Correio do Povo: Cães e cavalos prestam ajuda valiosa a forças de segurança do RS

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Animais e efetivos criam vínculos de afeto que permanecem por toda a vida | Foto: Guilherme Almeida

Animais ajudam em operações de Brigada Militar e Corpo de Bombeiros

Animais da segurança

“Busca!” Basta esse comando para que Thor, cão da raça labrador, saia em disparada entre os escombros de um dos prédios em ruínas às margens do Guaíba. Ele estava em um cenário comum de atuação daqueles que trabalham na área de resgate. Com o rabo balançando e a língua para fora, vasculhou o espaço com uma agilidade incomparável.

Atuante em uma profissão vista como uma das mais confiáveis do mundo, ele tem 4 anos e é um dos dez bombeiros caninos da Companhia Especial de Busca e Salvamento do terceiro pelotão do Grupo de Busca e Salvamento (GBS) do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul. A seção, que completou 15 anos de trabalho com os cães em junho, percorre os quatro cantos do Estado em busca de desaparecidos em matas, rios, soterrados por desmoronamentos ou cadáveres enterrados. Nenhuma tarefa é fácil, mas qualquer uma é encarada como brincadeira, já que, a cada acerto há uma recompensa, que nada mais é que uma bolinha de tênis.

Conforme o levantamento feito pela reportagem, o Rio Grande do Sul tem, atualmente, cerca de 400 cães em atuação na segurança pública – Bombeiros, Brigada Militar (BM), Polícia Civil (PC) e Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe). O número engloba também agentes que utilizam os próprios animais no trabalho. Além dos caninos, há outro componente de peso, os cavalos utilizados pela BM. Até o início do mês, o número girava em torno de 600. Todos considerados verdadeiros atletas pela frequência de treinos e jornada de trabalho. Os veterinários dizem que um cachorro pode atuar “profissionalmente” até um máximo de 15 anos e o cavalo de 20 a 25 anos, dependendo da função que exerce e do estado de saúde do animal.

Cães e seus trabalhos

Eles atuam no resgate, lado a lado com o bombeiro, porém com um faro várias vezes mais aguçado. Atento ao ambiente, segue a corrente de ar para chegar até a vítima debaixo do escombro, perdida em uma mata fechada ou já sem vida debaixo da terra. O cão pode ser agressivo, para evitar a fuga de detentos ou para auxiliar o policial em uma abordagem. Ao mesmo tempo, pode ser brincalhão, para interagir com crianças e famílias em apresentações especiais. Eles conseguem farejar entorpecentes em automóveis, residências, ambientes abertos ou fechados. Além disso, há os que sentem de longe a presença de pólvora de munições e explosivos.

Koda, um australian cattle dog de quase 5 anos, atua no Núcleo de Operações com Cães (NOC) do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc). É dócil e atento, mas bravo durante as buscas. Quando seu responsável, inspetor André Vizeu, o retira do box para os treinamentos, é aquela festa. Depois de muitos afagos, com os olhos atentos, o rabo balançando, o animal procura o alvo. No caso, munição, já que ele atua na detecção de artefato explosivo. Ao encontrar, ocorre mais festa entre condutor e cão, sem esquecer da bolinha, mimo pelo acerto.

Integrante do canil do GBS, o sargento Julenir Cardoso Duarte explica que os bombeiros sempre procuram cães dóceis e brincalhões. Para salvar vidas eles não podem ter nenhuma agressividade. A maioria é da raça labrador. “É o melhor cão para trabalhar. Ele já vem pronto, tu só moldas, porque raramente tem desvio de conduta, é dócil. Tem o retriever, que é o vai e volta, com isso não se afasta do dono. O que é importante em caso de mata ou campo.” De acordo com Duarte, a raça tem faro aguçado, além de não ser tão grande – cão de Bombeiros tem cerca de 30 quilos. “Isso é bem relevante porque muitas vezes precisamos descer de rapel em algumas áreas de difícil acesso, além disso pode acontecer dele se machucar e nós termos que carregá-lo até a viatura. Ele trabalha em mata, escombro e água, sem contar que está sempre motivado.”

