Conheça a história de uma das raras salva-vidas mulheres do Estado

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Policial militar há 12 anos, a soldado Roberta atua há 10 como salva-vidas Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS
Policial militar há 12 anos, a soldado Roberta atua há 10 como salva-vidas
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Roberta Giacomini Caumo é a protagonista da terceira reportagem sobre personagens da beira-mar

por Carlos André Moreira

De tarde nos dias ímpares e pela manhã nos dias pares, a soldado da Brigada Militar Roberta Giacomini Caumo, 33 anos, passa quantidades industriais de protetor solar sobre a pele muito clara, herdada de antepassados italianos dos dois lados da família, prende o cabelo loiro em única trança firme, descendo pelo centro da nuca, coloca os óculos escuros para proteger os olhos azuis da luz intensa do sol litorâneo e pedala durante breves 10 minutos até a guarita número 130 de Imbé, no Litoral Norte, para assumir seu posto no interior da casinhola piramidal de nove metros quadrados que serve de base para ela e seu colega de turno. Se estiverem assumindo a escala da manhã, é bem possível que ambos precisem pedir emprestadas pás nos quiosques vizinhos para retocar o monte de areia à frente da guarita, que apara a queda durante um salto de emergência e que costuma estar bem menor na parte da manhã após virar o playground da criançada quando a guarita fecha e a bandeira é retirada.

Enquanto os praianos daquele trecho da orla abrem suas cadeiras de praia, estendem suas cangas e abrem livros ou revistas para aproveitar o ritmo preguiçoso do veraneio, Roberta e seu companheiro de guarita, normalmente o soldado Faria, estão perscrutando o ambiente, redobrando a atenção a cada banhista que se atira na água. Enquanto aquele seu tio de férias está mergulhado no best-seller da ocasião, o que os salva-vidas no topo da guarita estão lendo são os comportamentos dos banhistas.

– Se alguém se afasta demais, já ficamos observando. Se estamos vendo que o nadador está entrando demais no mar, a gente chama de volta, adverte com apito – comenta Roberta.

Policial militar há 12 anos, a soldado Roberta atua há 10 como salva-vidas — estreou em Nova Tramandaí, depois passou seis anos no Imbé, esteve em 2014 em Xangri-lá e voltou para Imbé em 2015. Apesar da responsabilidade inerente ao serviço, ela considera o período que passa todos os anos à beira-mar, de pés descalços na areia, trabalhando de camiseta e biquíni, um bem-vindo e refrescante intervalo das atividades que realiza no resto do ano, vestindo a farda de sarja tornada ainda mais quente devido ao colete à prova de balas:

– Eu conheci o mar até um pouco tarde, aos 15 anos, embora nadasse desde cedo. Mas me apaixonei. Por isso, trabalhar aqui é sempre maravilhoso.

Roberta nasceu em Constantina, município com pouco menos de 10 mil habitantes, na região das Missões. Aprendeu a nadar em piscina, ensinada pelos numerosos primos de uma família grande. Viu o mar pela primeira vez em Santa Catarina, em uma excursão de férias. Mudou-se para Passo Fundo para cursar a faculdade de Secretariado Executivo Bilíngue, inglês e espanhol. Concluiu o curso, mas não chegou a seguir carreira. Aos 21 anos, um exemplo vindo de casa falou mais alto e ela se inscreveu em um concurso da Brigada Militar. O “culpado” pela guinada estava na família o tempo todo.

– Um tio meu, que hoje é major, na época era capitão, e eu sempre me espelhava nele, sempre gostei de caça, de pesca, achava o máximo o tio fardado… A minha mãe brinca comigo: “Minha filha, tu te formou em secretariado, era para trabalhar de salto alto, terninho, e hoje está de farda e coturno”.

Depois de se engajar na BM, Roberta também se formou em Direito na Unisinos, mas o terno continua fora dos planos. Embora a nova formação tenha sido homenageada na pele, em uma tatuagem da balança da Justiça no ombro esquerdo, Roberta não tem planos de advogar, e sim de algum dia prestar concurso para oficial.

