NH- Gambiarra e improviso para manter viaturas da Brigada Militar na ativa

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783073Brigadianos se esforçam para garantir a segurança dos moradores da região

Tão raro quanto se deparar com um policial militar fazendo patrulha a pé, caminhando nas áreas mais movimentadas das cidades, é ver viaturas novas rodando pelo Vale do Sinos. A precariedade da Brigada Militar (BM) é perceptível e preocupante, a ponto de um carro em São Leopoldo ter o banco do motorista escorado por um pedaço de madeira. O Vectra (foto ao lado) apresentou defeito na engrenagem que regula a distância entre o painel e o assento do condutor. A necessidade fez com que os policiais em serviço montassem uma legítima gambiarra para que o veículo fosse utilizado no final de semana passado. Conforme o comandante da Brigada Militar de São Leopoldo, que também responde interinamente pelo Comando Regional de Policiamento Ostensivo (CRPO) do Vale do Sinos, tenente ­coronel Nélio Tedesco, na segunda-­feira (18) o veículo foi colocado para conserto. “Tínhamos poucas viaturas à disposição e não podíamos abrir mão do Vectra naquele dia. Assim que foi possível, tiramos o banco de outro veículo que estava ‘baixado’ e fizemos a troca”, explica. Segundo o comandante, o problema na viatura ocorreu devido ao uso intenso. “Muitos policiais, de tamanhos e pesos diferentes, dirigem os veículos. A troca de posição constante dos assentos vai estragando a engrenagem.” Em Araricá, um problema elétrico em um veículo fez com que dois militares se obrigassem a empurrar o veículo. A cena foi flagrada e a foto circula nas redes sociais. O comandante da Brigada Militar na cidade, sargento Alexandro Sebastiany, disse que o incidente aconteceu quinta-­feira passada. “A bateria estragou e eles tiveram que empurrar até o carro pegar”, lembra Sebastiany, ressaltando que no município a situação pode ser considerada boa. “Aqui não há sucateamento”, defende. O sargento salienta que o Conselho Comunitário Pró­-Segurança Pública (Consepro) tem ajudado frequentemente a Brigada Militar do município.

783121Efetivo da Brigada está defasado

A defasagem de efetivo é um problema crônico na Brigada Militar do Estado. Porém, tem se intensificado dos anos 2000 em diante, conforme explica Tedesco. “Até os anos 90, havia inclusão anual de novos policiais. Depois, houve uma queda nesse processo e a Brigada chega a ficar três anos sem inclusão.” O comandante lembra ainda que a cada 12 meses cerca de mil brigadianos completam 30 anos de serviço e pedem aposentadoria. “E assim, o efetivo vai diminuindo cada vez mais. Dá pra perceber nas ruas.” Enquanto isso, a população segue aumentando. Conforme Tedesco, a defasagem chega a 45% no Vale do Sinos e a 55% no Estado. Além disso, a falta de novos concursos deixa a tropa envelhecida. Por questões estratégicas, a Brigada Militar não informou o número de policiais que trabalham na região. Os policiais militares raramente são vistos a pé em Novo Hamburgo e São Leopoldo. Conforme o tenente ­coronel Nélio Tedesco, devido ao pouco efetivo, é dado prioridade às patrulhas motorizadas. “Assim conseguimos atender as ocorrências com mais rapidez. É frustrante para nós, policiais, deixar alguém esperando meia­hora.”

783105Polícias desmotivadas

O corte de horas extras a que a Brigada Militar foi submetida recentemente também contribui para a redução de efetivo nas ruas. Conforme o diretor regional do Vale do Sinos da Associação de Praças da Brigada Militar (Abamf), sargento Jorge Gonçalves Cardoso, há desmotivação de policiais. “Mesmo com pouco efetivo e viaturas sucateadas, a Brigada Militar continua fazendo prisões, apreensões…Enfim, combatendo o crime, mas esses problemas interferem, desanimam o policial e impedem de realizar um bom trabalho.” O diretor regional comenta sobre a viatura flagrada com uma madeira segurando o banco do motorista. “Aquilo é um troço absurdo, que coloca em risco os policiais e a comunidade. Se aquela madeira cai, o condutor pode perder o controle da viatura, porque o assento está solto. Não tem como dirigir tranquilo.” Em Novo Hamburgo, conta o sargento que trabalha há 26 na cidade, a situação é parecida. “Aqui tem uma frota antiga, que não aguenta o desgaste. A Brigada não ganha verba para manutenção e nem viaturas novas.” O problema se agrava quando a Brigada Militar passa a depender de favores da comunidade. “É comum aqui em Novo Hamburgo que as viaturas sejam levadas em oficinas de amigos dos soldados para conserto. Nesses casos, a própria população ajuda, fazendo esse tipo de doação.” O comandante da Brigada Militar de Novo Hamburgo, tenente­ coronel Luiz Fernando Rodrigues, confirma a prática. “Isso sempre existiu.”

Promotora alerta para sucateamento

Segundo a promotora Lúcia Helena Callegari, da Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Porto Alegre, as polícias Civil e Militar vivem um momento complicado devido à falta de recursos. Lúcia Helena afirma que as duas instituições recebem mensalmente pouco mais de um tanque de gasolina por viatura. “Isso afeta diretamente nas investigações, deslocamento dos policiais, busca por testemunhas e por pistas. Onde há ameaça de não pagamento de salário, de não pagamento de diárias, de falta de gasolina, não há resultado eficiente. Isso gera um prejuízo imenso para a população e desestímulo para os policiais.”

Viaturas ­

Os veículos utilizados pela Brigada Militar são carros de passeios que recebem a pintura característica da instituição. No entanto, conforme dados da Brigada Militar, um carro de passeio é fabricado para rodar em média 6 horas por dia. ­ Quando obedecido esse limite, o veículo tende a ter uma longa vida útil. As viaturas rodam 24 horas por dia e são submetidas, esporadicamente, a terrenos irregulares e a altas velocidades. Também recebem equipamentos como flash e rádio. “Os carros de passeio não são feitos para suportar tudo isso. O motor das viaturas nunca esfria, ficam quase que 24 horas por dia ligados e rodando.” ­ Tedesco acredita que as viaturas deveriam ter a suspensão e o sistema elétrico reforçados, além de blindagem nas portas e vidro dianteiro. “Por isso temos tantos carros para conserto.” ­ O comandante salienta também que há uma defasagem de 40% na frota de veículos e que 70% dos disponíveis têm mais de 3 anos de uso no Vale do Sinos. “Temos no Vale do Sinos muitos carros fabricados em 2004 e 2005.” ­ Somente em Novo Hamburgo, 50% das viaturas estão paradas esperando conserto. Diante desses problemas, a falta de armamento fica em segundo plano. “Temos bastante pistola. Faltam armas pesadas, mas não adianta ter arma e não ter material humano.

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