Aumento da violência é resultado de desmonte na segurança pública, afirmam entidades

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07/07/2015 - PORTO ALEGRE, RS, BRASIL - Na foto: Brigada e Policia Civil descem a Av. Salgado Filho e se juntam com IGP, Bombeiros e Susepe subindo a Av. Borges de Medeiros. Várias categorias ligadas a segurança pública realizam ato unificado contra arrocho do governo Sartori. Foto: Guilherme Santos/Sul21
07/07/2015 – PORTO ALEGRE, RS, BRASIL – Na foto: Brigada e Policia Civil descem a Av. Salgado Filho e se juntam com IGP, Bombeiros e Susepe subindo a Av. Borges de Medeiros. Várias categorias ligadas a segurança pública realizam ato unificado contra arrocho do governo Sartori. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Luís Eduardo Gomes

A região metropolitana de Porto Alegre registrou uma onda de assassinatos no último fim de semana. Entre a noite de sexta-feira e a madrugada de domingo, foram registrados 23 homicídios, segundo números fornecidos pela Brigada Militar. Foram ao menos três chacinas. Em uma delas, três mulheres e uma criança foram degoladas dentro de uma casa, no bairro Restinga, em Porto Alegre.

Entidades que representam Policiais Civis e Militares salientam que este número é bem acima do normal, mas afirmam que uma das causas para o aumento da violência é a retirada de recursos da área de Segurança Pública.

Para Ricardo Agra, secretário-geral da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho (Abamf), que representar os servidores de nível médio da Brigada Militar e Bombeiros Militares, o alto índice de assassinatos registrados neste final de semana está fora da normalidade, mas é resultado da opção do governo do Estado pelo “desmonte” da Segurança Pública.

“No momento que ele [o governo] retira recursos da área da Segurança Pública, ele provoca uma desarmonia, que causa uma ausência do policiamento na rua. Infelizmente, uma coisa está ligada com a outra”, diz Agra.

“É óbvio que é uma situação que não surge agora. A violência e crimes contra a vida têm sido bem acentuados. Mas, esse recrudescimento é reflexo do desmonte da segurança pública”, corrobora Fábio Castro, vice-presidente da Ugeirm (Sindicato dos Escrivães, Inspetores e Investigadores de Polícia do RS).

Castro salienta que a recrudescimento da violência não surgiu no governo de José Ivo Sartori. Ele destaca que a maioria dos homicídios está relacionada à chamada “guerra do tráfico”. Contudo, afirma que, dada a atual política que considera ser de “investimento zero”, a expectativa é que a situação piore.

Fábio Castro: As pessoas que fizeram o concurso estão num limbo, pois não sabem se serão chamadas e não podem trabalhar em outro local (Foto: Filipe Castilhos/Sul21)
Fábio Castro critica o que chamou de política de investimento zero do governo Sartori | Foto: Filipe Castilhos/Sul21)

“Isso não surgiu agora, mas a tendência a piorar certamente tem que ser creditada na conta desse governo e na política de investimento zero”, disse Castro. “Se essa política permanecer, a tendência é aumentar [a violência] e isso afeta principalmente as comunidades carentes, que são as mais afetadas pela falta de segurança”, completou.

Além do congelamento e parcelamento dos salários dos servidores, Castro salienta que faz parte da política do atual governo o corte nas horas extras e o não chamamento de aprovados em concurso. O governo do Estado também cortou no início do ano a verba diária destinada a combustíveis para viaturas da Brigada.

Parcelamento desmotiva os servidores

Representantes dos servidores da Brigada e da Civil concordam que o parcelamento dos salários anunciado em 31 de julho – os servidores receberam apenas até o limite de R$ 2.150 – tem um forte impacto negativo na moral dos policiais.

Segundo Agra, além das dificuldades de recursos materiais, o parcelamento dos salários agrava a situação pois provoca um abalo psicológico e moral na corporação. “A PM do Estado tem o terceiro pior salário de todo o Brasil. Ainda tem o problema do parcelamento, que causa dificuldades de estímulo, de raciocínio e problemas familiares, então os policiais não estão trabalhando normalmente”, afirmou.

Em protesto contra o parcelamento, Agra explica que a BM está atuando em operação padrão desde o início do mês. “Só vamos realizar o nosso trabalho em plenas condições materiais e de equipamentos”, afirma. Por exemplo, os policiais deixaram de sair para a rua com coletes balísticos vencidos, o que antes era comum. Caso não haja um colete em condições à disposição, o policial não tem saído. Da mesma forma, a BM não tem operado com viaturas que não estejam em dia com as regras do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

Além disso, os policiais militares também deixaram de realizar eles próprios trabalhos de consertos em viaturas danificadas. “Era muito comum os próprios policiais consertarem viaturas com algum estrago por apoio à comunidade. Não está mais se fazendo isso e as viaturas estão paradas até que o Estado providencie o conserto”, afirmou Agra, salientando que isso acarreta em um tempo muito maior de retorno dos veículos à circulação.

No caso da Civil, Castro explica que os policiais “estão trabalhando dentro de suas condições de estrutura que o estado fornece”. Se antes era comum que policiais respeitassem o regime de plantão de sobreaviso, agora não é mais o caso. “Plantão de sobreaviso é algo totalmente ilegal, mas as pessoas se submetiam. Agora não vamos mais cumprir, até porque a gente não recebe mais para isso”, afirmou Castro.

Além disso, os policiais civis passaram a exigir a presença de uma autoridade policial, um delegado, em todas as ações em que a presença dela é obrigatória por lei, como flagrantes, mandados de busca e apreensão. “Normalmente, a gente faz sem”, salientou Castro.

Foto: Guilherme Santos/Sul21
Entidades pedem a convocação de aprovados em concursos que ainda não foram chamados | Foto: Guilherme Santos/Sul21

A operação padrão das entidades de segurança pública se estenderá até o dia 18, quando será realizada uma assembleia unificada de todas as categorias do funcionalismo público do Estado para analisar a possibilidade de greve geral dos servidores. Mais cedo, no mesmo dia, a Abamf realizará uma assembleia própria para decidir seu posicionamento. No dia 3, a BM já trabalhou com efetivo reduzido – a maior parte dos policiais permaneceu aquartelada e só respondeu a emergências – para protestar contra o parcelamento.

Para Agra, a tendência é que a situação piore nos próximos dias e após o dia 18. “No momento que uma parte da ostensividade não funciona, os criminosos avançam. A Civil não está fazendo mais as chamadas operações de investigação e desarticulação dessas quadrilhas, então eles estão correndo quase que soltos na sociedade”, afirma.

Assalto a bancos também crescem

Outro tipo de crime que tem se agravado é o de assaltos a bancos. Nesta segunda-feira, foram assaltados simultaneamente dois bancos na cidade de Imigrantes, no Vale do Taquari.

De acordo com levantamento do SindBancários, foram 11 ataques a agências apenas nos 10 primeiros dias do mês de agosto. Segundo a entidade, é o maior número de casos no mesmo período desde que o órgão começou a fazer tal levantamento. Em 2014, foram registrados seis casos. O recorde anterior era nove casos, em 2008 e 2012.

Em nota, a direção do SindBancários atribuiu o aumento do número de ataques a bancos aos “30% nos repasses de verbas para a área de segurança pública e em metade dos salários de policiais militares e policiais civis”.

O Sindbancários aponta que já são 140 ataques a agências bancárias em 2015.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado foi procurada para comentar as informações, mas até o fechamento da matéria não havia se pronunciado.

SUL21