Sofrimento mental afeta um a cada três PMs de áreas violentas do Rio

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IMAGEM ILUSTRATIVA

Dado consta em levantamento do núcleo de psicologia da PM-RJ.
‘É difícil sobreviver a carreira’, admite militar chefe do grupo.

Gabriel Barreira Rio de Janeiro

A falta de boas condições de trabalho – onde às vezes sequer há água potável –, de treinamento e de formação continuada – prevalecendo a urgência do serviço em relação ao estudo – são alguns dos motivos apontados por policiais militares como os fatores mais problemáticos da profissão e que contribuem para o estresse. Os dados constam em um relatório elaborado pelo núcleo de psicologia da PM-RJ apresentado na CPI dos Autos de Resistência nesta quinta-feira (17).

Segundo o chefe do setor, tenente Coronel Fernando Derenusson, os sofrimentos mentais acometem até 30% dos policiais que trabalham em áreas deflagradas, consideradas “vermelhas” pela Secretaria de Estado de Segurança (Seseg), como é o caso da Nova Brasília, no Conjunto de Favelas do Alemão, e de batalhões como o de Rocha Miranda.

Ele ressalta, no entanto, que nem toda esta porcentagem está inapta ao trabalho e que o “sofrimento mental” é um termo cunhado pela Organização Mundial da Saúde para diagnosticar transtornos mentais leves.

“É difícil sobreviver a carreira policial, tanto fisicamente quanto psicologicamente. Ser policial já é difícil para os sãos, por ter que ir ao combate. Se o policial não estiver minimamente preparado deve ser afastado da atividade-fim (trabalho nas ruas)”, resume.

No entanto, a falta de pessoal pode atrapalhar o afastamento dos militares. Ele diz que o setor de psiquiatria é “sobrecarregado” e que, por um deficit de 5 mil profissionais da saúde, os policiais chegam a ser encaminhados para a rede pública quando precisam de tratamento. São cerca de 100 psicólogos para 200 mil policiais.

Violência e identidade masculina
Em relação aos excessos cometidos por policiais contra agentes civis, sobretudo em comunidades, os agentes costumam apresentar “insultos morais” como justificativa, de acordo com o relatório.

Numa interpretação do psicólogo, os PMs acabam vivenciado uma hiperresponsabilização. Recaem sobre o militar, por exemplo, desde partos a ações repressivas, passando pela batalha contra o tráfico de drogas.

“É como se os problemas sociais sobrassem para o policial. A educação falha, a saúde falha. Tudo tem falhado demais e eles não se permitem falhar e puxam a responsabilidade para si”, analisa.

‘O problema é o policial ou a missão?’
A formação policial nos dias de hoje, segundo o chefe do setor de psicologia, não privilegia o enfrentamento. Há casos, ainda segundo ele, de policiais iniciantes que ficam surpresos ao serem treinados pelo Batalhão de Operações Especiais (Bope) e concluírem o curso aprendendo a se defender e não a atacar.

Seria justamente a falta de preparo que levaria o policial para a “guerra”, como último recurso em meio ao pouco treinamento e ao estresse da profissão.

Derenusson citou ainda o depoimento do coronel Robson Silva, chefe do Estado Maior, que na mesma CPI chegou a dizer que era necessário regular a venda de droga na mão do estado, questionando o valor da “missão” do policial contra o tráfico de drogas.

“No Santa Marta o policial-guerreiro não aparece, é um policiamento de proximidade. O problema é o policial ou é a missão? Não adianta colocar um policial mal preparado em uma área vermelha”, relata.

G1 RJ