Nadadores franceses terão reforço da BM para proteção

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MANADOU
IMAGEM ILUSTRATIVA

REPORTAGEM ESPECIAL

CAETANNO FREITAS ZERO HORA

A presença de delegação francesa em Porto Alegre entre 25 de julho e 3 de agosto acendeu alerta na Brigada Militar (BM). Alvo de recentes ataques terroristas, como o de quinta- feira em Nice, a França também está com equipes esportivas sob risco potencial durante a Olimpíada, conforme revelou em maio o chefe da Direção de Inteligência Militar (DRM) da França, general Christophe Gomart (leia ao lado).

A Federação Francesa de Natação escolheu o centro de treinamentos do Grêmio Náutico União (GNU) para se preparar até o início dos Jogos. Cerca de 30 pessoas da delegação estarão na Capital e devem se hospedar no Hotel Sheraton, a três quadras do União. A intenção é fazer o deslocamento diário da equipe a pé pelas ruas do bairro, o que pode representar perigo para os atletas.

O coronel Mário Ikeda, chefe do Comando de Policiamento da Capital (CPC), admite que haverá reforço na segurança para a delegação francesa:

– Vamos dar atenção especial. A França é um país que está sendo alvo de terrorismo. O monitoramento, por parte da Brigada Militar, será mais de inteligência, mas também pode haver mais policiais nas ruas nesse trajeto. Porém, no momento, ainda não temos nenhuma informação de que poderá ocorrer algum fato terrorista no Estado.

COI CLASSIFICA FRANÇA COMO EQUIPE-ALVO

O GNU vem tratando sobre questões de segurança desde a confirmação da vinda da equipe francesa de natação, em fevereiro. Segundo o presidente do clube, Francisco Schmidt, “providências estão sendo tomadas com os órgãos competentes”.

Conforme um analista da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ouvido por Zero Hora, a França é definida em protocolo do Comitê Olímpico Internacional (COI) como “equipe-alvo” e, por isso, terá seguranças privados próprios, policiais federais e também seguranças privados do GNU, tudo para tentar evitar um eventual ataque terrorista.

DDDDFAtentados provocam auditoria na segurança dos Jogos Olímpicos

SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA já checaram dados de 400 mil pessoas e se reúnem para detectar pontos falhos no aparato antiterrorismo das cidades que vão hospedar atletas participantes da competição

Desde o início de julho, 400 mil pessoas que estarão no Brasil durante os Jogos Olímpicos tiveram seus antecedentes checados pelos serviços de segurança brasileiros. O rastreamento, reforçado na sexta-feira, é um trabalho conjunto para prevenir atentados, feito pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), pela Polícia Federal (PF) e pelas polícias Civil e Militar dos Estados onde ficarão hospedadas delegações. Eles fazem parte do recém criado Centro Integrado Antiterrorismo – sediado em Brasília e o primeiro desse tipo em Jogos Olímpicos, segundo o governo –, que conta com a presença de agentes de diversos países, entre os quais EUA, Rússia, Israel e França.

A preocupação com terrorismo cresceu diante de dois fatos. O primeiro em maio, quando o chefe da Direção de Inteligência Militar (DRM) da França, general Christophe Gomart, revelou que o grupo extremista Estado Islâmico (EI) poderia estar planejando atentado contra a delegação olímpica francesa. A informação aparece na transcrição de depoimento dele, em audiência no dia 26 de maio, à comissão parlamentar francesa de luta contra o terrorismo (que investiga os ataques de 2015), mas só foi revelada esta semana. O segundo alerta foi despertado pelo atentado de quinta-feira em Nice.

Em entrevista no Palácio do Planalto, o general Sérgio Etchegoyen, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), afirmou que o caso em Nice “exige uma série de revisões”:

– Estamos revisando o planejamento porque temos o dever, a partir do que aconteceu, de checar se há lacunas – disse o general, que se reuniu no fim da sexta com o presidente interino Michel Temer e os ministros Raul Jungmann (Defesa) e Alexandre de Moraes (Justiça) para debater o assunto.

