“Tiro, porrada e bomba”: a rotina na escola sitiada pelo tráfico na Capital

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Estudantes sentem medo, já que escola está em ponto de disputa por duas facções de traficantes Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
Estudantes sentem medo, já que escola está em ponto de disputa por duas facções de traficantes
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

ZH acompanhou um dia na Escola Estadual Erico Verissimo, bairro Jardim Carvalho, que desde quarta-feira adotou turnos de apenas duas horas

Salas vazias, quando deveria ter aula. Crianças em casa — ou na rua —, quando tinham de estar no colégio. A violência em Porto Alegre não faz só vítimas fatais. Cria uma rotina de medo e agonia que tira parte da alegria de quem ainda deveria cultivar a esperança no futuro. “Tiro, porrada e bomba” invadiram o cotidiano de quem antes temia a matemática e o português. Esse é o clima naEscola Estadual Erico Verissimo, que, se não está isolada nessa guerra urbana, transformou-se em bandeira do que não é aceitável numa sociedade moderna. Para conhecer a nova rotina do colégio — que na quarta-feira adotou turnos de apenas duas horas e já fechou as portas três vezes em nove dias —, Zero Hora acompanhou um dia no local.

A quinta-feira na escola Erico Verissimo:

7h30min
Depois que o dia clareia, o medo irrompe no bairro Jardim Carvalho. Vizinhos de bocas de fumo e acostumados com toques de recolher noturnos, os moradores convivem com as imposições da guerra do tráfico de drogas. Às 7h30min de ontem, quando o movimento na escola deveria estar no ápice, o portão sequer estava aberto. Pelo segundo dia, os estudantes tiveram turno reduzido.

9h15min
Meia-hora antes da aula da manhã começar, duas mães reclamavam em frente ao portão fechado, ao lado dos filhos: onde estariam os professores?

— Não tem ninguém aqui no portão, né? Mas deveria ter. A qualquer momento pode ter um tiroteio aqui na rua. Os alunos têm que ficar lá dentro — esbravejou uma delas.

Aos poucos, os alunos foram chegando. Grande parte estava acompanhada de um responsável, que levava até a sala de aula. Do lado de fora, olhares curiosos vigiavam as esquinas.

— O clima aqui? É tiro, porrada e bomba. Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega — ironizou uma mulher, que não quis se identificar. — Melhor não botar meu nome. Depois eles vêm pressionar dizendo que a gente fala demais.

9h45min
A sineta, parecida com uma sirena, toca. Com algum atraso, os professores dão início ao turno da manhã. Alguns pais ficam no pátio da escola — vão esperar ali mesmo as duas horas passarem, para só depois ir embora. Uma mãe conta que abandonou o emprego numa loja para animais no ano passado por conta da insegurança.

— Tenho quatro filhos. Não posso deixar eles à mercê do crime — explicou.

10h30min

Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Uma viatura da Brigada Militar estaciona em frente ao colégio. Dos três policiais militares que estavam no carro, uma policial desce e vai direto para a sala da diretoria. Em menos de cinco minutos, ela sai, silenciosa, e entra novamente no carro.

— Ela veio nos entregar um convite para uma reunião que as escolas terão com a Brigada para falar da segurança nas comunidades da região — explicou a diretora da Erico Verissimo, Sílvia Farturi.

Atrás da mesa, um papel com caracteres grandes exibe o número emergencial da BM: 190.

11h30min
Acompanhado de assessores e fotógrafo, o secretário estadual da Educação, Carlos Eduardo Vieira da Cunha, chega no colégio. Ele foi propor à direção a normalização imediata das aulas. Alegando não haver condições mínimas de segurança, a diretora negou pedido.

— Se, por razões de segurança, a gente for reduzir turno de aula, então teremos de reduzir de toda a rede. Definitivamente, não é uma solução — argumentou o secretário.

Vieira solicitou que as atividades sejam retomadas integralmente dentro de uma semana, após reunião entre as secretarias da Educação e da Segurança que vai tratar da violência no entorno de toda a rede estadual de ensino. É provável, segundo a direção, que a escola atenda ao pedido.

13h15min
Hora de iniciar o turno da tarde — vislumbrando que os estudantes possam sair mais cedo e em segurança. Após entregar o filho de nove anos, uma aposentada senta-se num banco, enquanto o outro filho, de 10, brinca pelo pátio da escola. Assim passariam as duas horas seguintes. Única condição imposta por ela mesma para levar os filhos à escola, depois de dois dias ouvindo tiroteio ao raiar do dia:

— Abaixo de bala, não vou trazer meus filhos. Vim hoje, porque estava calmo. E só vou embora quando a aula acabar — disse ela, acompanhada por, pelo menos, outras oito mães.

14h
Depois de atender alguns alunos, uma professora deixa a escola mais cedo. Ela explica que, pela guerra do tráfico, alunos de outros colégios que viriam para a Erico Verissimo, que é referência nesse tipo de atendimento, não estão comparecendo. Então, ela tem de se deslocar para atendê-los em outros locais.

Ao passar o portão, a docente é abordada por uma mãe que está em dúvida se mantém ou não os filhos estudando ali. Ela mesmo não tem opinião formada. Considera o ensino bom, mas percebe o que o medo tem causado nos alunos.

14h45
Duas mães aguardam a confecção do histórico escolar dos filhos, documento necessário para que possam ser transferidos para outro colégio. Desde o começo do ano, a média, por dia, tem sido de cinco desistências. Mas, nos dois últimos dias, 22 alunos já deixaram a Erico Verissimo.

— Quando assumi a direção, em 2004, tínhamos 820 alunos. Hoje, o dado de agora, porque ele vai cair, é de 529 — lamentou a diretora.

15h15min
A sineta toca pela última vez no dia. No pátio, pais, irmãos e vizinhos procuram pelos alunos. De forma apressada, eles passam espremidos pelo único portão, há pouco chaveado. Não há ninguém controlando quem entra ou sai.

Enquanto alguns esperavam o transporte escolar e outros seguiam para a casa a pé, uma viatura da Polícia Civil passou pela Rua Comendador Eduardo Secco. Uma aluna de 9 anos escala o guard rail em frente à escola para tentar ver para onde os agentes estavam indo.

— Foram lá para cima e dobraram no beco. Quem será que estão procurando? — questionou, sem resposta.

O TERRITÓRIO CONFLAGRADO

A Escola Estadual de Ensino Fundamental Erico Verissimo ocupa uma quadra inteira da Rua Comendador Eduardo Secco. Naquele ponto, sem número, quase no topo do morro, o prédio pertence à Vila Ipê 1. Antes do recrudescimento da guerra do tráfico na região, no início do ano, o colégio era frequentado por moradores de outras partes do bairro Jardim Carvalho. Desde então, e principalmente após o tiroteio de terça-feira, estudantes que moram na Vila Colina estão impedidos de passar a “fronteira”.A causa é a disputa por território entre facções de diferentes bairros, incluindo a Vila Ipê 1, contra os Bala na Cara, grupo criminoso conhecido por dominar os presídios da Região Metropolitana. Essa guerra, que se estende a outros pontos da Capital, já teria provocado a morte de quase 40 pessoas só em 2016.

Foto: Arte ZH
ZERO HORA