Oscar Bessi: Dia do Policial: festa ou luto?

169

TGFPor Oscar Bessi

É 21 de abril, dia do Policial no Brasil. Seria uma data a comemorar, não é? Seria. Está certo que é da missão, do ofício, do cotidiano destes profissionais lidar com as múltiplas tristezas resultantes do descompasso social. Mas ser uma delas – e talvez entre as piores faces – não estava nos planos. Nenhum jovem brasileiro, homem ou mulher, ingressa numa corporação policial para ser humilhado uma vida inteira. Não. Ele entra embalado pelos doces sonhos juvenis de fazer justiça, ajudar ao próximo, salvar vidas e aquela penca de sentimentos nobres que conhecemos muito bem (falo no policial comum, normal, a esmagadora maioria, não os contratados por traficantes de drogas ou quadrilhas de corruptos para estarem non meio dos agentes da lei, esses aí não contam, ainda bem que são poucos, por enquanto).

É que eu acho que todos fomos, um dia, sonhadores. Mesmos os canalhas que vemos metendo a mão sem escrúpulos na cumbuca do povo. Até eles, um dia, sonharam com um mundo melhor. Problema é que crescer sem educação, sem bons exemplos e sob a batuta das más influências, dá nisso: se é pobre, o sujeito vira bandido de favela, ladrão de carro, boqueiro de drogas, etc. Se é rico, entra na máfia engravatada e encastelada que suga este país. Abafam os sonhos bons sob suas más influências e não piscam antes de fazer mal ao próximo. Ao contrário, se divertem. Viciam.

Não é dia de comemoração, e sim de reflexão preocupada, porque a gente olha para o lado e vê uma juventude sendo conduzida que nem boiada num rumo perigoso. Estimulada a não pensar, não ter regras, ignorar o próximo, pisar sobre quem quer que seja para chegar nos seus objetivos, viver de aparências e valores superficiais. Uma juventude incapaz de ler e perceber. De olhos fechados, repetindo cantilenas fanáticas e oportunistas, instigadas apenas ao consumismo degradante. À depressão e violência contra a própria autoestima. Sem identidade. Sem valores. E achando que agredir, da forma que for, é justificável.

Preocupa porque a máfia do medo cresce, lucra cada vez mais, os governos instigam a insegurança afrouxando seu aparato de segurança pública e jogando o pobre povo brasileiro à boca dos dragões. Policiais seguem mal remunerados, mal formados, mal distribuídos e instrumentos de jogadas esquivas e ridículas de alguns gestores públicos. Preocupante. No Rio Grande do Sul, então, por vontade e opção, o governo humilha seus policiais onde a dignidade bate m ais forte: no salário, que já não é dos melhores, mas põe o pão na mesa das suas famílias. Dignidade pisoteada. Respeito esfarelado na lembrança parcelada. E os caras? E esses homens e mulheres que arriscam a vida todos os dias, contra bandidos muito mais bem armados, o que fazem, em resposta ao governo? Seguem respeitando o povo do Rio Grande. Seguem fazendo a sua parte. Sem salário, sem equipamentos, sem o repeito mínimo necessário. Mas seguem.

Só que tudo um dia estoura. Torço para que o governo seja inteligente o suficiente – para não dizer outra coisa – para perceber isto antes de uma tragédia maior. Embora eu desconheça tragédia maior para um cidadão, um contribuinte e integrante do povo, do que ver um dos seus perder a vida graças à incompetência ou omissão pública, sejam estas do nível de administração que forem.

Mas, com tudo isto, eu comemoro o Dia do Policial. Sabem por quê? Porque mesmo sendo ignorados, mesmo ouvindo desaforos de uma sociedade onde até as crianças já são ensinadas a ignorar o respeito ao próximo, onde há mil cabeças pensantes criando leis para encobrir suas malandragens, ou arrecadar ainda mais para encher seus bolsos sujos, mesmo tendo a dignidade pisoteada por quem deveria ser o primeiro a nos respeitar, eu olho para o lado e vejo garra. Vejo força. Vejo alegria de ser, dedicação, paixão, caráter e respeito. Mesmo com todas as nossas falhas, mesmo que um ou outro, por vezes, escorregue nessa coisa humana de sucumbir, ou errar, ou se render aos imprestáveis. Eu vejo uma maioria esmagadora de homens e mulheres que são policiais de valor. Mesmo sob esta guerra desigual e absurda. Mesmo ouvindo dos seus entes queridos todos os dias para que troquem de profissão. Mesmo sendo ofendidos.  Eu vejo heróis ao meu lado. Sem quaisquer poderes especiais, apenas com a verdade no olhar, na alma e no coração. E uma vontade vibrante de tornar o mundo mais justo. Então comemoro.

CORREIO DO POVO