Atuando com Duarte, o soldado Tiago da Rosa Ferreira reitera um detalhe importante. Entre os principais empregos do animal está a busca de pessoas perdidas. “Se tu estás há uma semana longe de casa, debilitado e um cão te encontra, preferes que seja um pastor alemão ou um labrador? Certamente o segundo. Tu vais ficar com vontade de abraçá-lo e, certamente, o cachorro adorará esse carinho.” No treinamento, quando o cachorro localiza o alvo da busca, ele late. “Se um pastor está parado, com a boca a poucos centímetros de ti, existe até risco de infarto, tendo em vista todas as dificuldades que a pessoa enfrentou enquanto estava só. Então, o labrador é a raça ideal para esse tipo de situação.”

Para atuar em presídios, como os cachorros da Susepe, o perfil é outro. Eles são considerados um apoio ao servidor, já que chamam a atenção dos agentes penitenciários para movimentações anormais. São cerca de 300 no Estado. Nesse caso, o animal deve ser forte e é utilizado como apoio aos trabalhos internos de revista e inspeção nas galerias das casas prisionais e, na maioria das vezes, como apoio nas redes externas aos presídios para barrar tentativas de fuga.

Atuante no canil da Cadeia Pública de Porto Alegre (antigo Presídio Central), o soldado da Brigada Militar Nodier de Oliveira Machado reforça a diferença de temperamento entre os cães. “Eles precisam ter mais agressividade, ser territorialistas, porque são empregados para evitar fugas. Aqui, ficam em redes externas e internas, assim como em cima da estrutura, fazendo o monitoramento.”
Nodier explica que há pouco contato desses cachorros com humanos. “O foco é proteção, então acabam vivendo como no passado, em matilha. Não são amigos e parceiros. Apenas os alimentamos e os medicamos quando necessário.” Entre as raças utilizadas para esse tipo de serviço estão rottweiler, pastor alemão, pastor malinois e pitbull. Mas nem todos são assim. Há os que têm parceria com os policiais e são usados em apresentações, festas de fim de ano e competições pelo país. Hoje, 83 animais são mantidos no estabelecimento.

No Canil do 1º Batalhão de Operações Especiais (BOE), o comandante da unidade, primeiro sargento Evaldo Dornelles da Silva, diz que os cães são formados para serem de patrulha. Atuam em praças, parques e apresentações. “Todo cachorro de patrulha morde, mas também é dócil e atua em demonstrações. Crianças podem tocar neles sem problema nenhum”, garante. Tanto que, sempre que há algum desses eventos, o sucesso é garantido. Recentemente começaram a ser utilizados no Patrulhamento Motorizado. O sargento Gilberto Gonzalez conta que o canil recebeu duas caminhonetes para essa finalidade. “Faremos o patrulhamento ostensivo com o animal. Ele é mais um integrante da guarnição.”

O comandante lembra que a presença do cão provoca impacto psicológico. “Ele faz a segurança do policial militar durante a abordagem. Está ao seu lado para qualquer situação adversa. Além dessa parte, todo mundo é simpático ao cão e aproxima a sociedade dos militares.” O patrulhamento já está em andamento. Só não ocorre quando há missões específicas que a equipe é demandada. Semanalmente, por exemplo, os agentes se deslocam até a Estação Rodoviária para fiscalização em ônibus interestaduais. O dia nunca é revelado.

Treinamento

Cães dos bombeiros precisam ter faro aguçado e não podem ser muito grandes. Foto: Guilherme Almeida

“Não adestramos cães, formamos guerreiros.” A frase está pintada na parede do canil da Cadeia Pública de Porto Alegre e resume o trabalho feito pelos agentes que atuam com os cachorros. Independentemente da instituição, quando o cinófilo se aproxima dos boxes em que os animais ficam alojados é aquela festa. Não são apenas latidos, são apelos por brincadeira, carinho e atividade.

Quando Vizeu e o colega, inspetor André Travassos, dão alguns passos em direção ao canil, para retirar os animais, é impossível não prestar atenção no olhar atento e cauda agitada. E os saltos? “Para filho, calma”, diz Vizeu, enquanto tentar retirar Sherlock, de 5 anos, para iniciar os trabalhos.

