SC: O cidadão precisa cumprir as regras e fazer com que os outros cumpram, diz especialista

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Gustavo Caleffi afirma que população não pode esperar que todas as soluções para a segurança venham do Estado Foto: Gustavo Caleffi / DivULGAÇÃO
Gustavo Caleffi afirma que população não pode esperar que todas as soluções para a segurança venham do Estado
Foto: Gustavo Caleffi / DivULGAÇÃO

Gustavo Caleffi afirma que população não pode esperar que todas as soluções  para a segurança venham do Estado

Com vasta experiência em segurança estratégica e gestão de riscos, Gustavo Caleffi é taxativo: diante da atual falta de recursos para a área de segurança pública, o melhor caminho é a população fazer sua parte. E agir, nesse caso, começa com atos simples, como se cuidar na rua, se manter alerta e fazer parte da sociedade. Mas, para o especialista, o poder público é quem deve agir mais. E, em Santa Catarina, alerta Caleffi, o pensamento de que os índices são melhores do que outros Estados pode ser perigoso.

Leia abaixo a íntegra da entrevista

Estamos diante de um aumento de criminalidade em todo o país, assim como vem acontecendo em SC. Aqui no Estado há uma visão de que estamos melhor do que os outros Estados. O que você acha disso e o que as pessoas podem fazer para ajudar a melhorar a segurança pública?

Estou à distância, mas uma das coisas que eu repito muito é que as pessoas não reconhecem a realidade. É muito preocupante essa visão que vocês têm aí, porque essa é a visão que o gaúcho, por exemplo, sempre teve: ¿São Paulo e Rio de Janeiro sempre foram muito pior do que nós, então a gente não precisa ter segurança porque lá é pior¿ (o RS atualmente enfrenta uma crise de segurança com altos índices de criminalidade). Vocês estão tomando uma referência péssima. Acho que temos que tomar como referência em segurança pública uma sociedade muito desenvolvida, e não uma sociedade que está caótica. O problema de Santa Catarina é muito grande, é absurdo. Faço muitos projetos em Santa Catarina, opero no Estado há mais de 14 anos. Acompanho e tenho amigos policiais que estão apavorados porque até cinco anos atrás a ação que tinha era com pistola e revólver e eles subiam morro para buscar delinquentes. Hoje, eles não sobem o morro por medo, porque tem fuzil distribuído em toda a cidade, nos morros. É querer enganar a sociedade dizer que Florianópolis e Santa Catarina estão com a criminalidade controlada, ou com níveis aceitáveis porque, na comparação, outros estão pior. Não, ela está mal, comparativamente, a um local que você vai sempre viver em segurança. Veja o fato que teve aí da morte do vigilante na esquina do Angeloni (na avenida Beira-Mar, em Florianópolis), em que quatro caras descem com armas de longo calibre no meio da cidade e fazem uma ação. A primeira coisa que vejo como necessário é alertar a sociedade de que realmente o problema da criminalidade deve estar presente em SC. Assim como em outros estados, embora SC ainda tenha uma estatística um pouco melhor que os demais.

Pensar positivamente, então, é perigoso?

Muito perigoso. Uma das coisas que eu digo é que a estatística de segurança pública comparativa entre Estados para a sociedade não serve para nada. Só serve para o secretário de segurança de um Estado que está um pouco melhor do que o outro se manter no cargo fazendo referência ao caso. Se tu for analisar nas estatísticas, há mais de 10 anos os índices no RS são maiores que SP e RJ, por exemplo. A mídia vendeu muito a violência em SP e no RJ e muito pouco nos outros ambientes, porque ela não era percebida. O problema é muito grave, SC tem um problema muito sério de crime organizado dentro dos presídios. A gente sabe que o PGC é uma organização criminosa muito forte, que botou o terror em SC há poucos anos quando teve essa intenção. E quando você já teve casos assim, não pode dizer que Santa Catarina está num ambiente controlado, ou está melhor. Não, Santa Catarina está péssima. Não dá para comparar com o RS.

