ZERO HORA: Acabar com caixas eletrônicos não é a saída, dizem especialistas em segurança pública

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Schirmer diz que bancos têm lucros exorbitantes e, por isso, têm de reforçar a segurança e se preocupar com os moradores
Foto: Lauro Alves / Agencia RBS

Possibilidade foi levantada pelo secretário da Segurança Pública após assalto a bancos em São Sepé, na região central do RS

Por: Marcelo Kervalt

O crime que balançou São Sepé na madrugada do último sábado trouxe à tona, a partir de declarações do secretário da Segurança Pública do Estado, Cezar Schirmer, questionamentos sobre a parcela de responsabilidade que os bancos têm na segurança da população. No município a 270 quilômetros de Porto Alegre, um grupo de pelo menos cinco criminosos explodiu duas agências bancárias, uma do Banco do Brasil e outra do Sicredi, trocou tiros com policiais, deixando feridos, e fez um cordão humano com cerca de 20 reféns nas ruas da cidade, por volta da 1h.

Na fuga, duas pessoas foram levadas como reféns e liberadas em um posto de combustíveis de Caçapava do Sul. Após o episódio, Schirmer afirmou que o Estado está cobrando que os bancos reforcem a segurança nas suas unidades e chegou a dizer, no sábado, que “ou eles entram para o jogo e colocam segurança 24 horas, ou então nós vamos ter de proibir caixa eletrônico“. Neste domingo, o secretário alegou que tratou do assunto apenas com a direção do Banrisul, mas não adiantou qual foi o posicionamento do banco.

A sugestão de acabar com os caixas eletrônicos é considerada inadequada por especialistas em segurança pública. Sociólogo, professor da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rodrigo Ghiringhelli de Azevedo critica a declaração do secretário, ao considerar que o Estado quer colocar fim a um serviço em razão da insegurança:

— Mostra a incapacidade deste governo em realizar o serviço que é de sua responsabilidade. E, que diante disso, quer repassar a responsabilidade à sociedade. Estamos falando de um serviço que o governo quer acabar por falta de segurança pública. Segurança, essa, que é responsabilidade dele, governo. Não está certo.

Para o cientista social e professor do curso de Tecnologia em Segurança Pública e Gestão Pública da Feevale, Charles Kieling, Schirmer entrou em um assunto que foge à sua alçada.

— É um ponto muito delicado, pois o secretário está mexendo com uma questão maior do que a responsabilidade da sua secretaria. Os outros setores da área política vão bater de frente. E é o Estado que tem de garantir a segurança e não a inciativa privada. Não dá para querer proibir os caixas eletrônicos — disse Kieling.

Assaltantes usando fuzis renderam pessoas que estavam na rua e as obrigaram a formar um escudo humanoFoto: Reprodução

Caixas seriam colocados em locais seguros

Neste domingo, Schirmer alegou à reportagem que a intenção não é acabar com os equipamentos, mas garantir que sejam colocados em locais seguros. Questionado para que apontasse quais seriam esses pontos, disse que teria de ser feito um estudo.

A alternativa à proposta de fim dos caixas eletrônicos apontada pelo secretário seria o reforço da segurança privada nas agências, sugestão que divide opinião dos especialistas. Para Azevedo, essa não é a melhor solução, pois os assaltos a bancos são praticados por criminosos especializados neste tipo de ataque, com armamento pesado e muito bem organizados. Para ele, os vigilantes seriam presas fáceis.

— É preciso combater a precariedade do departamento da Polícia Civil responsável por investigar esses crimes. As ações do Estado passam por um mapeamento deste grupos para que se possa antecipar as ações deles, mas sabemos que há viaturas sem combustível, falta de pessoal entre outros problemas de estrutura. Não dá para simplesmente repassar a responsabilidade aos bancos, pois, mesmo que se tivesse vigilância 24 horas, ela não seria suficiente. Identificando os ataques com antecedência, poderiam ser deslocados policiais para essas cidades para combater o crime — esclareceu o especialista.

Kieling pensa diferente. Para o professor da Feevale, a intenção do secretário é válida, mas não há interesse dos bancos em investir em segurança pública.

— O roubo do dinheiro e do próprio caixa eletrônico não gera prejuízo em razão do seguro que é feito. Então, é mais vantajoso para os bancos não colocar vigilância 24 horas. Se tiverem que investir em seguro e ainda em segurança, o custo será muito alto. Schirmer quer quebrar um paradigma, mas não vai haver essa mudança em curto e médio prazo. É uma excelente alternativa, mas difícil de colocar em prática — avaliou.

Ideia passa por mecanismos que queimem cédulas

O secretário sugeriu, ainda, que os bancos adotem mecanismos que queimem ou manchem as cédulas quando o caixa eletrônico é explodido. Para Azevedo, essa tecnologia tem resultado positivo, pois inibe a ação criminosa. Kieling diz que o dispositivo é ineficaz:

— Não resolve, pois parte do dinheiro não é queimado ou manchado. O componente explosivo fica no entorno do cofre. As cédulas que estão mais ao meio não sofrem danos, apenas a superfície do pacote é prejudicada. E aí pouco dinheiro é afetado — diz Kieling.

Schirmer rebate:

— A informação que tenho é que todo ou quase todo o dinheiro é queimado — disse, antes de acrescentar:

— Segurança pública é na rua. Dentro do banco é segurança privada. E os bandidos estavam em São Sepé e fizeram pessoas reféns pelo dinheiro que estava dentro do banco. Os bancos não trabalham com sorvete. O produto deles é dinheiro — finalizou o secretário.

Foto: Germano Rorato / Agencia RBS