O treinamento é intenso e encarado como uma brincadeira alegre e satisfatória. Travassos explica que boa parte da prática é feita no próprio Denarc, sempre com a simulação de cenários que podem ser encontrados no dia a dia de trabalho. A cada acerto, amor, recompensa e, claro, bolinha para cá e para lá.

Para o faro de drogas, os cães associam odores com indicação ativa e premiação direta. “Ele raspa no local em que o entorpecente está. Late ou tenta morder, como se tivesse caçando, e recebe a recompensa”, detalha Vizeu. Existe a forma passiva, quando o animal encontra, senta e não toca o objeto. Apenas olha e indica com o focinho. Consequentemente, por detectar esse tipo de material, criou habilidade em localizar a espoleta e a pólvora, que estão dentro do cartucho.

Assim como na Polícia Civil, Bombeiros, Susepe e Brigada Militar, o treinamento é fundamental para um cão profissional. Mas Julenir frisa que nem todo agente da segurança pública pode ser condutor. “Gostar de cão é uma coisa, para trabalhar é preciso ter algo a mais.” É um trabalho difícil, exige muito. “No nosso caso, temos escala de serviço 24 por 72 ou por 48 horas. Se treinarmos apenas nesses períodos vai demorar para formação. Muitas vezes sacrificamos folga para vir ao quartel”, diz.

De acordo com ele, cão que trabalha é diferente do pet. “Em nossas casas, basta darmos comida, ração, termos cuidado e brincarmos. Os nossos são ferramentas de trabalho, mas não funcionam como nas demais seções, nas quais os colegas colocam os equipamentos nas viaturas e barcos e permanecem ali. Basta usar. Nossa ferramenta é um ser vivo.”

Vizeu diz que tem dias que o animal não está bem. Como os humanos, adoece, cansa e não sente vontade de treinar. Neste momento, Travassos lembra que é fundamental ter consciências dessas características. Ele destaca que é necessário determinação e atenção para que o cão dê o seu melhor. “Não existe nada pior para o condutor que um deles passe por cima da droga e depois um dos nossos colegas encontre. Esse é nosso pior feedback. Nesses oito anos de atuação nunca aconteceu essa situação.”

Durante o trabalho, cão e condutor precisam estar em sintonia. A situação precisa ser sentida pelos dois, a responsabilidade é na dupla. “Muitas vezes as pessoas estão desistindo e tu vês que ele altera comportamento. Tu precisas te concentrar, focar e respirar com ele. Ouvir junto com o cão. É como se estivesse farejando também”, acrescenta Vizeu.

No Canil do 1º BOE, o comandante diz que os treinamentos são diários. “Treinamos mordida, faro, show dog e o emprego no policiamento. Os condutores têm diversos cursos e são especialistas na área.” Assim como nas outras instituições, cada adestrador tem seu cão. “Quando o animal chega, ele vem para ser cão de patrulha. Vai trabalhar no policiamento, estádio de futebol, em reintegração de posse e revistas em presídios. Alguns têm aptidão para faro de entorpecente ou explosivos.”

O cão de faro

Treinamento é fundamental para cães que atuam na área da segurança. Foto: Guilherme Almeida

Existem pessoas que não concordam com o uso de animais em trabalhos policiais, principalmente na busca de entorpecentes, pois acreditam que os cães se tornam viciados. Na visão de Travassos, isso é mito. O condutor diz que seria impossível o cachorro, com o potencial olfativo que tem, se em contato com cocaína, sobreviver.

“Nós condicionamos um animal a um odor, estímulo positivo, e uma brincadeira.”
O inspetor detalha que na indicação ativa ele pede a bolinha, que é o brinquedo. “Assim como o Koda, na indicação passiva, aponta a presença de explosivos e armamento. Ele faz esse apelo porque foi condicionado a uma fotografia positiva. O momento é de felicidade”, diz.