Caleffi  pratica o boxe como uma forma de defesa pessoalFoto: Lauro Alves / Agencia RBS

O que mudou no perfil da criminalidade? Teve também piora nos níveis de infraestrutura policial?

Existe um fato muito mais determinante para o crescimento da criminalidade, que é a impunidade e a sensação de impunidade que se criou no país. Temos um problema muito sério no Brasil: a carência de vagas em presídios. Em vez de irmos para a construção de presídios, invertemos esse valor. Para crimes de baixo valor agressivo, em que a pena mínima não seja de quatro anos de prisão, você não prende ou o juiz não acata. O cara que fez um roubo à mão armada é atendido como baixo valor agressivo. A estrutura de polícia é a mesma e vem caindo porque o investimento é cada vez menor.

Como o prende e solta de bandidos dificulta o trabalho da segurança?

Quando o cara volta para a rua e comete de novo o crime, a mesma estrutura que deveria estar atrás de outros criminosos tem que prender aquele cara que já foi preso. E esse cara vai ser solto. Então está se dividindo uma estrutura que já está muito esgoelada. Ela está tendo que trabalhar muito, com retrabalho absurdo. Outra coisa grave é que quem cometia crimes no Brasil eram pessoas de baixa renda e de bolsões de pobreza, que roubavam para sustento. No Brasil, uma das poucas coisas boas que aconteceram nos últimos foi a erradicação da miséria. Ninguém mais rouba para sustento. Estamos em uma crise, mas passamos tempo atrás por um momento de emprego estável. Mas com isso passamos a ter a pessoa com condições financeiras, conhecimento e estudo vindo pro meio do crime. Entendo que temos uma excelente polícia – e eu pagava para ver qualquer policial israelense, americano ou alemão trabalhando com as condições que um policial brasileiro trabalha. Sem armamento, sem treinamento, sem salário adequado, sem condições para sua família, sem valorização na sociedade. E o cara está lá, prendendo 24 horas por dia.

O quanto a estrutura esgoelada – aqui em SC passamos por um momento em que o Estado postergou a contratação de policiais – aumenta a sensação de insegurança e a insatisfação no efetivo?

Policial é policial por amor à camiseta. Conheço policial no Brasil inteiro. E ele gosta de fazer o que faz, senão não ficava 10 dias na corporação. Não é a questão de falta de recursos e de reconhecimento que diminui a atividade dele, e que por isso esteja aumentando a criminalidade. Não impacta diretamente no policiamento. Agora, a falta de recursos, equipamento, gasolina, viatura, impacta, sim. Mas temos outro fator muito sério: os criminosos no Brasil estão muito audaciosos, eles não respeitam mais os policiais. Não têm mais receio do policial. E a ação é cada vez mais audaciosa dos bandidos. Então, adianta ter policial na rua com revólver? Não, porque os caras vão chegar com metralhadora, AR-15 e pistolas 9 mm.

Qual é o caminho que o cidadão comum tem de tomar?

Primeiro, se sentir parte e responsável por essa mudança de cultura. Enquanto o cidadão não mudar a cultura dele e querer que o Estado mude, a gente não vai conseguir. O cidadão precisa cumprir as regras e fazer com que os outros cumpram as regras. Mas já me falaram que essas coisas só dão efeito a longo prazo. Sim, são a longo prazo. De curto prazo só tem uma solução: colocar muita polícia na rua. Aí vão dizer que não têm dinheiro para isso. Então, esquece. Não adianta querer ficar solucionando uma coisa de curto prazo sendo que não tem recursos para isso. O envolvimento da sociedade como um todo para isso é muito importante. Por exemplo, temos toda uma questão de corrupção absurda. O fato de a população se envolver e não aceitar, ir para a rua protestar e cobrar melhoria é uma forma de mudar isso. A sociedade não pode ficar apática. Quando a gente conseguir reverter esse raciocínio da sociedade e que as pessoas passem e voltem a educar seus filhos sobre certo e errado, já é uma participação grande na correção desse problema. Existe um princípio na Constituição de que a segurança é dever do Estado e obrigação de todos. Também temos parcela de responsabilidade na segurança pública.

