MAQUIAVEL – O Realismo Político na Renascença

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Romeu Karnikowski
Romeu Karnikowski

Nicolau Maquiavel – Niccolò Machiavelli em italiano – efetuou uma verdadeira revolução copernicana na filosofia política com a sua concepção da verdade efetiva (verità effettuale). Ele refletiu e escreveu muito sobre assuntos de Estado, sem a metafísica tradicional, mas com base em um realismo até mesmo chocante, desnudando assim a fealdade da natureza humana, que até então era tida como essencialmente boa ainda que “decaído em pecado” tal como era posto pela teoria agostiniana da predestinação. É importante ressaltar já de início que as obras políticas antes dele, principalmente, entre outros, as de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás de Aquino, Dante Alighieri e Marsílio de Pádua, foram escritas sob o estrito princípio do dever-ser, ou seja, na visão do homem como ele deve ser, enquanto que o realismo de Maquiavel estava calcado no princípio da verdade efetiva, ou por outra, descrever a ação política dos homens tal como ela acontece. Para aqueles filósofos a ordem política tinha a finalidade de elevar a qualidade moral dos homens sendo o bem máximo era a justiça. Maquiavel não desdenhou essa perspectiva, mas ele diferentemente daqueles autores, observou que as instituições políticas são construídas sob os vícios dos homens. Para ele os principados e as repúblicas nasceram dos vícios e da maldade e não da bondade e do senso de justiça dos homens. Por isso – ele observou e descreveu e não que ele aceitasse – muitos Estados (principados ou repúblicas) foram instituídos ou nasceram de ações moralmente repugnantes, mas que assim mesmo muitos deles foram estáveis, prósperos e muitas vezes justos em um sentido mais amplo. O fato é que a obra de Maquiavel marca definitivamente o divisor de água com a metafísica do realismo escolástico e a superação do nominalismo tradicional marcada pela ação individual do príncipe. Essa observação inicial, sublinhando a importância do princípio da verdade efetiva, é fundamental para se compreender o seu pensamento político e que na verdade vem a ser a pedra angular de toda a sua obra.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                Tendo a vida praticamente toda voltada para a atividade política tanto no seu aspecto prático como chanceler da sua cidade natal bem como estudioso e historiador assentado, entre outros, em dois livros políticos fundamentais: Discurso Sobre a PrimeiraDécadade Tito Lívio e O Príncipe. Na primeira – publicada em 1532 – ele analisa as repúblicas e na segunda surgida em 1513, os principados ou monarquias e sobre o qual ancoramos este trabalho.

Maquiavel e a sua época

            Nicolau Maquiavel nasceu no dia 3 de maio de 1469, em Florença, no coração da Toscana uma das mais aprazíveis regiões da Itália e morreu no ano de 1527. Outrora a Toscana era chamada de Etruria que foi o país dos etruscos, povo que deixou herança profunda na cultura romana. Florença atravessada pelo rio Arno é a cidade natal de Dante Alighieri (1265-1321), o poeta magno da Itália que sublimou na sua obra DivinaComédiao seu atavismo etrusco e de Petrarca (1304-1374), o Pai da Renascença, que embora tenha nascido em Arécio foi um típico florentino em seu universalismo inovador. Maquiavel – Machiavelli etimologicamente significa cravo ou prego – teve a “sorte” ou como ele mesmo escreveu a fortuna de viver no tempo em que transcorreram os seus 58 anos de vida, bem no auge da renascença italiana onde pululavam as criações de homens geniais como Donatello, Leonardo da Vinci, os Pico della Mirandola, Miguel Ângelo, Ticiano, Rafael Sânzio, Sandro Botticelli, Bramante, Pietro Bembo Francisco Guicciardini, Benvenuto Cellini, Ludovico Ariosto e Giambattista Gelli entre outros tantos. A península da Itália estava fragmentada em vários estados, divididos em repúblicas e principados, sendo que os cinco maiores e mais poderosos eram o Reino de Nápoles que abrangia todo o sul incluindo a Sicilia e a Sardenha constituindo assim o mais extenso deles; os Estados Pontifícios (Papais) que dominavam uma faixa transversal entre o Mar Tirreno e o Adriático; a República de Veneza no nordeste na curvatura norte do Mar Adriático; o Ducado de Milão no norte e a República de Florença encravada no centro da península. Milão um potentado primeiro da família Visconti e depois da Sforza, Veneza dos dodges e do senado e Florença da família Médici eram cidades-Estados, Nápoles era um reino sob o domínio dos aragoneses e os Estados Papais era uma espécie de reino com “monarquia eletiva” onde o papa era eleito pelo colégio de cardeais. Além desses havia vários pequenos potentados independentes, mas que eram títeres e muitas vezes dependentes e até mesmo dominados por um dos cinco maiores estados dentro do complexo e intrincado cenário político da Itália dos séculos XV e XVI. A República de Florença era governada desde 1434 pela família Medici – que significa médicos – constituindo a seguinte seqüencia até 1494 eles foram apeados do poder: Cosme, o Velho (1389-1464), que governou desde 1434 até a sua morte; seguido por seu filho Pedro, o Gotoso (1416-1469) que por sua vez foi sucedido pelo seu filho Lorenzo, o Magnífico (1449-1492) que governou entre 1469 e 1492 que em razão de sua morte foi sucedido por seu filho Piero de Medici (1471-1503) em breve e tirânico “reinado” de dois anos. Alguns dias antes dele fazer nove anos, no dia 26 de abril de 1478 