De acordo com ele, outro ponto que algumas vezes é alvo de críticas é o chamado confinamento. “Isso é necessário porque quando o animal sai do box é o momento mais importante para ele. Se eu deixá-lo no pátio, com todo espaço do mundo, não terá essa mesma euforia. Eles saem para treinar e trabalhar. Não existe crueldade, mas limites, como damos para os filhos.”

Vizeu diz que, se o animal fosse viciado, sua a vida útil seria muito curta, assim como é entre os humanos, com raras exceções. “Se fizéssemos isso com o cão, quanto tempo ele trabalharia? Um, dois anos, e perderia as glândulas olfativas e não seria mais útil ao serviço”, ressalta. Quando o assunto é confinamento, afirma que os animais têm espaço adequado, conforme o tamanho e o momento em que vivem. “O importante é que ele não pode ficar em gaiola, sem condições de higiene dignas para um cão. Eles não passam fome, não teriam nem energia para trabalhar.”

Amizade e lealdade

Os olhos marejados refletem o significado que os cães têm nas vidas de Vizeu e Travassos. As palavras tentam fugir e a melhor resposta parece não aparecer. Depois de se entreolharem, chegam a uma conclusão: é difícil de falar. Os inspetores retomam a história. Relembram dos cães aposentados. Dos mais de 110 mil quilômetros feitos com os agentes caninos. “Temos dois labradores filhotes e, em quase um ano de trabalho, já temos 10 mil quilômetros feitos Estado afora”, enumera Vizeu, que atua no único canil institucionalizado da Polícia Civil gaúcha.

Ele também lembra as dificuldades compartilhadas com os animais em dias de operação. “Já andamos muito na chuva, no frio e em situações que estávamos em missão e não aceitavam cães para dormir. Nós, então, dissemos que se não aceitam, a gente fica na viatura com eles”, conta. Travassos acrescenta que, logo no início dos trabalhos no Denarc, ele e Vizeu carregaram os agentes caninos nos braços, escondidos no hotel. “Nunca souberam, ficarão sabendo pela reportagem. Entramos pelos fundos e com eles no colo. Falar dessa relação é falar de um irmão. O muito e pouco que se tem, devemos a eles, que são resultado da técnica, porém o retorno que nos dão é maior do que ela, dão lealdade. Tudo o que eles fazem é uma brincadeira para eles. Fazem pelo condutor.”

Vizeu costuma dizer que o policial que está disposto a lidar com os cachorros precisa se igualar a eles para entendê-los, já que são irracionais e trabalham por instinto. A maior dificuldade de todo o processo é separar a ferramenta e o sentimento. “Sempre falo: dê na minha cara, mas não toca no meu cachorro. Quando eu tiro ele do box, tudo é minha responsabilidade.” Ele conta que já houve situações que traficantes tentaram investir contra o animal após a localização do entorpecente. “As pessoas já passaram pelo local, quem cometeu o delito está certo da impunidade e nós, que somos o complemento do trabalho investigativo, chegamos com os cães onde os olhos humanos não alcançam.”

Amizade, confiança e parceria. Essas são três palavras que poderiam resumir a relação dos inspetores, porém não seriam suficientes. Vizeu afirma que o cão é toda sua vida profissional, ou seja, 22 anos.

“O que mais me liga a eles é que estão sempre do teu lado, é amor incondicional. Quando saímos e ele fica ao nosso lado, não é pela melhor viatura da Polícia Civil ou melhor box para dormir, é porque ele é meu amigo, trabalha para mim. Eu sou a família dele.” Toda essa proximidade faz com que haja uma relação íntima, que somente o cachorro e o treinador conseguem sentir. “Tu acaba conhecendo o jeito que ele respira, o odor que ele tem, de longe tu escuta o latido e reconhece o teu amigo. E ele te reconhece.”

Considerados os colegas mais próximos, ele afirma que vive mais próximo dos agentes caninos do que os humanos. “O cão, na minha vida, é quase tudo. A resposta em lealdade e amizade que eles nos dão vai muito além das questões de raça, gênero ou qualquer outra coisa que há entre os humanos. Eles são leais independentemente de qualquer coisa. São leais porque eles gostam de ti”, afirma Vizeu.