A Abin nega ter recebido da França aviso sobre possível ataque terrorista, mas a negativa pode ser apenas tentativa de conter o pânico que esse tipo de anúncio causa. É difícil que o governo brasileiro não saiba do alerta feito pela DRM, já que o entrosamento com os franceses é bom. Tanto que em novembro a PF enviou dois agentes a Paris. Um deles se tornou adido da embaixada na França. O objetivo é coleta de dados sobre possíveis ameaças à Olimpíada. Um agente da Abin também foi enviado, esta semana, para coletar informações sobre o ataque em Nice.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) ressalta que a segurança começou a ser reforçada em 5 de julho, com 85 mil pessoas para garantir proteção nas ruas do Rio durante os Jogos (incluídas tropas da Força Nacional de Segurança). Para salvaguardar visitantes, os serviços têm realizado verificação dos antecedentes de todos os envolvidos na Olimpíada.

“No total, os antecedentes de cerca de 400 mil pessoas foram avaliados, incluindo voluntários, jornalistas e dirigentes”, revelou o COI, em nota oficial.

A triagem inclui funcionários que vão atuar em todos os pontos onde ocorrerão disputas. Parte das informações foi recebida de serviços policiais estrangeiros.

GAÚCHO COMANDA TODA A REDE DE DEFESA

A Abin produziu até o momento 61 relatórios de análise de risco sobre a Olimpíada, que são mantidos em sigilo. Fontes da agência confirmam que será feito reforço de segurança às delegações-alvo, caso da francesa, que terá atletas em Porto Alegre (leia ao lado).

Além dos 85 mil policiais e militares brasileiros, outros 250 policiais estrangeiros (de 55 países) vão compor a segurança dos Jogos. Entre eles, membros dos serviços de inteligência de Bélgica, França e EUA – países que sofreram os mais recentes ataques terroristas de grande impacto.

A segurança própria (feita por agentes dos países que competem nos Jogos) só é permitida para chefes de Estado. Os policiais franceses, americanos e israelenses, para ficar nas nações mais visadas, têm inclusive direito de usar armas, desde que para proteção dos governantes de seus países. Os atletas não gozam de proteção especial de seus conterrâneos. A segurança deles será feita, a partir do dia 24, pela PF. O efetivo designado a Porto Alegre não foi informado. As polícias militares farão patrulhamento de vias e rastreamento de prédios onde ocorrerão treinos e disputas.

A PF não revela quantos agentes federais terá em cada cidade que vai hospedar atletas olímpicos, mas no Rio serão 4,5 mil – sete vezes mais que os 700 usuais. Fica também na capital fluminense o Centro de Inteligência dos Serviços Estrangeiros, que reúne representantes de cerca de cem serviços de inteligência de outros países.

Toda a rede antiterrorista criada para os Jogos está a cargo de um gaúcho, o delegado da PF Andrei Rodrigues, secretário de Segurança para Grandes Eventos. Outro gaúcho, o também delegado federal Luciano Flores de Lima, coordena o Centro de Cooperação Policial Internacional, cuja função é entrosar a PF no rastreamento de possíveis ameaças do Exterior.

HUMBERTO TREZZI

Especialista em inteligência diz que Nice deve servir de lição e critica preparação para as Olimpíadas

André Woloszyn vê equívocos como o de centralizar preparação no Rio, preparar-se para ataques aéreos e estabelecer um perfil para os suspeitos

Por: Léo Gerchmann
Especialista em inteligência diz que Nice deve servir de lição e critica preparação para as Olimpíadas BORIS HORVAT,AFP/AFP
Uma das preocupações do analista é a variedade de possibilidades e de perfis para um atentado terroristaFoto: BORIS HORVAT,AFP / AFP

O especialista em inteligência André Luís Woloszyn, que já integrou os quadros da antiga SAE (atual Abin, a Agência Brasileira de Inteligência), especializou-se em terrorismo internacional na Escola Superior de Guerra (ESG) e dá consultoria para o próprio governo e para o Congresso. Afastado das obrigações formais de quem integra a inteligência, Woloszyn fica à vontade para indicar eventuais problemas e recomendar cuidados. No caso específico do atentado em Nice, ele faz um alerta: os serviços de segurança brasileiros estão centrados no Rio de Janeiro. Caso ocorra algum tipo de atentado, sendo no Rio ou em outra cidade do país, “as manchetes dos jornais dirão que foi nas Olimpíadas”. Em razão da alta conflagração política brasileira e de outros elementos, o analista de assuntos estratégicos, que integra o núcleo de estudos de segurança da Fundação Escola de de Sociologia e Política de São Paulo, considera preocupante a situação. Leia entrevista concedida a Zero Hora na tarde desta sexta-feira:

As Olimpíadas ocorrem no Rio, mas o Brasil tem outras cidades importantes, assim como a França não é apenas Paris. É importante haver cuidados especiais também em outros locais?