eclodiu a conspiração dos Pazzi que abalou profundamente a cidade. A família Pazzi era rival dos Medici em prestígio e riqueza, mas faltava-lhe o poder político que a família de Lorenzo tinha. Então, no domingo de páscoa, os Pazzi em plena catedral de Florença, se arremeteram contra os Medici onde Lorenzo ficou ferido, mas seu irmão Giuliano veio a morrer. O atentado falhou e a população saiu às ruas para caçar os Pazzi. Em meio a carnificina, o arcebispo de Pisa, que era um Pazzi, foi enforcado e seu corpo ficou pendurado durante vários dias em uma das grandes janelas do Palazzo Vecchio (Palácio Velho). Depois desse atentado, o regime de Lorenzo tornou-se mais severo até a sua morte. Mas a queda dos Medici em 1494, deveu-se, sobretudo, a postura infame senão covarde diante do avanço do exército de Carlos VIII, rei da França, de modo que eles foram expulsos da cidade em novembro desse mesmo ano. É importante ressaltar que desde 1434, a despeito de ser politicamente e juridicamente uma república, Florença era de fato um principado dominado pela família Medici. Em dezembro de 1494, o frei dominicano Girolamo Savonarola, nascido em Ferrara em 1452, é elevado poder de Florença, com o apoio das tropas francesas do rei Carlos VIII, instaurando uma república radical, cujo moralismo cristão extremado, levou ao seu próprio esgotamento. O governo de Savonarola durou quase três anos apoiado amplamente por seus partidários denominados de piagnoni (resmungões) e terminou tragicamente em 23 de maio de 1498, quando ele foi enforcado e depois seu corpo foi queimado em praça pública por seus opositores chamados de arrabbiati (enraivecidos). Cinco dias depois, no dia 28 de maio, o jovem Nicolau Maquiavel é nomeado pelo Conselho dos Oitenta (Postulantes), como segundo chanceler. No dia 19 de junho ele é alçado à chefia da Segunda Chancelaria – posto denominado de Secretário – permanecendo nesse cargo por 14 anos, junto com os Dez da Guerra. Algum tempo depois, o bispo Piero Soderini assume como gonfaliere da república de Florença. A morte de Lourenço em 1492, a invasão do rei francês Carlos VIII com seu poderoso exército de mais quarenta mil homens que provocou a expulsão dos Médici de Florença, o início da longa e custosa guerra com Pisa em 1496 que se prolongou até 1509, o governo de Savonarola e os acontecimentos que resultaram de sua queda e morte, seguida da segunda invasão francesa pelo rei Luis XII e a posição dos Bórgias – destacadamente do Papa Alexandre VI e de seu filho César – nesse intrincado cenário político, provocou profunda impressão na formação e no espírito arguto de Maquiavel. Tempos depois a invasão das tropas imperiais de Carlos V, determinou uma longa guerra com o rei Francisco I da França pelo domínio da Itália. Na verdade ele pressentiu os efeitos danosos se senão catastrófico desses acontecimentos para o futuro político e econômico da península italiana. Maquiavel assistiu tudo, como uma testemunha ocular: no ínterim de trinta e cinco anos entre 1492 e 1527, a Itália foi sacudida por acontecimentos que mudaram profundamente a sua história até os dias atuais. Parecia que a fortuna em sua inconstância havia abandonado os italianos e os condenando a uma longa e infeliz decadência que os atormentou por quase três séculos. A Itália que é o berço do Renascimento e onde se multiplicavam a virtù dos condottieri e dos homens geniais capazes de criar obras-primas na literatura, política, pintura, arquitetura e escultura, onde prosperava a riqueza e o comércio mais que em que qualquer outro lugar da Europa, subitamente, em tão pouco tempo vê tudo decair. A morte repentina de Lourenço, o Magnífico em 1492, com apenas 43 anos, parece ter desencadeado uma série de acontecimentos terríveis passando pelas invasões francesas e que culminará em 1527, com o sangrento saque de Roma pelos Landsknechte (lansquenetes), como eram chamados os mercenários alemães do Imperador Carlos V (que por ser Habsburgo era Imperador do Sacro-Império Austro-Alemão e Rei de Espanha, incluindo os Países Baixos ao mesmo tempo). Dois anos depois, em 1494, o rei francês Carlos VIII à frente de um formidável exército de mais quarenta mil soldados e vários canhões de bronze uma inovação tecnológica revolucionária que mudou para sempre o papel da artilharia nos campos de batalha, pois antes os canhões eram feitos de ferro fundido que os fazia muitas vezes explodir junto com a guarnição invadiu a península, sustentando a subida ao poder de Savonarola. Com a expulsão dos Medici, o frei dominicano implantou a república em Florença. Carlos VIII derrotou as forças da Santa Liga e avançou até Nápoles onde o seu exército foi contaminado por uma nova doença que os italianos passaram a denominar morbus galicum (doença francesa) e que depois ficou conhecida como sífilis. Na seqüencia ele foi derrotado na batalha de Fornovo (1495), abandonando a Itália. Savonarola, que subiu ao poder graças às armas francesas do rei Carlos VIII, segundo Maquiavel, cometeu graves erros no decorrer do seu governo, tais como dividir os florentinos entre os seus partidários que para ele estavam sob a determinação de Deus e os seus opositores que agiam por ordem do diabo. Assim ele construiu um abismo entre os seus seguidores, que se consideravam “puros” e “abençoados” por Deus e os demais florentinos de natureza corrompida e pecadora cuja única salvação era o próprio dominicano, de modo que ele não deu espaço para uma conciliação política. No capítulo VI de O Príncipe Maquiavel analisa a