De férias com o cão

Koda atua com Vizeu no Núcleo de Operações com Cães. Foto: Guilherme Almeida

A relação de amizade e respeito entre animais e humanos existe em todas as instituições. Até porque para trabalhar com cães é preciso ter um algo a mais, não basta apenas gostar de animais, é preciso ter um olhar aguçado e um coração aberto para entender o outro ser vivo.

O cachorro, segundo o comandante do Canil Central do 1º BOE, Dornelles, é um amigo, fiel escudeiro, que está sempre à disposição para o que der e vier. Para proteger o agente, para brincar com ele ou para um simples afago. “Aqui o colega tira férias e o leva para casa. Ninguém gosta de deixar o cão para trás, todo mundo tem ciúme e não gosta de emprestar o cão”, conta o comandante.

O sargento Gilberto Gonzalez abriu um sorriso com a fala do comandante. Ele sabe bem o que é isso. Ele cria o Ares, que hoje tem 1 ano e 4 meses, com muito zelo e disciplina. Mesmo com a pouca idade, está sempre com as orelhas em pé, atento aos comandos do condutor. “Crio ele desde filhotinho. A gente tem um carinho especial por eles, não tem como ser diferente. Somos nós que cuidamos do canil, limpamos os box, treinamos e trabalhamos”, afirma o sargento.

Uma das poucas mulheres no batalhão, a soldado Iasmin Marques Zen, é jovem, mas demonstra habilidade ao comandar Kira, uma pastora de 4 anos, dócil, obediente e atenta. “Ela é um amor. Quando posso levo ela para casa. Né, filha?”, diz, dirigindo-se à cadela, enquanto distribui um carinho na pelagem reluzente da policial canina. Os soldados Dim Anders Severo Soares, junto com o Eros, de 3 anos, e Tarcísio Brito, ao lado do Barão, 2 anos e 2 meses, também mostram a importância do bom relacionamento com o animal.

Treinador experiente na Cadeia Pública de Porto Alegre, soldado da Brigada Militar, Nodier de Oliveira Machado, afirma que a relação entre o cachorro e o homem no trabalho é um binômio. Ele se torna mais um integrante da equipe de trabalho. O cão pra mim não é um animal simplesmente, mas um irmão, amigo, colega, pois ele acaba convivendo diariamente com minha família e nas minhas atividades pessoais”, afirma o soldado. Sem contar que o agente canino, por sua atuação e presença, equivale a mais de dez colegas em situação de controle de tumulto.

Para salvar mais pessoas

Salvar pessoas não é tarefa fácil, mas os cães do Grupo de Busca e Salvamento (GBS) tem faro treinado e físico preparado para enfrentar todos os tipos de terrenos. Os agentes que convivem com os cães salientam as dificuldades enfrentadas. O soldado Tiago da Rosa Ferreira, por exemplo, lembra que os bombeiros são chamados em ocorrências pesadas e desgastantes.

“Esse cão batalhou contigo durante toda a vida. É difícil. Só somos acionados quando não dá mais, quando ninguém mais sabe o que fazer, quando não tem quem chegue em determinado ponto. Então tu és chamado. E tu não vais sozinho, vais com teu cachorro. É só ocorrência ruim, em todo Estado.”

A maioria dos animais vive essa rotina desde muito cedo. O vínculo com o condutor é formado a cada orientação e comando ensinado. A busca por homens, mulheres, jovens e crianças é uma das ocorrências mais comuns.

“Felizmente encontramos mais pessoas vivas do que mortas”, frisa o sargento Julenir Cardoso Duarte. De acordo com ele, normalmente são situações de busca em mata. “Nos acionam quando a família já procurou, a vizinhança também. Aí chamam a polícia, o bombeiro da área. Quando percebem que nada foi localizado e a tensão toma conta, nos chamam. Geralmente é assim.”

De acordo com ele, atualmente existe um trabalho conjunto com a Polícia Civil muito forte. Principalmente com as Delegacias de Polícia de Homicídios e Proteção à Pessoa, na busca de cadáveres. “Teve uma diminuição na demanda após os cursos que realizamos. Como há canis espalhados em pontos do Estado, algumas são atendidas pelos agentes das respectivas regiões”, pontua o sargento.