Ela também é uma das raras salva-vidas em atuação na Operação Golfinho – são 12 militares e uma civil, o que representa 1,5% do efetivo. Um ambiente com tal predominância masculina de algum modo parece hostil ou desagradável para uma mulher?

– Cheguei a pensar se haveria algum preconceito, de que uma mulher não conseguiria nadar com a mesma velocidade, ou com a mesma força. Na prática, nunca passei por nenhum problema. O treinamento é o mesmo para homens e mulheres, e a atmosfera é de disciplina, camaradagem e respeito.

Nadando sempre de olho no outro

Ao fim da temporada de verão, Roberta retoma suas atividades no policiamento ostensivo do Batalhão de Operações Especiais de Canoas, mas não abandona a água e mantém a rotina de nadar duas, às vezes três vezes por semana. Também corre e treina com o time feminino da Brigada Militar — a equipe que já representou a corporação em campeonatos internacionais como o anual Wispa, sigla para WorldWide Indoor Soccer Police Association (ou Associação Mundial de Futebol de Salão da Polícia). Roberta disputou com a equipe da BM o torneio de 2010, realizado em Wavre, na Bélgica.

Para além do futebol, nadar fora da temporada é mesmo o que a policial faz para relaxar, impregnada não do sal marinho, e sim do cloro das piscinas. É nessas horas que ela pode aproveitar a especificidade quase zen dos exercícios aquáticos, um gasto de energia que leva o corpo e a mente a um estado de lassa satisfação. Porque no verão, meu camarada, nadar na praia como salva-vidas exige outro tipo de mentalidade. Nada de zerar a consciência. Nadar em direção a alguém em perigo exige um comprometimento tão forte com o aqui e o agora que é, a seu modo, também uma atitude zen, mas pelo avesso.

– A gente chama de “nado de aproximação”, tem de nadar rápido até a pessoa que precisa de ajuda, sem tirar nunca os olhos dela e, ao chegar perto, conversar para tentar acalmá-la e impedir que entre em pânico. A diferença entre nadar na piscina para exercício e no mar como salva-vidas é que na piscina você nada por você mesmo, pode nadar forte, concentrada em você. No mar, está sempre com o outro em mente – compara.

Esse outro, muitas vezes de modo muito compreensível, só tem uma coisa em mente: agarrar-se a qualquer coisa que signifique uma esperança de permanecer à tona, e não são poucos os casos de afogados que arrastam seus salvadores para o fundo. Por isso, antes mesmo de se aproximar do alvo, os salva-vidas já estendem para ele o rescue can, aquele artefato em formato de torpedo, feito de polietileno, cor padrão laranja, que você aí já deve ter visto nas mãos da Pamela Anderson naquela série Baywatch. O flutuador é passado para que o resgatado tenha em que se apoiar, depois a vítima é pescada com o salva-vidas passando o braço pelas axilas do socorrido, apoiando com seu corpo o corpo do outro e rumando para a areia nadando meio de lado, no “nado de reboque” ou “nado lateralizado”. Ninguém precisa salvar ninguém sozinho, também, uma vez que outros salva-vidas dos arredores, vendo a movimentação de um dos seus, se lançam em apoio.

– A gente não fica atento só à faixa imediatamente à nossa frente, precisa ficar atento também a se algum colega dá o sinal de que vai entrar na água. Quando isso acontece, você vai em um primeiro momento às cegas, sem saber quantos são, que tipo de emergência é.

A situação real de emergência muitas vezes desafia qualquer treinamento teórico, como aconteceu em 2014, quando Roberta estava em Xangri-lá e efetuou aquele que define como o salvamento mais árduo de que já participou (e ela se diz feliz por nunca haver perdido nehum resgatado em ação): quando ela e o colega que primeiro viu a ocorrência chegaram ao meio do mar, a vítima estava inconsciente. Apoiando o corpo do afogado nos flutuadores e em dois outros salva-vidas, a equipe conseguiu reanimar o homem ainda no mar antes de puxá-lo.

ZERO HORA