principal causa da ruína do dominicano: Nem Moisés, Ciro, Teseu e Rômulo teriam sido capazes de fazer suas próprias leis e instituições serem cumpridas ao longo de qualquer período de tempo se não estivessem preparados para forçar através das armas. Essa foi a experiência do Frei Jerônimo Savonarola, que falhou ao tentar estabelecer precocemente uma nova ordem de coisas quando o povo parou de acreditar nele, pois não tinha meios de manter os que acreditavam nele firmes em sua fé, nem fazer os descrentes acreditarem. (MAQUIAVEL: 2008, p.p. 80/81). Em suma, Savonarola foi um homem de virtude que subiu ao poder com as armas alheias – do rei francês Carlos VIII – mas caiu em desgraça porque não constituiu suas próprias armas. Savonarola governou Florença unicamente com seu carisma e quando esse dom foi colocado a prova pelos seus opositores, ele não dispunha de armas, ou seja, de próprio exército para a manutenção das instituições que ele mesmo criou. Assim, ele foi como tanto outros homens de virtude de outrora um profeta desarmado e por isso ele foi derrotado. Não se mantém boas leis sem boas armas. As invasões francesas protagonizadas pelos reis Carlos VIII em 1494 (por articulação de Ludovico Sforza e Girolamo Savonarola) e Luis XII em 1499 (por obra de Alexandre VI e de seu filho César Bórgia), desencadearam a decadência primeiro econômica e depois cultural da Itália que foi plasmada na guerra entre Francisco I, rei de França e Carlos V, imperador do Sacro Império (Alemanha, Áustria, Países Baixos e rei da Espanha) que fizeram da península o campo de batalha na década de 1520. Em meio às invasões francesas, exercia o papado em Roma, o espanhol Rodrigo Bórgia, sob o nome de Alexandre VI (1492-1503) e tinha oito filhos: Pier Luigi nascido em 1468, com uma amante de nome desconhecido; Jerônima nascida em 1469, também de amante desconhecida e Isabella nascida em 1470; quatro filhos com sua amante Vannozza Catanei: Juan de Gandia (1474-1497), César Bórgia (1475-1507), Lucrécia Bórgia (1480- 1519), Geofrey Bórgia nascido em 1482 e por último Giovanni Bórgia nascido em 1498 e reconhecido mais tarde por ele. O Papa Alexandre VI foi um personagem fundamental nesses acontecimentos dramáticos que marcaram para sempre a história da península italiana. No capítulo XVIII, Maquiavel formula juízo sobre esse Papa: Entretanto, é necessário que um príncipe saiba muito bem disfarçar sua índole e ser um grande hipócrita e dissimulado, pois os homens são tão simples e se submetem tanto às suas necessidades imediatas que aos impostores nunca faltam os crédulos. Vou mencionar um dos exemplos mais recentes. Alexandre VI nunca fez nada, ou nada pensou, que não fosse para enganar e sempre encontrou uma razão para fazer isso. Ninguém teve tanta habilidade em assegurar, ou firmou seus compromissos com tantos juramentos e os cumpriu menos que o Papa Alexandre e, entretanto, ele sempre foi bem sucedido em suas fraudes, pois conhecia essa fraqueza dos homens. (MAQUIAVEL: 2008, p. 174). Mas foi César Bórgia, duque Valentino, que impressionou o espírito e a mente de Maquiavel de forma duradoura. Para Maquiavel ele poderia ter sido verdadeiramente o condottiere (general, comandante militar) que unificaria a península ou traria paz à mesma para o aproveitamento dos cidadãos e súditos dos potentados italianos. Mas a sorte ou as inconstâncias da fortuna não quiseram assim. Entre 1494 e o ano de 1522 ocorreu três ondas de invasões estrangeiras na Itália: as francesas dos reis Carlos VIII e Luis XII e depois nas décadas seguintes as guerras entre o rei Francisco I e o imperador Carlos V que fizeram da península os seus campos de batalha. Na verdade essas invasões eram em grande medida parte de articulações de príncipes italianos que buscavam apoio no estrangeiro para a afirmação ou consolidação de seus poderes. Entre 1499 e 1504, o rei Luis XII – por articulação do Papa Alexandre VI e de César Bórgia – novamente invadiu a Itália a frente de poderoso exército francês, em grande parte constituído dos temíveis lanceiros suíços. Naquele tempo os mercenários suíços eram temidos, não somente por sua capacidade militar, mas, sobretudo, por sua crueldade. É importante frisar que graças às armas francesas é que a estrela de César Bórgia brilhou e depois que os franceses foram derrotados nas batalhas de Garigliano e Cerignola pelos espanhóis do Grande Capitão Gonzalo de Córdoba e por conseqüência expulsos da Itália, ela se apagou definitivamente. Ao mesmo tempo Florença penava na sua interminável guerra contra a cidade rebelde de Pisa. Alguns anos antes, mais precisamente em agosto de 1499, a artilharia do famoso condottiere Paolo Vitelli bombardeava intensamente as muralhas da cidade rebelde derrubando parte considerável delas. As suas tropas avançavam para o assalto quando ele e seu irmão Vitellozzo Vitelli impediram – sabe-se lá até hoje porque razão – a tomada da cidade. Paolo Vitelli foi acusado de traição, na seqüencia ele foi capturado pelos emissários de Florença e levado à cidade que o contratou para ser julgado. Condenado a morte por traição ele foi decapitado no dia 1º de outubro de 1499. Maquiavel apoiou a decisão da sua cidade quanto ao destino de Vitelli. O que mais lhe impressionou na guerra contra Pisa foi a inconstância e indisciplina das tropas mercenárias nesse longo assédio. Certa feita, foi ordenado aos lanceiros suíços à serviço de Florença para marcharem contra a famosa infantaria espanhola do legendário Gonzalo de Córdoba. Acontece que entre