“Não tem limite, ele não existe mais”

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Na Susepe, elas também estão em peso

A segunda reportagem da série especial sobre as mulheres que trabalham na área da segurança e na da defesa trata de servidoras da Susepe

A Susepe é a Superintendência dos Serviços Penitenciários. Logo, lida com apenados, com pessoas que cometeram diferentes tipos de crimes. Atende gente de todo o tipo; uns mais perigosos, outros nem tanto, mas todos cumprindo as penalidades que lhes cabem. Assim, as aparências podem fazer crer que apenas homens sejam necessários para se trabalhar com o mundo dos delitos, com o universo do crime. Engano: cada vez mais mulheres ingressam na área da segurança e cumprem funções que o imaginário popular ou o senso comum acreditariam que fossem privilégio de homens.
Dois dados ilustram esse cenário, em que o sexo feminino passa a ocupar espaços, que, noutros tempos, seriam tomados por homens em sua ampla maioria. Conforme Maura Regina Borges Carlos, no cargo de técnico superior penitenciário da Susepe e na função de advogada do órgão, dos 35 técnicos – entre assistentes sociais, psicólogos, odontólogos e advogados – na 6ª Delegacia Penitenciária Regional, que atende 14 municípios, 31 são mulheres. Para Maura, isso demonstra que “as mulheres estão preparadas para ingressar no serviço público. Em todas as áreas nota-se isso, que as mulheres não têm medo de nada”, afirma.
Outro dado surpreende: segundo Ana Potira Mendes da Rosa, 27 anos, agente na Penitenciária Estadual de Sant’Ana do Livramento (Pesl), no concurso que fez eram 600 vagas e mais da metade foram ocupadas por mulheres. Isso teria levado à colocação de cotas para mulheres em processo seletivo seguinte.
“Acho bem importante o papel da mulher na área de segurança porque temos uma sensibilidade maior para tratar algumas questões. Como trabalhamos em uma área bem sensível, apesar de perigosa, temos todo o treinamento para trabalhar com os apenados. Não tenho nenhuma dificuldade, me sinto tranquila, tomando todas as precauções de praxe. Houve um acréscimo bem expressivo do número de mulheres na Susepe, tanto a nível de agente penitenciários como na área técnica”, enfatiza Maura.

Realização

Ana Potira se sente realizada como agente penitenciário e trabalhadora na área da segurança. Há mais de dois anos na Susepe, conta o motivo que a levou a essa escolha de vida: “Sempre me chamou muito atenção a área da segurança. No sentido de ser mulher e trabalhar na área da segurança, parece que é mais um desafio, mas é bem atraente esse desafio”, revela.
O presídio, que parece um lugar inóspito para muitos, é local em que Ana vive parte de sua rotina, e com satisfação. “Um dia após o outro é um desafio, na área de segurança, mas eu falo que pra mim é uma felicidade trabalhar na Susepe. Não conhecia muito o trabalho na Susepe, porque trabalhei no comércio antes de entrar no Estado. Não tinha muita ideia. Agora, o serviço da segurança é apaixonante. Por ser mulher, parece que o dia a dia é desafiador e motivador. Gosto muito do nosso trabalho”, salienta.
A própria visão da agente parece ter mudado depois de estar participando do cotidiano dos apenados. “A visão de sociedade quando estamos fora é uma. E a visão aqui dentro é totalmente diferente. Não podemos julgá-los pelos crimes. Aqui são todos iguais, o que é de direito dos presos é garantido, e o que é de dever é cobrado. Todos que entram, seja crime de tráfico, seja crime de estupro, claro, muitos chocam, a gente fica até mais abalado, porque o lado ser humano sempre vai predominar, mas a gente não tem esse preconceito. Para nós o trabalho é indiferente com todos”.
Igualdade
Conforme Maura Carlos, atualmente é visível a maior igualdade entre homens e mulheres, ainda que resquícios de preconceitos existam. “Tirando as questões de diferença física, o resto estamos iguais, principalmente na área pública, em que temos o mesmo salário. Ganhamos a mesma coisa que os homens. Isso já é um avanço também, que temos o privilégio de ter”, diz. Maura também informa: “Tem algum resíduo de discriminação ainda, porque ainda somos uma sociedade machista e é difícil de uma hora para outra isso acabar, mas na área da segurança, talvez por nossa formação, não sinto”.
A advogada da Susepe tem a receita de como eventuais constrangimentos às mulheres sejam eliminados de vez. “As mulheres podem e devem colaborar, principalmente no lar, onde têm seus filhos e devem ensiná-los, desde pequenos, a não ter essa discriminação, principalmente os filhos homens, as mães devem levar para um caminho que esse modelo seja enterrado de vez. A educação é tudo para isso, para acontecer essa mudança”, sentencia.
Para que a mulher saia dessa teia de discriminação e preconceitos, Maura ainda vai adiante e conclui: “Tendo uma preparação e estudando, a mulher vai se emancipar. A partir da emancipação da mulher, não há machismo que aguente”.