Como, no dia a dia, o cidadão tem de mudar seu jeito de agir?

Reconhecendo a realidade, ele tem de saber que sair atento 24 horas por dia na rua não é paranoia. Ele está prevenindo a vida dele, porque, hoje, a qualquer momento você pode ser abordado. Não existe mais horário. Não existe mais perfil do delinquente. A primeira coisa que o cidadão comum tem de entender é que, quando estiver na rua, tem de estar atento. No momento em que está falando ao celular, ouvindo música, sem identificar o que está acontecendo ao redor, ele está correndo risco. O cidadão tem de entender que até que a gente reverta essa situação, quem vai ter de cuidar da vida dele é ele mesmo. Não tem polícia, não tem porteiro.

Na maioria dos casos em que você trabalha, as pessoas e empresas relataram desatenção envolvida nas ocorrências?

Em 99% das vezes. Se tu pegares uma ocorrência policial, principalmente em carros, vais ver que as pessoas dizem que foi tão rápido, que elas nem viram. Não, não foi tão rápido. O cara veio, desceu de uma moto, atravessou a rua e abordou. Não é que foi rápido, é que a pessoa não estava atenta. Existem casos de a pessoa não ter o que fazer? Existem. O simples fato de você saber que vai ser assaltado já economiza a sua vida. A estimativa é de que 80% dos casos de latrocínio, que é roubo seguido de morte, se dão acidentalmente e não intencionalmente.

Quer dizer que o atual nível de segurança no país nos faz mudar nossas rotinas completamente.

Sem sombra de dúvidas. As pessoas já estão se prevenindo e andando com mais atenção, já sabem que a responsabilidade é maior delas porque sabem que não podem contar com a segurança pública.

Mas é um fenômeno complicado de entender. Porque o direito de ir e vir já não é tão simples.

É um direito constitucional, mas não é um direito garantido. O Estado deveria garantir esse direito, mas ele não garante. Nós sabemos que o Brasil tem um problema muito sério. Além de não ter recursos, sabemos que a sociedade participa muito fortemente para a manutenção das polícias. Hoje, se proibires a doação de valores de comunidades para as polícias do Brasil, o sistema de segurança pública entra em colapso. Porque ela depende que a sociedade coloque dinheiro para abastecer a viatura, arrumar o telhado da delegacia, já que o Estado não tem mais dinheiro para manutenção. Quem mantém as instalações de segurança pública hoje é o poder privado. O Estado, hoje, na estrutura dele de segurança pública, está totalmente falido, não tem como manter sua estrutura mínima.

Aqui em SC são muito fortes os conselhos de segurança. Quanto eles são importantes nesse processo?

São importantes para a sociedade não ficar apática. Mas o resultado deles é nenhum, porque cada conselho quer puxar para o seu lado a segurança, para a sua região. Você não está preocupado com a sociedade como um todo, está preocupado que no seu bairro não aconteça nada. Enquanto não houver uma visão sistêmica, que seja de todo o ambiente, a criminalidade migra. Quando você resolver o problema do seu bairro, sair dele, vai ser assaltado no bairro vizinho. O que temos de fazer é ir na base para resolver o problema da criminalidade. E isso aí só vamos conseguir se a gente quer resposta de curto prazo. Primeiro, eu atacaria no aumento da capacidade carcerária do Brasil e a reformulação do sistema, e, junto, a questão da Justiça.

Então está muito mais nas mãos da população do que nos órgãos de segurança pública?

Não transferiria isso. Acho que é muito mais de visão de Estado, é uma questão política. A sociedade tem o seu papel, na cobrança, na conscientização, o simples fato de não querer presídio na sua cidade é uma das coisas que têm de ser revertida. Agora, ela tem de saber que vão onerar ela, que vai ter que pagar por isso.

JORNAL DE SANTA CATARINA