os espanhóis também havia lanceiros suíços. Os suíços a serviço de Florença se recusaram a combater os seus compatriotas e desertaram. Além desse fato, havia sempre a indisciplina das tropas mercenárias que muitas vezes por falta ou mesmo pagamento atrasado, costumeiramente abandonavam as cidades que os contratavam sem qualquer pudor. Dessa forma, Maquiavel passou a ter a convicção de que Florença devia contar para valer com as suas próprias tropas, com soldados nacionais. Na Itália renascentista, praticamente todos os potentados utilizavam soldados mercenários nas suas guerras, realidade esta que Maquiavel queria superar com a sua idéia de tropas próprias recrutadas em Florença, trabalho do qual ele dedicou alguns anos de sua vida. Ele trazia esse aprendizado da antiguidade, especialmente de Roma. Acontece que os camponeses toscanos recrutados por Maquiavel fizeram aparecer os seus ressentimentos quando muitas vezes repugnavam combater por seus algozes senhores de Florença. Em 1509, finalmente, Florença consegue tomar a rebelde Pisa depois de uma dura e dispendiosa guerra que se prolongou por treze anos. Maquiavel, como chanceler, participou de várias missões diplomáticas tais como na França e na Alemanha até a queda da república em 1512 e o retorno dos Medici à Florença. As tropas da Santa Liga – uma aliança formada pelo rei de Espanha, Veneza, os Habsburgos e o Papa Júlio II – tiveram perdas graves na batalha de Ravena em agosto de 1512, mas o exército francês que cantou a vitória, teve a perda mais importante: do seu comandante De Foix. Não obstante, as tropas da Santa Liga avançaram determinando a queda da república florentina e de Soderini, que era estava ligado aos franceses, adiando, desse modo, as pretensões angevinas (Valois) na península. Assim, o gonfaloneiro Piero Soderini, no dia 1º de setembro, foi para o exílio em Castelnuovo. No mesmo dia os Medici entraram na cidade, liderados pelo cardeal Giovanni, filho de Lorenzo, o Magnífico. Givambattista Ridolfi, partidário da família, é eleito gonfaloneiro por 14 meses. O Conselho dos Dez da Guerra foi eliminado e a Chancelaria expurgada. Na seqüência Maquiavel caiu em desgraça, junto novos governantes, porque no início de fevereiro de 1513, um jovem chamado Pietropaolo Boscoli, inimigo declarado dos Medici, acidentalmente perdeu um pedaço de papel que continha vários nomes de possíveis conspiradores contra o novo regime. Esse pedaço de papel foi parar nas mãos dos novos governantes de Florença. Entre os nomes estava o de Nicolau Maquiavel que foi preso e torturado. Mas um acontecimento extraordinário para Florença, trouxe a liberdade, por anistia, para Maquiavel: no dia 11 de março de 1513, o cardeal Giovanni dei Medici é eleito o Papa Leão X, em sucessão a Júlio II que morrera no dia 20 de fevereiro. Quando a notícia da eleição do primeiro Papa de Florença chegou à cidade os seus habitantes soltaram fogos, repicaram os sinos por vários dias e os presos foram anistiados em meio a uma alegria contagiante (HALE: 1963, pp. 117-123). Nesse mesmo ano ele escreveu o seu livro mais famoso: O Principe. Na verdade, mais do que um manual de aconselhamento como se supõe, essa obra é o resultado das suas reflexões e experiências diplomáticas, políticas e militares. Nesse livro ele expõe seu pensamento advindo de quatro fatores: primeiro da sua vida pessoal enquanto testemunha ocular dos acontecimentos extraordinários que mudaram o curso da história da Itália a partir da morte de Lorenzo, o Magnífico em 1492, passando pelo governo de Savonarola, a ascensão e queda dos Bórgias, especialmente do condottiere César Bórgia, e pelas invasões francesas de Carlos VIII e Luis XII; segundo da sua vasta leitura dos clássicos, especialmente de Políbio de quem ele tirou a sua teoria cíclica e também dos historiadores romanos como Tito Lívio, Suetônio e Tácito; terceiro das suas atividades como chanceler nas suas missões políticas e diplomáticas junto à corte papal, à corte francesa, às alemãs e na elaboração dos tratados e por fim das suas experiências militares, principalmente decorrentes da longa guerra contra Pisa, onde percebeu como ninguém o perigo para os príncipes do emprego de tropas mercenárias devido a sua inconstância e indisciplina passíveis de seguidos amotinamentos. Maquiavel observou que os mercenários não tinham nenhum apego a nada, salvo ao seu soldo, sendo que várias vezes abandonavam os seus próprios chefes e, principalmente as repúblicas e os principados que os contratavam tanto por atraso de pagamento ou quando aparecesse outra causa mais rendosa e até mesmo por covardia. Não sem razão que ele se impressionou com a capacidade de César Bórgia de impor a disciplina e ao mesmo tempo ter devotamento dos seus soldados. O ano de 1512, com o retorno dos Medici e por conseqüência a perda do seu cargo de Secretário na Chancelaria da República de Florença, que lhe garantia a remuneração para sustentar a sua família, tem início a um longo período de atribulações, sempre lidando com a sua sobrevivência pessoal e de sua família, além de prisão e tortura em fevereiro e março de 1513. Não obstante, foi o período das suas grandes criações: O Principe (1513), Mandrágora (1518), Discursos (1519) e Da Arte da Guerra (1520). Nicolau Maquiavel, o homem que mudou o pensamento político, morreu tranquilamente no dia 21 de junho de 1527, tendo ainda tempo de ver os Medici serem novamente expulsos da cidade e a república ser restabelecida em Florença no dia 16 de maio desse mesmo ano.