Imponência e visibilidade
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Para um cavalo atuar na Brigada Militar é preciso treinamento, dedicação, boa alimentação e acompanhamento veterinário. No 4º Regimento de Polícia Montada (4º RPMon) da Brigada Militar, o trabalho é diário. Os 105 animais mantidos na unidade são cuidados com zelo e carinho pela equipe de técnicos e pelos brigadianos que, diariamente, os utilizam nas ruas, praças, parques e eventos.

O comandante do primeiro esquadrão do 4º RPMon e também do Pelotão de Operações Especiais (POE) da cavalaria, capitão Rodrigo dos Santos Arnaldo de Alencar, diz que, em uma ofensiva, a tropa montada só anda para frente. Não volta. Por isso a eficiência do estilo de policiamento. Para que isso seja possível, na sede do Regimento Bento Gonçalves, na Coronel Aparício Borges, em Porto Alegre, há pistas de treinamento que simulam o terreno das ruas.

“A pista de treinamento a cavalo da Polícia Militar tem todos obstáculos de aclives e declives que são vistos na rua. A nossa arma no trabalho é a espada. Em ações de controle de tumulto, intervenções, o policial vai ter que sacar a espada e tomar atitude”, destaca, enquanto explica a importância de durante o trajeto na pista desferir golpes nos pneus. “Além deles, tem a cortina, trabalhamos em eventos com fogos de artifício e fumaça, o cavalo precisa transpor o medo, então o habituamos aqui.”

Entre as atribuições da cavalaria, o capitão explica que está a de causar impacto. Em jogos de futebol, eventos em praças e shows é visível a presença da BM montada de longe. “O público percebe que a segurança pública está no lugar, além disso o cavalo é algo menos lesivo em caso de intervenção, por isso é tão usado. Porque ao invés de jogar uma granada ou gás de pimenta na multidão, o que pode causar correria, com a tropa bem preparada a gente consegue dissipar.”

Cuidado com os animais
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Alguns veterinários e parte da comunidade não concorda com a utilização de cavalos no policiamento, assim como no caso dos cães, devido aos riscos que o animal corre. O comandante salienta que há uma equipe veterinária que cuida da formação sanitária do quartel e também atua em caso de lesão nos equinos.

De acordo com ele, são os integrantes que recebem o melhor tratamento. “Todos trabalham diariamente com ele, cada policial tem o seu e todos os militares são apaixonados pelos seus animais.”

Segundo o comandante, os brigadianos cuidam de perto do seu cavalo, verificam se eles têm alimento e os preparam para sair à rua. Na volta, fazem a conferência e dão banho no animal antes de recolhê-lo. “O vínculo é muito grande. Certamente esse preconceito em relação ao uso dos animais não faz sentido. Nós sabemos que damos o melhor tratamento para eles.”

Além do zelo, quando são empregados em alguma ofensiva, ou mesmo em ações pontuais, eles também saem com fardamentos específicos. “Para controle de distúrbios, por exemplo, eles usam um peitoral mais largo, para ele ficar protegido de possíveis pedradas, além disso têm o protetor de chanfro para o olho, além de capacete e proteção para a perna do policial”, conta.

Os animais são vacinados e avaliados constantemente. Quando recebem alguma dose ou têm alguma lesão ficam indisponíveis para serviço e só retornam às ruas após o aval do profissional responsável. Além dos profissionais da Brigada Militar, sempre que é necessário algum procedimento cirúrgico há apoio externo, como da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e também da Hípica.

Brasileiro de hipismo

Quando égua se aposentar, Naimayer pretende ficar com ela. Foto: Guilherme Almeida

Raça nacional, com característica ágil, dócil e de grande porte. Esses são os cavalos da raça Brasileiro de Hipismo, utilizados no regimento e gerados pela Coudelaria da Brigada Militar em Santa Maria.