Ana Teixeira, do Instituto de Geral de Perícias (IGP), é a primeira entrevistada de série especial de A Plateia em alusão ao Dia Internacional da Mulher, na próxima quarta-feira, dia 8 de março

A frase, no título, é de Ana Neri Mota Teixeira, coordenadora da 7ª Coordenadoria Regional de Perícias de Sant’Ana do Livramento, unidade do Instituto Geral de Perícias (IGP), na cidade, e que atende outros 12 municípios. Ana, natural de Rosário do Sul, mãe de duas filhas, está há 13 anos no IGP. Papiloscopista (trata da identificação humana pelas papilas dérmicas presentes na palma das mãos e na sola dos pés, as impressões digitais), ela comanda 45 servidores, além de estagiários.

Ana Teixeira é uma entre as diversas mulheres de Livramento que trabalham nas áreas da segurança, da polícia, criminal ou da defesa (no caso do Exército). Posições tradicionalmente ocupadas por homens, esses espaços têm sido ocupados por mulheres. Algumas delas acabam alcançando posições de comando. “A mulher está crescendo nessa parte de liderança, que antes era mais do sexo masculino. Agora a mulher está conseguindo ter esses cargos de liderança, mostrando que tem capacidade para esse tipo de atividade”, ressalta Ana.
A maior identificação do sexo masculino com essas áreas de trabalho pode significar alguma dificuldade para as mulheres, em razão de preconceito. “Acho que o preconceito existe ainda. Tem horas que vemos que o preconceito ainda predomina, mas a mulher aos poucos está conquistando seu espaço e avançando nessa parte de liderança e de chefias, pela sua capacidade”, afirma a coordenadora da 7ª CRP.
Isso faz dessas mulheres exemplos na sociedade. Ana Teixeira partilha dessa percepção. “Podemos conseguir o que antes era preconceito, o que era o cargo masculino. Estamos evoluindo e as mulheres estão conquistando esses lugares de liderança e chefias na segurança pública, que sempre foi mais chefiada pelo sexo masculino. Todo mundo pode alcançar o que conquistamos”, enfatiza.
Nesse sentido, Ana pensa que não há limites para que o sexo feminino galgue por espaços que, outrora, não eram ocupados por mulheres: “Não tem limite, ele não existe mais. A mulher tem capacidade pra isso, de alcançar qualquer cargo que antes era ocupado pelo sexo masculino. Nós temos essa capacidade”.

Sobre a potencial dificuldade de exercício da autoridade, Ana tem a receita para superá-la, caso fosse necessário: “Trabalhamos em conjunto, todo mundo se ajuda. De vez em quando temos que puxar as orelhas, ter o pulso firme. Para conseguir esse tipo de liderança temos que trabalhar, em primeiro lugar, com amizade, tem que formar um grupo como uma família, respeitando a individualidade de cada servidor. A gente vai respeitando e conquistando a confiança do servidor para que trabalhe junto”, revela.

Nas rodovias, as meninas também se destacam

A terceira reportagem da série especial em alusão ao Dia Internacional da Mulher, celebrado na próxima quarta-feira (8), foca na presença de policiais do sexo feminino no posto da Polícia Rodoviária Federal em Livramento

