JBV Online: Brigamos pela tocha, pelo gato, mas não pela nossa segurança

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Foto Alan Dias/JBV Online
Foto Alan Dias/JBV Online

Por Alan Dias

Penso que necessitamos reconsiderar nossas escolhas na hora de eleger motivos para protestar. Protagonizamos um enorme estardalhaço em virtude da passagem da Tocha Olímpica, sabendo que na realidade, nada podia ser feito para impedir o fato, pelo menos não quando ocorreram os protestos. Nos dividimos, nos ofendemos e discutimos. Recentemente, nas redes sociais, ocorreu uma enorme discussão porque uma pessoa pediu se alguém teria um gato de raça para doar. Houve indignação e troca de farpas. Mais tarde o cidadão explicou que a ideia era dar o animal para uma criança que havia perdido um igual, mas aí o estrago já estava feito.

Poucos dias após a passagem do símbolo olímpico, a imprensa da Capital da Amizade divulgou que o 13º BPM possui a maior defasagem de efetivos do Estado, chegando a 58%, e o resultado? Silêncio quase absoluto. Não ocorreram protestos, nem mesmo textos ou mensagens de indignação pelo fato nas redes sociais.

Vejam, consideramos uma verdadeira afronta a passagem da tocha, mesmo se tratando de um fato isolado, que tenha ocorrido apenas uma vez nos 98 anos de história de Erechim e que dificilmente voltará a ocorrer, porém nos calamos diante de um cenário que coloca a nós e nossos familiares, diariamente e cada vez mais, em risco de morte. Sim, a tocha provocou despesas, mas passou, já a defasagem de efetivo vai continuar e piorar.

Os policiais (que hoje convivem com salários parcelados, um dos menores ‘soldos’ do país na categoria, precisam trabalhar com apenas um ou dois integrantes onde seriam necessários, no mínimo, oito ou dez) são os primeiros a serem lembrados quando nos encontramos em qualquer situação de perigo e creio, merecem nosso apoio quando são eles que se encontram sob ameaça. Até alguém pode dizer ‘mas eu chamei e não vieram’. Respondo com uma frase curta: 58% de defasagem. Aparentemente não nos damos conta que: quanto menos policiais, maior será o risco que corremos, não importa o local, se na rua, trabalho, lazer ou em casa.

Tenho certeza que a bandidagem anda agradecendo pelas nossas prioridades de luta.

O 13º BPM é responsável por cobrir um território de 8.208.75 km², onde estão espalhados 37 municípios, que abrigam em torno de 249.547 habitantes. A área se localiza na fronteira com Santa Catarina, servindo assim como porta de entrada para armas e drogas vindas, principalmente de Foz do Iguaçu e do Paraguai, possui centenas de estradas vicinais que formam um enorme labirinto em meio às matas da região, caminhos que ligam uma cidade a outra.

Vejam, é humanamente impossível que um efetivo policial, trabalhando apenas com 42% de sua capacidade, consiga guarnecer tudo isso. Se levarmos em conta que a Polícia Civil e a Polícia Rodoviária Federal também enfrentam déficit de pessoal, vemos que a situação é dramática, mesmo assim, nossas polícias estão entre aquelas que mais realizam prisões no Estado e desde 2013, quase todos os crimes violentos registrados na região foram solucionados.

Quando saímos para a rua e não encontramos um policial na esquina, não é o Estado quem sofre, é você, sou eu, o cidadão, que desta forma está sendo colocado em risco. Os efeitos dessa falta de policiamento foram sendo sentidos na mesma medida em que os efetivos iam diminuindo no Rio Grande do Sul. Primeiro aumentaram os furtos, depois os roubos, em seguida os crimes contra a vida e na sequência, estes mesmos crimes contra a vida passaram a contar com uma brutalidade poucas vezes vista anteriormente, mas que hoje já faz parte do nosso cotidiano.

Por Alan Dias/JBV Online