A produção de equino, de raça nacional, garante uniformidade nos animais e o treinamento adequado com redução de custos. Conforme o capitão, eles são domados no quartel e, posteriormente, encaminhados aos demais quartéis. “Eles chegam aqui prontos para o serviço. Quando desembarcam no regimento temos uma equipe os recebe, normalmente vêm de 10 a 12 cavalos”, diz.

Eles são treinados e testados por cerca de dez dias, antes de serem colocados à disposição da tropa. De acordo com o comandante, o tempo de trabalho é de 25 anos. Depois, podem ser adotados pelo policial que o montou ou, na maioria dos casos, são encaminhados de volta para a coudelaria. Lá, são soltos no campo.

Relação de afeto

Alguns afirmam que a relação entre cavalo e policial é ainda mais próxima que entre homem e cão. O sargento Luiz Fernando dos Santos Naimayer tem identificação com o cavalo desde pequeno, quando tinha 7 anos. “Meu pai era militar. Atuou aqui no 4º RPMon e eu vinha no regimento desde pequeno. Eu tenho 48, faz 41 anos que lido com cavalos e monto”, conta.

Antes de ser policial militar, com 13 anos, se mudou para Santa Catarina. Lá trabalhou com os equinos e bovinos. Era tão apaixonado que com 16 se tornou capataz de uma fazenda.

Porém, houve concurso para a Brigada Militar no Rio Grande do Sul e ele, seguindo o exemplo do pai, resolveu se inscrever. Estudou e passou. Quando ingressou, em 1990, começou a trabalhar com o que mais amava. “Em toda minha vida os animais estiveram comigo, ao meu lado. Cavalo é tudo para mim”, fala, com olhos marejados, o sargento nascido em Cambará do Sul. Ele, que pratica hipismo e já ganhou diversas competições, faz dupla com Senhorita. Uma égua preta, imponente e, como Naimayer mesmo diz, muito espoleta.

“O pessoal normalmente não monta muitos nos meus cavalos porque eu gosto daqueles que tenham essas características. Ela é muito rápida e corajosa. Temos essa relação próxima.” O sargento já perdeu alguns animais. “As perdas foram as situações mais tristes que enfrentei. A coisa mais bonita que vi foi quando consegui salvar uma égua prenha, que caiu em um dos valões do regimento. Conseguimos salvar o potrinho e a mãe, depois uma madrugada de trabalho”, afirma, com um sorriso largo, o sargento, que já fez três semestres do curso de veterinária e tem pretensões de, um dia, conclui-lo.

Quando Senhorita, hoje com 5 anos, se aposentar, ele pretende permanecer com ela. “Tenho vontade, mas vamos ver, ela tem uma longa jornada ainda. A gente passa a vida toda trabalhando com o animal, o vínculo é muito forte e seria muito bom tê-la comigo. Muitos não entendem, mas o cavalo sente tudo e nós passamos para o animal o sentimento que temos, seja de medo ou coragem.”

Nas ruas, por onde andam os cavalos chamam a atenção. Por serem dóceis e adorarem carinhos, muitas vezes posam para fotos e afagos. A empresária Maria Cléria Medeiros, 41 anos, precisou parar para a filha de 7 anos passar a mão no animal. “Ele é muito lindo, mas moro em apartamento e minha mãe disse que não podemos ter um lá”, lamenta Ana Júlia Medeiros. De acordo com Maria, a filha pretende praticar hipismo.

A Lei Nanquim

Sancionada pelo Executivo no início do ano, a Lei Nanquim permite que, em vez de leiloados, cães e cavalos que atuaram no policiamento ou em outras atividades públicas possam ser adotados por entidades de proteção animal e pessoas físicas. Antes dela não havia regulamentação sobre a destinação dos equinos e caninos de posse do Estado.

A Nanquim é uma homenagem ao cavalo que acompanhou por cinco anos a ex-policial militar Kelly Thimoteo em atividades profissionais. O animal, que pertencia ao Rio Grande do Sul, estava para ser leiloado quando a ex-companheira tentou adotá-lo. Companheiro de patrulha, ela tentou conseguir a tutela do animal desde que saiu da Brigada Militar, mas muitos dos requerimentos não foram respondidos. Depois do caso ganhar repercussão e apoio de ex-colegas, políticos e boa parte da comunidade, a Lei Nanquim foi criada.

