ES: Governo quer punir 300 PMs por motim

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A uma quadra e meia do Comando Geral da PM do Espírito Santoestá mais um piquete, no portão do 1º BPM. Do outro lado da grade, cerca de 40 viaturas estão paradas. Próximo de uma boca de fumo, o acampamento exige cuidados. PMs que estavam de folga montaram um toldo do outro lado da rua. De bermuda e camiseta, observam quem passa.

– As mulheres dos traficantes nos provocam – conta uma das manifestantes em frente ao batalhão.

Mulher de policial, Ordilene Martins, 49 anos, não esconde o cansaço. Ela participou das reuniões com representantes do governo do Estado. Aceita negociar o pedido de 47% de reposição, mas exige a “anistia total” dos PMs.

– O piso da categoria é R$ 2,6 mil, mas com os descontos dá menos de R$ 2 mil. Para quem paga aluguel e tem família, não sobra nada – diz.

O governo ensaia punir a insubordinação. Sinaliza abrir processo disciplinar por motim contra 300 policiais. Ao classificar de “chantagem” a paralisação, Paulo Hartung alega que não há recursos para recomposição salarial, com impacto de R$ 500 milhões no caixa estadual, e exige o retorno dos PMs às ruas, quase vazias devido ao medo instalado nos capixabas.

– A reivindicação é justa, mas a forma não está correta – afirma o aposentado Samuel Vieira, 69 anos.

Os dias com relatos de pessoas baleadas e de confrontos de gangues desgastaram a imagem do movimento das famílias. Um cartaz fixado na parede do quartel do comando pedia “buzine para nos apoiar”. Alguns motoristas atendiam ao pedido, enquanto outros reclamavam aos gritos de “piranhas” e “vão trabalhar”.

POPULAÇÃO VAI ÀS COMPRAS PARA FAZER ESTOQUE

Apesar do envio de 2 mil homens das forças Armadas e Nacional, as ruas da Grande Vitória seguiram com pouco movimento. O comércio continuou fechado, nada de aulas nas escolas e nem todos os postos de combustível abriram. Os ônibus circularam pela manhã, mas o assassinato de um sindicalista e ameaças aos motoristas interromperam o serviço outra vez.

Os supermercados funcionaram em horário reduzido, até as 16h, com filas enormes e reforço na segurança privada. As redes disponibilizaram carros para buscar os funcionários. O advogado Antonio Sergio Mendes, 35 anos, encarou fila de mais de uma hora para fazer um rancho. Comprou mantimentos, produtos de limpeza e bebidas:

– Vim fazer um estoque porque não sei quando vai terminar essa crise. A sensação de medo não deixa ninguém sair de casa.

A ROTINA DE UM ESTADO AQUARTELADO

ACAMPAMENTOS EM FRENTE A BATALHÕES da PM do Espírito Santo são sedes de servidores que não patrulham ruas e de famílias que os impedem de sair

Sentadas em cadeiras de praia ou banquinhos de plástico, 17 mulheres impedem a entrada ou saída de homens fardados e viaturas. Seus maridos e filhos, todos policiais militares, ficam do outro lado da grade branca, aquartelados. No início da manhã, um cabo se aproxima e faz a pergunta repetida desde o sábado, mais de uma vez ao dia:

– As senhoras podem se retirar para que o policiamento seja feito nas ruas?

– A gente não sai.

Acampadas em frente ao portão do quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Espírito Santo, em Vitória, as mulheres pedem reajuste de 47% nos salários dos familiares e anistia pelos dias parados. Irmã e mãe de PM, Maria Rita Gonçalves, 47 anos, não se sente responsável pela série de assaltos, saques e homicídios – mais de cem – vivenciada no Estado há seis dias. Ela põe a conta na postura do governador licenciado Paulo Hartung:

– São sete anos sem reajuste real. Ele não aceita negociar, acha que é um imperador.

Olheiras fundas pela vigília, Maria Rita integra um movimento que se iniciou na sexta-feira, com um protesto em Serra, cidade vizinha de Vitória, e, segundo as organizadoras, se espalhou por 78 municípios, com acampamentos nas portas de batalhões e companhias. Como as greves de militares são proibidas pela Constituição, os piquetes impedem o trabalho dos policiais, interessados no reajuste. O governo estadual vê uma ação coordenada nessa greve branca.

REVEZAMENTO É COMBINADO ENTRE MULHERES POR APLICATIVO

As mulheres, de jovens a senhoras, se revezam nos acampamentos. Vão até suas casas, tomam banho, descansam e buscam comida. Acertam o rodízio via WhatsApp. A ferramenta também transmite fotos e vídeos dos saques e tiroteios.

O acampamento no comando geral, na Avenida Maruípe, teve o momento mais tenso nestes dias de colapso da segurança pública. Na terça-feira, moradores foram ao local tentar encerrar o protesto. Pneus foram queimados e o Exército teve de usar gás de pimenta.

A rotina no local alterna períodos de marasmo, com pausas para um lanche abastecido por bolachas, sanduíche, frutas e café, com momentos de discussões e de medo. Na manhã de ontem, uma policial tentou viabilizar a saída de oito viaturas, já perfiladas atrás do portão.

