SUL21: Ciente do problema há 20 anos, PM mantém arma que faz “disparos acidentais”

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Dezenas de vídeos publicados na página “Vítimas da Taurus” mostram que, em alguns modelos, não é preciso nem apertar o gatilho

Daniel Giovanaz Do Brasil de Fato

SUL21

A empresa gaúcha Taurus, fornecedora de armamentos para a polícia brasileira, tornou-se conhecida pelos defeitos de fabricação que há cerca de 20 anos provocam “disparos acidentais” em pistolas e submetralhadoras no país. Dezenas de vídeos compartilhados na internet através da página “Vítimas da Taurus” mostram que, em alguns modelos, não é preciso nem apertar o gatilho: basta um movimento brusco e a arma atira sozinha.

Segundo os organizadores da página, 108 policiais foram mutilados devido à má qualidade do armamento – não há estimativas sobre o número de civis mortos. O fundador da página, que reúne informações para a abertura de uma CPI para apurar os incidentes, também é uma vítima: o tenente Alexandre Castro, da PM de Goiás, foi atingido na perna direita em 2013 após sua arma cair no chão. “Infelizmente, não posso falar nada. Estou na tratativa de um acordo judicial [com a empresa] e uma das condições é a confidencialidade”, afirma Alexandre, que fez oito cirurgias e está afastado das ruas há quatro anos.

Monopólio

O Decreto R-105, assinado por FHC no ano 2000, afirma que a polícia e as Forças Armadas só podem utilizar armamentos fabricados no Brasil. Como a Taurus anexou as principais empresas concorrentes do setor nos últimos quinze anos, configurou-se um virtual monopólio.

A fabricante gaúcha informou em nota que, “desde que assumiu o controle da companhia, em meados de 2015, a nova gestão da Taurus iniciou um programa gratuito de revisão e manutenção, oferecido a todas as forças de segurança do País, inclusive do Paraná”. A nota enviada à reportagem do Brasil de Fato Paraná sustenta ainda que “a companhia abriu diálogo com grupos que representam pessoas afetadas por acidentes com armas de fogo para apoiá-las no que for possível”, e acrescenta que “todas as corporações policiais brasileiras são clientes da Taurus”.

Embora sejam parceiros comerciais da Taurus, quatro estados tomaram providências para evitar que o número de vítimas aumente. Rio de Janeiro, Distrito Federal e Mato Grosso do Sul abriram investigações para apurar problemas de fabricação nas armas. São Paulo suspendeu a compra de armamentos Taurus por dois anos para identificar as falhas.

O laudo produzido pela PM paulista apurou que 5.931 submetralhadoras Taurus, modelo SMT 40, tinham defeitos de fábrica. As investigações da PM do Rio de Janeiro constataram que, das 1.500 armas adquiridas, 1.321 precisavam de recall. Paraná, em 2014, 1.200 armas foram devolvidas para reparos.

Perito aponta negligência

O perito forense Roberto Meza Niella, que trabalhou na Argentina e no Equador, ressalta a gravidade dos problemas verificados nas forças de segurança brasileiras. “Na Argentina e no Equador, praticamente só se usa Glock, que é uma marca austríaca. E a questão não é se a arma é austríaca ou brasileira. A questão é que lá tem concorrência, então o policial vai usar a melhor arma disponível no mercado”.

Outro agravante, segundo Niella, é que as investigações baseadas na perícia balística raramente avançam no Brasil, em comparação com os países vizinhos: “Quando um policial mata alguém no Brasil, a primeira coisa que a polícia alega é que ele reagiu a um disparo anterior, ou que foi um disparo acidental. Se você não tem do outro lado um profissional que questione, investigue, o juiz ou promotor acaba ficando com a primeira versão”.

No dia 19 de fevereiro, em Curitiba, o lavador de carros Leonardo Henrique da Rocha Brandão, torcedor do Coritiba, morreu aos 17 anos nos arredores do estádio Couto Pereira. O disparo saiu da arma de um sargento que fazia a escolta da torcida até a Arena da Baixada, para assistir ao clássico contra o Atlético Paranaense. Segundo o comandante do 12º Batalhão da PM, Wagner Lucio dos Santos, o tiro foi acidental. A família desconfia da informação e aguarda a conclusão do Inquérito Policial Militar (IPM), prevista para o próximo dia 20 abril.

Paraná esboça mudança, mas não rompe com a Taurus

Há seis meses, a PM do Paraná se tornou a primeira do Brasil a comprar armas da Glock. No início de dezembro, a Secretaria de Segurança Pública adquiriu 865 pistolas, e no último dia 10 recebeu outras 160. Isso não significa um rompimento definitivo com a Taurus. Em agosto do ano passado, a PM solicitou um investimento de R$ 5.415.720,00 em pistolas Taurus 9mm para equipar policiais militares em formação.