O Pensamento Político de Maquiavel

            Embora Maquiavel jamais tenha usado a expressão “Os fins justificam os meios”, a sua reflexão sobre os assuntos políticos ele percebeu que ao longo do tempo, os príncipes e heróis que criaram instituições e fundaram estados, foram louvados quase que exclusivamente pelos seus resultados que pelos meios por quais empregaram para tais fins. Mas essa ilação é o resultado da revolução metodológica realizada pelo Secretário florentino quanto ao pensamento político, que para ele deve estar assentada na verdade efetiva, dessa forma atento às instituições e aos homens como eles são sem se preocupar como eles deveriam ser. Maquiavel percebeu que tanto a história do pensamento e bem como das instituições políticas estão assentados no princípio da eficiência dos príncipes e não da sua moralidade. Nesse sentido, torna-se importante ater-se em alguns conceitos duais do mestre florentino: virtù e fortuna, boa e má crueldade, profeta armado e desarmado e eficiência e moralidade. Cabe lembrar que virtù significa etimologicamente força, do latim vir donde derivam as palavras virtude, viril e varão. Daí que uma das qualidades fundamentais da virtù é a capacidade militar como deve ser de um condottiere. Maquiavel descreve vários exemplos de príncipes e heróis que encarnaram ou foram portadores das virtudes acima descritas. Moisés é o primeiro deles. Ele teve a sorte, (circunstância) de encontrar os hebreus sob o jugo dos egípcios, de modo que teve a virtù (capacidade)para reuni-lo para sua retirada à Terra Prometida. Por ocasião da sua descida do Monte Sinai, Moisés encontrou o seu povo adorando um bezerro de ouro. Em meio à crise que emergia ele teve que agir. Chamou ao seu lado os levitas, que era sua tribo, armou-os e mandou-os passar por todo o arraial para matar três mil adoradores do bezerro de ouro. Assim a crise foi superada e ele impôs as suas leis. Moisés teve a virtù de se tornar um profeta armado quando fez dos levitas uma espécie de sua polícia militar, que utilizou com eficiência da “boa crueldade” quando ordenou a matança no arraial hebreu, sem o qual teria sido impossível impor as suas leis (leis mosaicas). Mas, sobretudo, os grandes fundadores de Estados foram profetas armados e somente nessa condição é que eles conseguiram vencer. O caso mais evidente para Maquiavel, como já vimos, é o do Frei Savonarola que a despeito de seu carisma era um profeta desarmado, tal como Isaac Deutsch, alguns séculos depois, denominaria o revolucionário russo Leon Trotski (1879-1940). Os príncipes que fundam os estados novos, tanto principados bem como repúblicas, exercem seu poder mais sob o rigor das armas – força – do que o equilíbrio das leis. Os Estados em construção estão naturalmente mais sujeitos à violência dos príncipes do que os Estados já consolidados, pois aqueles têm que afirmar e fortalecer as suas instituições ao passo que nesses, as instituições já estão consagradas pelo povo. Rômulo jamais teria fundado Roma se não tivesse antes assassinado seu irmão Remo. A fundação de instituições tem sua própria lógica que não se coaduna com a moral. Ao que podemos afirmar que a violência é inerente à construção dos Estados. Nessa mesma linha, podemos afirmar que existiram, ao longo da história, dois tipos distintos de príncipes, além dos armados e desarmados: os instituidores ou instauradores tais como Moisés, Teseu, Rômulo, Clóvis, Maomé etc. que fundaram novos Estados e os consolidadores que afirmaram as instituições políticas existentes para a segurança e paz dos seus súditos. Os príncipes consolidadores, por sua vez, podem ser divididos em dois grupos: os administradores e os conquistadores que muitas vezes se confundem com os instituidores. Entre os primeiros estão o rei Salomão, os imperadores romanos Otávio Augusto César, Adriano e Antonino Pio, o rei francês Felipe Augusto, o rei inglês Henrique III e os Médici em Florença e entre os segundos o rei persa Ciro, Alexandre Magno, Júlio Cesar, o rei franco Carlos Magno e Gengis Khan entre outros. Maquiavel identificou em Cesar Bórgia, nomeado duque de Valentenois por Luis XII – duque Valentino para os italianos – um instaurador. Para o Chanceler florentino, César Bórgia tinha todas as virtudes de um príncipe instaurador: audácia entremeada de uma dose exata de crueldade, mantida sob a aparência de uma bondade infinita, inteligência aguda e grande capacidade política e militar. Dessa forma, César Bórgia seria o príncipe instaurador para unificar e construir uma Itália forte tal como muitos italianos tanto ansiavam? Para Maquiavel na Itália do final do século XV e início do XVI, era o único homem na península que reunia a virtù de um príncipe instituidor. Nesse sentido, em 8 de novembro de 1502, Maquiavel escreveu o seguinte sobre César Bórgia: O duque não pode ser considerado