Cortes do governo atingem áreas prioritárias do RS

159
IMAGEM ILUSTRATIVA
IMAGEM ILUSTRATIVA

Base aliada começa a sentir desgaste político das medidas

Passados dez dias da publicação do decreto do Palácio Piratini que readequou o orçamento do Estado, diminuindo em pelo menos R$ 1 bilhão as despesas no ano, a base aliada começa a sentir o desgaste político das medidas. Ao mesmo tempo, representantes dos setores da saúde, segurança e educação apresentam dados para demonstrar o quanto as áreas foram atingidas.

“O governo simplesmente está transferindo responsabilidades. Desde o início de fevereiro tínhamos conhecimento do corte e estabelecemos uma discussão. Há duas semanas, falamos com o governador, que ficou de nos dar uma resposta. Temos uma assembleia no dia 10, na qual tomaremos um posicionamento definitivo”, alerta o presidente da Federação das Santas Casas e Hospitais Beneficentes, Religiosos e Filantrópicos do RS, Julio de Matos.

Conforme os números da federação, os cortes incluem R$ 25 milhões mensais que deixaram de ser repassados às instituições a partir de janeiro, quando teve início a atual administração. São valores relativos ao cofinanciamento estadual, utilizado para reduzir o déficit decorrente dos atendimentos pelo SUS. “São R$ 300 milhões ao ano. Isso sem falar nos R$ 132,6 milhões dos repasses atrasados de outubro e novembro, que não recebemos, e sobre os quais não há qualquer encaminhamento”, afirma Matos. Entre as consequências, ele lista o agravamento das situações das santas casas em Rio Grande, Ijuí, Candelária, Bagé, Santana do Livramento e Uruguaiana.

Na área da segurança, a lista de problemas também é extensa. Segundo dados da Abamf, que reúne os servidores de nível médio da Brigada Militar, viaturas que antes percorriam 80 quilômetros por dia tiveram os percursos máximos reduzidos para 30 quilômetros em função do contingenciamento de gasolina. “A ordem é que as viaturas fiquem em PB (ponto fixo). Não fazem policiamento, só atendem a ocorrências”, aponta o presidente da entidade, Leonel Lucas.

Ele adianta ainda que, ao contrário do que ocorria anualmente na Páscoa, quando parte do efetivo era deslocada ao Litoral porque muita gente passa lá o feriado, neste ano, para conter despesas, não há previsão de deslocamento. Segundo Lucas, além do efeito imediato, o contingenciamento gera ainda projeções negativas. Ele cita como exemplo as informações de que o governo pode extinguir ou diminuir a chamada gratificação de permanência, o que gerou uma enxurrada de pedidos de aposentadoria. “No ano passado inteiro, 800 brigadianos saíram da corporação. Este ano, devido aos boatos, em dois meses e meio já são 1,2 mil pedidos”, revela.

Base aliada já ouve queixas

Diariamente, chegam aos deputados dos partidos da base aliada na Assembleia pedidos de informações ou reclamações de diferentes regiões do RS a respeito da diminuição de serviços nas chamadas áreas estratégicas. A pressão não gera apenas apreensão dos parlamentares com suas próprias bases eleitorais. Ela causa ruído entre as siglas que apoiam o governo de José Ivo Sartori (PMDB).

Entre os quatro maiores aliados na Assembleia – PDT, PP, PSDB e PSB –, são claras as divergências a respeito de como estão sendo encaminhados os cortes. “Entendemos que estão sendo buscadas soluções, mas, no momento em que acharmos que as coisas não estão sendo bem conduzidas, deixaremos clara nossa posição”, adverte o líder da bancada do PDT, deputado Diógenes Bassegio. O parlamentar lembra que ele e os colegas Juliana Brizola e Enio Bacci possuem vinculações com as áreas de saúde, educação e segurança, respectivamente, e completa: “Estamos preocupados porque, na realidade, houve cortes nas áreas. Além disso, os cortes do primeiro decreto, o de janeiro, têm prazo para terminar. E depois, o que vai acontecer? Haverá outro decreto ou o governo vai voltar a cumprir com pagamentos?”, questiona.

O PSB tem posição semelhante. O líder da bancada, deputado Elton Weber, avalia que os cortes foram feitos para equilibrar as contas, mas ressalva: “Eles afetam com certeza saúde, educação e segurança. Não é verdadeiro dizer que não afetam em nada o atendimento básico.” No entendimento do partido, “o governo precisa fazer todo o esforço necessário para ‘poupar’ as áreas essenciais”, considera Weber.

PP e PSDB culpam governo anterior

Ao mesmo tempo em que PDT e PSB externam preocupações, tucanos e progressistas reforçam discurso de “terra arrasada” sobre o governo Tarso Genro e dão munição para a oposição, que acusa Sartori de adotar práticas de encolhimento do Estado que integrariam programas do PP e do PSDB. “As pessoas estão ressentidas e vão ficar cada vez mais ressentidas. Elas precisam mesmo sentir quem provocou esta situação e teremos quatro anos para mostrar”, diz o líder da bancada do PP, Frederico Antunes.

“É claro que, quando corta dinheiro de algum lugar, tem desgaste. Mas a responsabilidade é totalmente do governo passado. Mas o contingenciamento não vai prejudicar saúde, educação e segurança”, afirma o líder da bancada do PSDB, deputado Jorge Pozzobom.

CORREIO DO POVO