lo com a arma apontada para a cabeça e o dedo no gatilho.
DC – Como a Brigada Militar conseguiu virar este jogo?
Major Araújo – Sensibilizando. Lembrando a ele dos filhos, que o têm como herói. Perguntei como seria pensar nos filhos sem pai. E reforçando que ele não é um criminoso. Nessa hora a gente tem que se oferecer para ajudar, e fazer isso entrando na mente, colocando-se no lugar dele, exercendo a empatia.
DC – Ele se emocionou nessa hora?
Major Araújo – Chorou. Nessa hora, como negociador, é preciso ser claro e honesto. Eu disse que ele sairia preso, por ter comprado uma arma em situação ilegal, com a numeração raspada. Ele aceitou.
DC – E como o negociador faz para desacelerar depois de toda a carga de adrenalina, todo o estresse?
Major Araújo – Nessa madrugada cheguei em casa às 4 horas. Faço sempre a mesma coisa: Don’t Know Why, da Norah Jones, e uma Stella Artois. Aí, consigo relaxar.
DIÁRIO DE CANOAS