Beltrame: “Valorizar o servidor é essencial para a Segurança”

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DESCRIÇÃO: Especial - José Mariano Beltrame,  secretário de segurança do RJ.
DESCRIÇÃO: Especial – José Mariano Beltrame,
secretário de segurança do RJ.

Nascido em Santa Maria, José Mariano Beltrame está diante de mais uma batalha, além das diárias que enfrenta no comando da Secretaria Estadual de Segurança do Rio de Janeiro: a realização da Olimpíada. O evento esportivo trará ao país dezenas de delegações internacionais, além de milhares de turistas, e a preocupação não poderia ser maior, uma vez que os índices de criminalidade têm aumentado e os servidores estão com salários atrasados. A menos de um mês do início das competições, Beltrame esteve no Rio Grande do Sul e compartilhou com o Correio do Povo sua visão sobre a segurança pública. Com formação em Direito pela UFSM e Administração de Empresas e Administração Pública pela Ufrgs, ele está há 10 anos no comando da Secretaria de Segurança e ajudou  na concepção do projeto de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

Correio do Povo: Quais são os receios em relação aos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro?
José Beltrame: A nossa preparação não começou agora. Na verdade já passamos por vários eventos de grande porte e de impacto. Cito a vinda do Papa [Francisco, em 2013], a Jornada Mundial da Juventude e a Copa do Mundo 2014. Em relação especificamente à Olimpíada, a maior preocupação sempre foram com os possíveis ataques terroristas. Desde 2007, essa questão esteve em primeiro lugar. Apesar de o Rio de Janeiro não ter característica para esse tipo de ato, receberá países (delegações esportivas e turistas) que são mais suscetíveis a esse tipo de ataque.

CP: Qual o principal legado do Rio de Janeiro na área da segurança para outras cidades e estados?
José Beltrame: Os projetos que desenvolvemos, como as Unidades de Polícia Pacificadora, que foram criadas na realidade carioca; o programa integrado de metas, que busca incentivar e gratificar o bom desempenho dos servidores; o regime adicional de serviço, que trouxe de volta o policial às ruas; e outras ações que permitiriam trazer os policiais para atuarem em outros departamentos e empresas públicas. Foram algumas das inovações que reduziram os patamares de criminalidade no Rio de Janeiro, apesar de agora estarmos acompanhando que houve aumento de março até os dias atuais.

CP: O senhor citou que para haver alteração efetiva na segurança pública é preciso mudanças na legislação, Judiciário, assistência social, sistema penitenciário e polícias. Entre elas, qual é a prioridade?
José Beltrame: As mudanças têm que ser sistêmicas. É um processo. Todas essas áreas têm que caminhar juntas. Na verdade, esse é um grande defeito que existe no Brasil. Não há conversa e diálogo. Os poderes não se falam, as secretarias e ministérios não conversam. Ao mesmo tempo, as mudanças precisam ocorrer de maneira simultânea. Não adianta muita coisa se as ações não forem concomitantes.

CP: O senhor defende a cidadania como uma das maneiras de melhorar a segurança. Falta cidadania no Brasil?
José Beltrame: As pessoas precisam ser mais participativas, se respeitar e ter mais generosidade. É preciso que comecem a aceitar os outros como eles são. E tentar ser mais compreensível e buscar efetivamente o bem comum. Parar de olhar para o seu umbigo e olhar o coletivo. Esse é o diferencial. Todos temos filhos para criar e vivemos no mesmo ambiente. Então, não adianta eu resolver o meu problema e você ficar com o seu, se lá na frente, as coisas vão se inverter, e esse problema será meu e assim por diante.
CP: Atualmente, acompanhamos uma desvalorização das categorias ligadas à segurança. Há expectativa de que essa situação mude?
José Beltrame: O servidor público hoje tem que ser valorizado e capacitado. E na medida que essas duas coisas são feitas, o serviço público se torna ágil. O que se vê hoje é o contrário. Os servidores não são bem pagos, a estrutura é inchada e, consequentemente, não são capacitados. O resultado é a burocracia, que se torna um empecilho para as mudanças e melhorias. Se o serviço público for mais enxuto e capacitado, as mudanças necessárias ocorrerão mais rapidamente. Sabemos que os atrasos de salários, como têm ocorrido no Rio de Janeiro, geram impacto desmotivacional muito grande na Polícia. E para enfrentar isso, é preciso diálogo.
CP: Como fazer projetos sem recursos?
José Beltrame: Segurança pública não é barata. Uma maneira de ver isso é vendo quanto cada pessoa gasta individualmente com segurança pessoal. Assim, é preciso criar e buscar alternativas, fazer parcerias com outras instituições.

CP:Na vida pessoal, como têm sido esses quase 10 anos à frente da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro?
José Beltrame: Sem férias e sem fim de semana. Não é possível se afastar muito porque é uma área que demanda muito. Gosto do que faço, então não me importo. E o Rio de Janeiro é uma caixinha de surpresa.

CP: Quais são os planos pós-Olimpíada?
José Beltrame: Por enquanto, é viver um dia de cada vez [risos]. Vamos fazer as Olimpíadas e depois vamos ver.

Por Mauren Xavier

CORREIO DO POVO