– Vamos colocar esse policiamento que tá aqui na rua! Tem que trabalhar, chega, acabou, já deu o que tinha que dar! Precisamos ir pra rua, por favor.

As mulheres e filhas de PMs não arredaram o pé.

– Quem é a líder de vocês aqui hoje? – indagou a policial

– Não tem líder – responderam em uníssono.

 Risco do efeito cascata de paralisação no Brasil

O Palácio do Planalto monitora com preocupação a greve da Polícia Militar do Espírito Santo. Existe o receio de que a forma encontrada para provocar a paralisação capixaba, com as famílias barrando a saída dos policiais dos batalhões, seja adotada em outros Estados.

– Se esse modelo do Espírito Santo se espalhar, será um caos. Rio de Janeiro e São Paulo preocupam bastante – descreve um auxiliar do presidente Michel Temer.

Entre março e maio de 2014, em efeito cascata, houve greves das polícias militares de Maranhão, Bahia, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará. Em 1º de setembro do ano seguinte, no Rio Grande do Sul, a chamada “greve branca”, com familiares bloqueando portões, foi adotada em cerca de 30 quartéis, como forma de protesto contra o parcelamento de salário.

Presidente da Associação Beneficente Antonio Mendes Filho (Abamf), que representa soldados da Brigada Militar, e da Associação Nacional de Entidades Representativas de Policiais Militares e Bombeiros Militares (Anerbm), Leonel Lucas vê com preocupação a situação dos policiais militares no país, a partir da paralisação no Espírito Santo.

– Já temos alguns outros Estados discutindo esse tipo de movimentação. Em Pernambuco, por exemplo, estão cogitando paralisar durante o Carnaval. Em Alagoas, também há movimentação parecida – disse.

NO RS, CATEGORIA DEBATE COM GOVERNO PROPOSTAS

Em relação ao Rio Grande do Sul, Lucas, em princípio, não cogita paralisação por influência da situação vivida no Espírito Santo. Afirma, porém, que os PMs já discutiam formas de protesto, caso sejam atingidos por medidas do pacote anunciado pelo governo estadual no final do ano passado e que ainda não foram votadas pela Assembleia Legislativa.

– Estamos conversando com o Executivo e o Legislativo. Se não forem retirados do projeto artigos que retiram dos PMs entre 15% e 25% pagos por tempo de serviço, não descarto nada – diz.

O presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar de São Paulo, Wilson Moraes, também demonstra preocupação.

– Estamos entre os piores salários de policiais militares de todo o país. Procuramos mediar a situação, mas é preciso haver coerência dos dois lados: das famílias, para que não repitam o que está ocorrendo no Espírito Santo, e do governo, que precisa entender que está batendo o desespero devido aos baixos salários.

Segundo Moraes, o último reajuste concedido aos PMs paulistas foi em 2014, pouco antes da Copa do Mundo.

– Tenho receio de um efeito dominó, com as paralisações se espalhando por outros Estados. Principalmente aqui em São Paulo. No Espírito Santo, são cerca de 10 mil PMs. Aqui, são 100 mil.

No Rio de Janeiro, onde o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) se comprometeu a pagar até o próximo dia 14 os salários dos policiais com o reajuste de até 10,22%, negociado em 2014, o presidente da Associação Cabos Soldados Polícia Militar, Vanderlei Ribeiro, se opõe a qualquer tipo de paralisação dos PMs.

– Temos de nos manifestar, mas sem radicalismo. No Rio de Janeiro, o índice de criminalidade é muito alto. Não podemos colocar a cidade em risco – argumenta.

Seguranças armados nas ruas e ônibus parados

Wallace Barão, integrante do Sindicato dos Rodoviários de Guarapari, foi morto a tiros na madrugada de ontem em Vila Velha. O presidente do sindicato de Vitória, Edson Bastos, diz que o colega estava a caminho de Guarapari quando foi assassinado. Com a morte, os ônibus retornaram aos terminais devido à falta de segurança.

Para evitar novos roubos, supermercados da capital colocaram guardas armados na frente dos estabelecimentos. Mesmo com reforço de militares das Forças Armadas, o número de mortos desde o início da crise passou de cem ontem. Na noite de quarta-feira, três policiais foram baleados no Estado – nenhum corre risco de morte.

A sensação de insegurança e o número de lojas fechadas faz com que a população lote os grandes supermercados. Na manhã de ontem, estabelecimentos registravam enormes filas, alguns produtos acabavam e a gerência fazia interrupções no serviço.

ATAQUE À SEDE DA REDE GAZETA

Ainda ontem, a sede da Rede Gazeta, em Vitória, foi atingida por quatro tiros na madrugada. Eles foram disparados em direção a um auditório que serve para reuniões e eventos. Ninguém estava no local no momento. Seguranças fizeram ronda pelo prédio e encontraram cartuchos deflagrados. Em nota, três associações de imprensa repudiram o ataque ao prédio da Gazeta. Leia trecho do documento:

“A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (Abert), a Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ) repudiam o ataque. As associações registram, ainda, ameaças e agressões que os jornalistas do ES têm recebido.”

RENATO DORNELLES ZERO HORA