Quem chega ou sai de Sant’Ana do Livramento pela BR 158 passa na Polícia Rodoviária Federal (PRF). Quando não há blitz, os servidores que estão no posto observam, de dentro do prédio de vidros fumês, o tráfego de veículos. Engana-se quem pensa que algum desses rostos possam não estar maquiados. Assim como no Instituto Geral de Perícias (IGP) e na Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), as mulheres têm, com o tempo, aumentado sua participação nas forças da segurança pública.
A canção “Exército de um Homem Só”, do músico gaúcho Humberto Gessinger, da banda Engenheiros do Havaí, carrega um título que, adaptado para um título como “Exército de uma Mulher Só”, poderia traduzir o início da trajetória da policial rodoviário federal Letícia Silva Paciello, de Sant’Ana do Livramento. “Entrei em 1994 e fui a primeira mulher a trabalhar em Sant’Ana do Livramento, na PRF, e esperei por longos dez anos pela entrada de mulheres, dessas colegas, desse corpo feminino aqui na região”, revela. Hoje, já são mais de 22 anos de atuação na 11ª Delegacia da PRF, que atende, além do município de Livramento, Rosário do Sul e também Bagé.
Esse “exército de uma mulher só” ganhou mais corpo com o passar dos anos. O sexo feminino passou a ocupar cada vez mais espaço na PRF. Para se ter uma ideia, atualmente, são três mulheres no posto de Livramento, além de duas no de Rosário do Sul e uma no de Bagé, além de outra na parte administrativa da 11ª Delegacia.
Nos dez anos como única mulher na região, Letícia não sofreu preconceitos, ou que pelo menos entendesse como tais: “Realmente, não tive problemas. Acredito que a mulher tomou esse espaço para si na segurança pública e em ‘n’ locais”, afirma.
A negativa de Letícia quanto a eventuais preconceitos é corroborada no discurso da policial Aline Machado Pinheiro, natural de Bagé (RS), que está há dois anos na Polícia Rodoviária Federal e desde janeiro no posto de Livramento: “Sobre o preconceito. Até se poderia pensar, inclusive, especialmente quanto às abordagens mais voltadas ao combate ao crime, que algum usuário poderia atribuir menor credibilidade ao trabalho feminino, e muito escutei isso desde que cheguei à Polícia, mas minha experiência pessoal diz que o que ocorre não é isso. A partir do momento em que ele observa uma postura também imperativa da policial feminina, a abordagem transcorre sem maiores marcas de preconceito”, enfatiza.
Aline sugere que as policiais mulheres têm papel crucial para afastar potencial preconceito social com o sexo feminino nessa área: “Mas isso depende muito da forma como nós mulheres assumimos esse papel que nos propomos dentro da segurança pública. Se, por um lado, desejamos que nos encarreguem das mesmas coisas (que os homens), a gente também tem que assumir o ônus que isso requer. Já, por outro lado, pensando no preconceito por parte dos colegas, vejo que ele é cada vez mais mitigado em tempos atuais, na medida em que se agrega maior credibilidade ao trabalho, ele mesmo fala por si”, pensa.
A policial rodoviário federal Jeanine Duarte Badra, natural de Livramento e desde 2012 na PRF, compartilha desse pensamento quanto à redução, na atualidade, de preconceitos com as mulheres: “Na realidade, infelizmente, ainda tem. A gente percebe que ainda pode ter. Mas cada vez menor e cada vez mais as pessoas se manifestando no sentido de ser satisfeitas, principalmente quando a usuária é mulher, sentindo-se mais identificada quando vê uma mulher”, indica.

Ocupaçãode espaço

É nítido, não apenas na área de segurança, que as mulheres ocupam cada vez mais espaços em diversas áreas de trabalho, muitas delas estratégicas, como a da própria Polícia. A parceria com o sexo masculino é louvada: “Acredito que tem espaço para homens e mulheres. Os dois são vitais para o desenvolvimento dessa profissão. Eu acredito na competência das minhas colegas e não vejo diferença da competência delas para a dos homens. É um complemento o homem e a mulher, na área da segurança pública”, diz Letícia Paciello.
O estereótipo de que a mulher cooperaria com sua sensibilidade frente à “dureza” e “frieza” do homem, não se traduz em regra absoluta, conforme Jeanine Badra: “Com certeza, os olhares são diferentes. Mas não quer dizer que um homem não tenha sensibilidade e uma mulher tenha sensibilidade, necessariamente. O homem pode perceber uma coisa que a mulher não percebeu ou ser mais amistoso no trato que uma mulher. A regra talvez seja essa, mas não é uma regra absoluta”, aponta.
Jeanine também celebra o trabalho em conjunto com os colegas homens: “O que é legal é que a gente possa trabalhar se complementando. O que um não percebeu, o outro percebeu. Isso é uma coisa que a Polícia Rodoviária Federal tem: a gente trabalha sempre em dupla, a gente não pode trabalhar sozinhos e isso é ótimo. A gente se conhece no olhar, na forma de proceder. Eu acho muito interessante de trabalhar com meus colegas homens”, salienta.

Por: Marcel Neves APLATEIA