como outros príncipes sem importância, mas deve ser visto como uma nova força na Itália. (HALE: 1963, p. 67). No capítulo VII de O Principe, Maquiavel analisa mais detidamente a figura de César Bórgia. A grande capacidade política e militar do duque Valentino, diferentemente de Francesco Sforza, estava assentada nas armas alheias, portanto, em pés de barro. A força de César Bórgia era aparente, pois ela estava calcada unicamente na sorte, independentemente das suas grandes qualidades militares e também políticas. Na mitologia grega-romana a Fortuna era a deusa da boa e da má sorte e era famosa por sua inconstância. Enquanto Sforza se valeu unicamente com seu valor (virtù) para ter o poder em Milão, o duque Valentino estava amparado no poder de seu pai Alexandre VI e no apoio das tropas francesas do rei Luis XII. E esse foi o prenúncio da desgraça: Alexandre VI morreu em 1503 e as relações políticas estabelecidas por ele no intrincado cenário italiano, determinaram a queda do duque Valentino, apesar deste ter feito tudo certo e não obstante possuir todas as virtudes necessárias a um príncipe instituidor que descrevemos acima. No entanto, para Maquiavel, César Bórgia cometeu um erro grave, mas que era próprio da sua nobre natureza: confiou na palavra de um inimigo que no caso era o recém eleito Papa Júlio II, um notório adversário do seu pai, quando era o cardeal Giulio della Rovera. Antes mesmo disso, o duque Valentino poderia ter impedido a eleição do cardeal Giulio della Rovera, mas não o fez muito em razão de sua saúde abalada, deixando um inimigo tornar-se Papa e auferir de poderes imensos. Sem falar que o cardeal Giuliano como Papa Júlio II se mostrou um militar notável que certamente mais tarde iria se defrontar com o duque Valentino. Giulio della Rovera sabia disso, por isso tratou de minar a força de César Bórgia. Assim a sorte (fortuna) abandonou miseravelmente o duque Valentino e como a sua força militar estava assentada na fortuna, a despeito das suas imensas virtudes, ele decaiu morrendo em combate com apenas 32 anos, próximo de sua esposa Charlotte d´Albret, irmã do rei de Navarra. Como vimos, não foi por acaso que César Bórgia exerceu um fascínio em Maquiavel que lhe seguiu pelo resto da sua vida, dotado de capacidade sem igual, mas cuja força militar era das armas alheias, sem o seu próprio exército, portanto, enquanto a sorte esteve do seu lado ele pode executar e exercer todas as suas qualidades de político e de militar. Segundo Maquiavel ele fez tudo certo, como um verdadeiro príncipe instaurador, mas as circunstancias que seguiram a morte do seu pai Alexandre VI, lhe foram fatal. Na Renascença, afirma o historiador suíço Jacob Burckhardt, o Estado é uma obra de arte. Assim como a arte renascentista é o resultado do trabalho de artistas de talento e genialidade, o Estado era concebido e instituído por príncipes (lideres políticos) que concatenavam a virtù e a fortuna. César Bórgia era um homem de virtù, um verdadeiro condottiere, mas foi derrotado pela má fortuna (má sorte). Skinner escreveu o seguinte sobre o malfadado destino do duque Valentino: “Por analogia, conclui que a moral a extrair da carreira de César Bórgia é que um príncipe deve sempre contar mais sua própria virtù do que com os favores da Fortuna ao procurar ‘conservar seu estado’. Tendo adquirido o poder inteiramente ‘por meio da boa fortuna do seu pai’, César estava particularmente sujeito a perdê-lo tão cedo a sorte o desertasse. Isso, aliás, sucedeu com terrível presteza, de modo que ‘o que ele instituiu foi em vão’, e terminou a vida como uma presa ‘extraordinária e desordenada malícia da Fortuna’.” (SKINNER: 1996, p. 141.). A questão da Fortuna era tão cara a Maquiavel que ele dedicou um capítulo (XXV) de O Principe a estudar a influência da sorte nas coisas dos homens e como se pode lidar com ela. É importante ressaltar que o seu livro O Príncipe não é como aparentemente se mostra um receituário para a conquista e manutenção do poder, mas uma verificação arguta, dentro do seu método da verdade efetiva, como os Estados são instituídos e mantidos por príncipes capazes e virtuosos e como também eles são perdidos e arruinados por príncipes que não tiveram a virtude de assegurar a sua manutenção. Esse livro que Maquiavel dividiu em 26 capítulos pode ser repartido em quatro grandes partes: na primeira estão os tipos de principados nos capítulos I, II, III, IX e XI; na segunda os modos de adquirir (conquistar) e governar (manter) os principados ou como os príncipes perderam seus Estados nos capítulos IV, V, VI, VII, VIII, X e XXIV; na terceira o tipo ou forma de forças militares usadas pelos príncipes para os seus desígnios nos capítulos XII, XIII e XIV e na quarta as qualidades essenciais de um príncipe e a forma como ele deve agir com o povo para evitar ser odiado por este nos