“A polícia é apenas parte da solução”

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O santa-mariense José Mariano Beltrame é secretário de Segurança do Rio de Janeiro desde janeiro de 2007 (Deivid Dutra / A Razão)
O santa-mariense José Mariano Beltrame é secretário de Segurança do Rio de Janeiro desde janeiro de 2007 (Deivid Dutra / A Razão)

Secretário Estadual de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame falou sobre violência nas cidades

por Maurício Araujo

O assunto na noite de ontem na Faculdade de Direito de Santa Maria (Fadisma) foi segurança pública. Estudantes, professores, autoridades, funcionários e outros interessados acompanharam o debate proposto pelo Núcleo de Segurança Cidadã (Nusec), que trouxe o secretário Estadual de Segurança do Rio de Janeiro, o santa-mariense José Mariano Beltrame, para falar sobre o tema.

Na oportunidade também foi firmado um convênio de cooperação técnica e acadêmica entre a Fadisma e o Estado do Rio de Janeiro.

Antes da Classe Aberta: “(In) Segurança em pauta”, Beltrame conversou com A Razão e abordou o crescimento da violência nas grandes cidades. Ele destacou que a polícia, sozinha, não é a solução para a redução da violência nos grandes centros. É preciso, segundo ele, investimentos em políticas públicas de qualidade e de ressocialização.

Confira a seguir, trechos da entrevista:

A Razão – Como o senhor percebe a violência nas grandes cidades e quais as soluções e perspectivas?

Beltrame – A médio e a longo prazo as perspectivas não são boas. (…) Em qualquer outra política pública, dentro do conceito de segurança pública, você tem segurança primária, secundária, terciária, mas elas não existem no Brasil. Qual é a política que você tem de perspectiva para a juventude? Se você quer saber quantas pessoas morreram no Rio Grande do Sul, é só pegar o computador, agora. Quem parametriza quantos jovens foram recuperados? Quantos milhões foram investidos? Qual é o custo/benefício disto? Se perdeu isso. As pessoas querem saber da polícia, polícia, polícia Se continuarmos deste jeito, é melhor cada um ter um policial para chamar de seu.

A Razão – A polícia então …

Beltrame – A polícia é parte da solução, mas não é a solução. E eu não vejo no Brasil, hoje, políticas que façam as outras partes da solução. Eu vejo tudo direcionado para a polícia. E a polícia é muito fácil de bater, e, às vezes, é bom bater, porque tem muita gente que não gosta, tem antipatia, com as suas razões, já que a polícia tem lá seus problemas. A sociedade se afastou da polícia e a polícia se afastou da sociedade e não foi em vão. Só que eu acho que temos que avançar nesta discussão.
Quando mataram um médico na Lagoa Rodrigo de Freitas (Rio de Janeiro), perguntaram: ‘Beltrame, não tem patrulhamento na lágoa?’. Eu respondi: ‘olha, se aconteceu um fato desta natureza, realmente não tinha naquele momento’. Mas aí, quando nós prendemos o menino, a gente viu que aquela foi a 16ª passagem dele pela polícia. E aí entra o que eu disse: o que fizeram com ele nas outras 15 vezes em que ele foi preso? E pelo o que eu sei, esse menino já está na rua novamente.

A Razão – Qual o futuro da segurança pública no Brasil?

Beltame – Hoje, pra mim, a polícia se esgotou em si. Eu acho que tem muita coisa que tem que ser revista, entre elas isso. O que a Assistência Social do Município, do Estado e da União têm pra melhorar a vida do cidadão. Porque o conceito é muito claro. Quanto mais cidadania para as pessoas, menos polícia será preciso.

A Razão – Que exemplo o senhor cita?

Beltrame – Você vai em Berlim (na Alemanha) e anda a meia-noite, e nada, tudo maravilha. Por quê? Porque a sociedade de Berlim é boa ou a polícia é boa? Obviamente porque a sociedade de Berlim é boa. Se invertermos o paradigma e trouxermos policiais de Berlim para o Rio de Janeiro, não vai dar muito certo. Temos que sair dessa, ‘ah, o polícia não tá aqui, não tá ali’. A polícia tem problemas de gerenciamento, de desenvolvimento de sistemas, de tecnologias, de capacitação, mas o buraco é bem mais embaixo.

arazao.com.br