Sim. As Olimpíadas estão centralizadas no Rio, mas há jogos em outras cidades. Preocupa-me muito a excessiva centralização da segurança. No Brasil, temos um clima propício ao terrorismo, em razão dos enfrentamentos internos. Há ainda insatisfação nas polícias, perspectivas de movimentos sociais contra o impeachment, gente a favor do impeachment. Muito confronto. E, com tudo isso, temos efetivos não familiarizados com o terrorismo. Claro que há perigo de que ocorra algo parecido com os ataques contra o Charlie Hebdo ou o de Nice. O que descarto é um ataque pelo espaço aéreo ou por via ferroviária.

Temos um país conflagrado, um momento internacional tenso, com atentados terroristas, e ainda um grande evento de repercussão internacional. Esse conjunto é preocupante?

São um coquetel de combustão. É como o triângulo do fogo (combustível, oxigênio e o calor). Temos um conjunto de fatores que aumentam consideravelmente o risco de um atentado no Brasil. E veja bem: o Estado Islâmico tem site em português, eles recrutam por idealização política. E há um considerável número de brasileiros radicalizados e se convertendo ao islamismo. A inteligência brasileira tem a informação de que, na principal mesquita de São Paulo, há 30 conversões por dia. Também temos a informação de que há, no Brasil, pessoas envolvidas em ações terroristas ou em redes terroristas no sul da África, Ásia e Oriente Médio.

A conversão não significa que a pessoa se tornará extremista. Qual a preocupação?

Claro, não necessariamente será alguém radicalizado, mas a possibilidade de cooptação desses grupos é maior entre os convertidos, até porque eles não aceitam infiéis. A conversão é o primeiro passo.

O EI está mais atuante fora do Oriente Médio?

Sim, porque perdeu 50% do território na Síria, e isso intensifica o processo de recrutamento.

Como o Brasil tem lidado com esse tema delicado?

Há erros de avaliação. Ainda não se sabe lidar com isso. O Brasil precisa definir o que é terrorismo para nós. Outra coisa: temos feito treinamentos de espaço aéreo, metrôs e trens, e isso está fora de questão. O Brasil se prepara para um ataque como o 11 de setembro, mas isso não existe mais. Deveríamos nos concentrar na figura do lobo solitário e cuidar o que ocorre em todo o país. Se houver um atentado em lugar que não seja o Rio, as manchetes no mundo serão de que houve um atentado nas Olimpíadas, que são no Brasil.

Recentemente, tornou-se público um cartaz em que se pede ao público para avisar caso veja alguém usando roupas, mochilas e bolsas destoantes das circunstâncias e do clima. Qual sua opinião sobre isso?

Esse cartaz me preocupou, me apavorou. Em primeiro lugar, os terroristas não têm hoje perfil identificável. O terrorista pode ser um brasileiro como qualquer outro. E quem não usa mochila para viajar? E quem usa turbante? Na minha opinião, é temerária a tentativa de atribuir um perfil, seja baseado na aparência ou por um estado psicológico. Isso pode acarretar erros de avaliação de parte das forças de segurança e, consequentemente, a vitimização de pessoas inocentes, uma vez que tais forças não estão familiarizadas no tratamento de situações críticas como essa. Não podemos deixar de levar em consideração que num ambiente onde estão concentrados grupos multiculturais, e face à novidade de estarem em um país diferente, é natural que suas roupas sejam destoantes, assim como nervosismo para chegarem ao local e se acomodarem. No caso de mochilas ou bolsas, trata-se de um utensílio já incorporado mundialmente na vestimenta de turistas. A característica principal dos terroristas na atualidade é o fato de estarem inseridos no ambiente urbano e transitarem neste com naturalidade. Não há um biotipo ou perfil identificável, em especial, tratando-se de radicais autóctones. Podemos perceber alguma suposta intenção por meio de gestos, atitudes e diálogos, desde que a pessoa ou as pessoas estejam sendo monitoradas por algum tempo, onde será analisado o conjunto de suas atitudes e não um comportamento pontual.

Nice nos traz alguma lição?

Sim. Vimos que qualquer instrumento cotidiano pode servir ao terror. Agora, foi um caminhão. Talvez, depois disso, aumentem o perímetro onde não podem circular veículos. E é importante lembrar que as manchetes dizem ser mais um atentado na França. Não foi em Paris. Foi em Nice. As Olimpíadas serão no Rio e no Brasil.