A aposentadoria

Quem entra no Canil Central do BOE logo avista a frase: “E, se nada der certo, meu cão sempre me apoiará”. E funciona dessa maneira. Os cachorros da segurança pública são bem cuidados, recebem amor e carinho, mas possuem rotina de atleta. Devido a essas exigências, também se aposentam mais cedo.
Quando a pelagem vai perdendo o vigor, a agilidade já não é a mesma e o nariz já não tem a mesma sensibilidade, é chegada a hora de descansar e encerrar as atividades profissionais.

A maioria fica com o último condutor ou, dependendo do caso, pode ir para a adoção. “Ele passa uma jornada contigo. Enfrenta mau tempo, barulho, ocorrências de todos os tipos e níveis de dificuldade. Esse tempo que falo é de década, desde que nasceu. Então, quando chega a hora, levamos para nossa casa, para o merecido descanso”, diz Julenir.

O sargento conta que já perdeu um cão durante treinamento, quando acabou atropelado por um caminhão. Ao contar a história, se emociona. “Foi muito triste. Fazemos buscas urbanas também e estávamos em um dia de atividade, quando houve o acidente.”

Zeus atuou durante anos com o Luck, primeiro cachorro que trabalhou no resgate no Rio Grande do Sul. O pioneiro trabalhou por 13 anos ao lado do sargento Gérson Meireles dos Santos. Depois de localizar pessoas desaparecidas e corpos, foi aposentado no dia 2 de julho de 2016, no Dia do Bombeiro. Dócil, foi utilizado também no trabalho feito pelos militares no Hospital da Brigada Militar em Porto Alegre, na chamada cinoterapia.

“Os animais ajudam na recuperação de pacientes, o Luck fazia isso, pelo seu comportamento extremamente manso. Alguns canis nossos ainda fazem esse trabalho. Nós pretendemos retomá-lo.” O bombeiro canino faleceu há dois anos. “Ele foi exceção. O primeiro e excepcional cão. Era muito profissional, aprendia rápido. Com essa idade ainda estava perfeito.”

Nodier também tem histórias. “Teve um cão que se tornou parceiro nas atividades, o Lobo. Ele sabia diferenciar os detentos e executar as atividades com clareza. Morreu neste ano, depois de muita parceria e amizade. Sofri muito quando a hora dele chegou”, lamenta. “O Lobo era um pastor alemão. Sinto muita falta dele. Hoje, para suprir essa lacuna, tenho o Duque. Outro pastor alemão, que já ganhou o espaço dele, com 3 anos e meio, e está se tornando o líder da matilha.”

A aposentadoria também chegou para cães da Polícia Civil. Travassos está com Califa, o cão farejador da raça pastor belga malinois, e Vizeu, com Dana, uma labradora. Ambos tiveram a aposentadoria anunciada ano passado, quando ela tinha nove e ele oito anos.

Dana vive confortavelmente com Vizeu. Enquanto observa a cadela, o inspetor diz que ela mudou a sua vida. “Um animal querido, sempre disposto, que mesmo depois de velho atuava em qualquer situação, busca real, demonstrações, cursos, ela sempre estava ali, ficou, de certa forma famosa na nossa Polícia Civil devido ao grande número de apoios”, detalha.

Segundo ele, a parte ruim de ter um cachorro é se apegar. A idade vem e, no caso deles, ficam velhos antes do que seu proprietário. “Isso é difícil, mas é a natureza. Tu vê a tua parceria ficando mais lenta, cansando mais rápido e tu pensas, está chegando a hora dela.”

Mas surgem novos amigos, como Sherlock e Bud. A partir de então, começa um novo ciclo e o sentimento volta a surgir. “Para mim a Dana é insubstituível, assim como os de hoje serão, o que acontece é que temos que aproveitar, aceitar o que cada animal tem para te dar, abrir o coração e permitir ao cão entrar, pois é lá que ele quer estar.”