capítulos XV, XVI, XVII, XVIII, XIX, XX, XXI, XXII, XXIII e XXVI sendo este último um capítulo especial onde ele exorta os italianos a se unirem contra os invasores estrangeiros da península, a quem o Papa Júlio II chamava de bárbaros. Maquiavel em linhas gerais reconhece apenas dois tipos de Estado: repúblicas e principados (monarquias). Essa classificação rompe com a tipologia clássica derivada da abordagem platônico-aristotélica de governo de um (monarquia), o governo de poucos (aristocracia) e o governo de muitos (politéia), com as suas formas corruptas: a tirania do primeiro, a oligarquia do segundo e democracia do terceiro. Norberto Bobbio salienta a imporância dessa classificação inovadora: “Maquiavel substitui a tripartição clássica platônica-aristotélica-polibiana por uma definição dual ou bipartida. Assim, as formas de governo passam de três a duas: principados e repúblicas. O principado corresponde ao reino; a república, tanto à aristocracia como à democracia. A diferença continua a ser quantitativa (mas não só quantitativa) e é simplificada: os Estados são governados ou por uma só pessoa ou por muitas. Essa é a diferença verdadeiramente essencial.” (BOBBIO: 1997, p. 84). Para Maquiavel os principados são de dois tipos: os hereditários e os novos, sendo que estes, por sua vez, podem ser também mistos. Os primeiros são mantidos, geralmente, por uma longa linhagem dinástica que mantém a sua estabilidade institucional. Os segundos, por serem novos, são mais problemáticos quanto ao seu aspecto constitucional, pois o novo príncipe tem que fundar instituições que devem estar ao máximo de acordo com o povo do principado. As formas pelas quais se conquista e se governa um principado é uma das mais importantes preocupações de Maquiavel, principalmente no que tange aos principados novos. Skinner escreveu que para Maquiavel havia duas vias principais pela qual pode se adquirir um principado: pelas qualidades da virtù ou pelo dom da fortuna, nesse ponto ele sempre lembra o caso de César Bórgia que adquiriu o seu principado (Estado) graças à boa fortuna e não pela sua virtù embora ele a tivesse muito. (SKINNER: 1996, p. 141). Sobre a inconstância da fortuna Skinner escreve o seguinte: O que o autor (Maquiavel) mais ressalta, porém, é o caráter instável da deusa, de que resulta ser louco todo aquele que confiar, por alguma duração de tempo, em seus favores. (SKINNER: 1996, p. 141). A par disso, a ação do príncipe deve ser tanto onesta, ou seja, baseada na honestidade bem como utile ou, por outra, com finalidades úteis para o seu povo (SKINNER: 1996, p. 140). Não resta dúvida que Maquiavel fosse tributário, ao menos metodologicamente, do nominalismo que a partir do século XIV com William de Occam (1285-1349) passou a predominar sobre o realismo na querela das universais. Não que ele fosse um nominalista acadêmico ou até mesmo soubesse que assim o era, mas quando ele salienta os valores individuais e a figura individual do príncipe por meio da verdade efetiva ele está sendo um nominalista. Durante muito tempo os filósofos realistas e os nominalistas se digladiaram na porfia das universais. Os primeiros afirmavam que os universais – conceitos abstratos – não são palavras vazias, mas constituídas de sentido e de existência própria. Por exemplo, o conceito de Homem era universal porque ele abarcava todos os homens, sendo que a diferença entre eles era apenas acidental como tamanho, cor, raça, densidade corpórea, etc. Assim, sapato, livro e outros conceitos de modo que as diferenças entre eles não alterava a substância sapato ou livro. O conceito de Estado não pode ser percebido por nossos sentidos, mas ele tem realidade em si, percebida pela razão. Esse era fundamentalmente o realismo extremo. Em oposição a essa visão o filósofo Jean Roscelino (1050-1120) defendeu que os universais eram sim palavras abstratas, meros nomes construídos por nosso espírito. Para contrapor ao argumento dos realistas Roscelino levantava a sua máxima: vejo o cavalo, não vejo a cavalidade. É como afirmar vejo a árvore não vejo a floresta. Assim, nasceu o nominalismo que foi levado ao nível de escola por Guilherme de Ockham. Para o nominalista o que importava era a concretude da palavra árvore que ele via na sua frente e não o conceito abstrato de floresta que para ele não passava de um nome. O nominalismo dessa forma vai criar as vias para o desenvolvimento da ciência e do individualismo. De certa forma, a idéia de virtù somente pode avançar dentro dessa perspectiva criada pelo nominalismo. É importante frisar que para Maquiavel o conceito de Estado era uma instância concebida pelas ações concretas e individuais dos príncipes e nesse aspecto ele era um nominalista. A partir disso o príncipe deve necessariamente ter a virtù para conquistar e manter o seu Estado. Maquiavel observou que ao longo da história a força bruta tornou-se um dos elementos mais importantes da política, embora ela fosse sempre, por mil artifícios, ser dissimulada com discursos justificadores. A força bruta muitas vezes foi confundida com a crueldade o que de fato acontecia em grande parte das ações, mas isso não desfazia e nem degradava a iniciativa dos príncipes, como bem disse o Secretário florentino no capítulo XVII de O Príncipe de que a crueldade de César Bórgia reergueu e pacificou a Romanha. No capítulo VII de O Príncipe ao trazer o caso de Ramiro Lorque, tenente de César Bórgia, ele leciona como se deve manter a aparência de bondoso e generoso sob ações brutais, cultivando as virtudes tradicionais tão admiradas pelo povo. A meta do príncipe deve sempre buscar ser considerado pessoa honrada e conquistar o louvor universal. Nesse sentido, se ele não for virtuoso que pelo menos “seja tão prudente que saiba como escapar à má reputação que se prende a esses vícios que poderiam causar-lhe a perda do Estado.” (SKINNER: 1996, p.153; MAQUIAVEL: 2008, p. 155). Nessa linha, Maquiavel dita no capítulo XV de O Príncipe uma das mais importantes lições que o príncipe ou governante deve observar a qualquer tempo: o abismo entre o como se vive e o modo por que se deveria viver é tão vasto que quem desdenhar o que de fato se faz, para se preocupar com o que deveria fazer, aprende antes o caminho de sua ruína que o de sua conservação (SKINNER: 1996, p. 153). Por isso, todo homem ou governante que, em todos os aspectos, quiser levar adiante apenas o emprego da bondade, certamente ficará arruinado em meio a tantos que são maus (MAQUIAVEL: 2008, p. 154). Aqui está a verdade efetiva em sua plenitude e a máxima diferença de Maquiavel com os filósofos que pensaram Estados e sociedades como elas deveriam ser como Platão, Aristóteles e Santo Agostinho entre outros, mas como de fato os Estados e as sociedades se apresentam. Nesse sentido, é fundamental descortinar o véu das aparências construídas pelos discursos históricos e pelas religiões que acabam distorcendo profundamente a realidade efetiva. Sob os entulhos discursivos da história e da religião que ele examina as três virtudes fundamentais do governante nos capítulos XV, XVI, XVII e XVIII de O Príncipe sem as quais ele corre sério risco de perder o apoio do povo e por conseqüência o Estado. Assim ele deve ter fama pela sua generosidade e não da avareza; segundo, ele deve ter a aparência de piedoso em vez de cruel e por fim, ele ter a qualidade de manter a palavra em vez de ficar conhecido como mentiroso ou embusteiro. No entanto, estas não são virtudes inerentes ao príncipe ou governante, mas tão somente úteis quanto ao propósito de assegurar o Estado, pacificar e tranqüilizar os seus cidadãos. Nesse aspecto são virtudes puramente baseadas na razão que de certa forma antecipa a teoria dos jogos e da escolha racional. Isso está expresso na sua análise exposta no capítulo XVII de O Principe onde ele subverte a questão clássica do príncipe ser amado pelo povo. O melhor, sem dúvida, é ser amado e temido, mas se não puder ser as duas, é melhor para o Estado que o príncipe seja antes temido do que amado. Aqui temos duas considerações que se desdobram no pensamento de Maquiavel: primeiro a virtù do príncipe destacadamente em usar as suas qualidades racionais para manter o Estado, sobretudo, as virtudes acima descritas, mas também ter a sabedoria de usar a força quando necessário tal como Moisés quando se valeu dos levitas como seu braço armado e a segunda, é que o Estado assume o caráter absoluto, a potência máxima da sociedade. Nesse sentido, Maquiavel antecipa Hegel na sua especulação de que o Estado é a realização suprema da razão no espírito objetivo e Max Weber quando este o define como monopólio da força física. É idéia da razão de Estado que tomava as suas formas definidas. A posição epistemológica de Maquiavel torna ainda mais evidente o seu realismo em uma época em que surgia muito forte a corrente do neoplatonismo (idealismo), enfeixada no pensamento de Pico della Mirandola. Assim, com base no seu livro O Príncipe o seu pensamento político desencadeou uma profunda mudança no modo de ver as instituições. Na verdade, o alicerce da sua revolução epistemológica na esfera do pensamento político esta na sua concepção de verdade efetiva que lhe permitiu estudar as instituições (Estados e governantes) tal como eles se apresentam e não como deveriam ser, que têm sua validade em outro campo do pensamento. Ele foi efetivamente o primeiro cientista político moderno ainda que pertencesse à esfera da filosofia política.

 

BIBLIOGRAFIA

 

BOBBIO, Norberto. A Teoria das Formas de Governo. 10ª ed. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1997.

 

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Romeu Karnikowski

Pesquisador PNPD da PUC/RS