RS: Primeiro dia de greve geral tem adesão maciça dos servidores públicos

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 Paralisação atinge cerca de 160 mil servidores da ativa; adesão dos professores chegou a 95%

PORTO ALEGRE – As mais importantes categorias de servidores públicos estaduais do Rio Grande do Sul contabilizaram adesões maciças à greve geral de três dias, decretada na terça-feira por uma assembleia que reuniu 43 entidades representativas do funcionalismo. Segundo o Cpers/Sindicato, que representa os professores, a adesão chegou a 95% dos 78 mil professores da ativa e 35 mil funcionários de escola em todo o estado. Na Polícia, a adesão foi total, segundo o sindicato da categoria.

A secretaria de Educação reconheceu que poucas escolas funcionaram no primeiro dia de greve — todas com turno reduzido e para poucos alunos. O órgão, entretanto, não divulgou um balanço oficial do movimento e justificou dizendo que as informações serviriam apenas para controle interno. A secretaria também informou que todas as escolas afetadas pela greve deverão elaborar um cronograma de recuperação para garantir a carga mínima de 200 dias letivos.

Nesta quarta-feira, não houve aula nos dois maiores colégios públicos de Porto Alegre, com a adesão dos docentes variando de 90% a 80%. A greve afeta 970 mil alunos da rede pública espalhados por 2.578 escolas.

As delegacias de polícia estão abertas, mas os policiais só atendem ocorrências graves e contra a vida, como homicídios e estupros. Casos corriqueiros, como roubo de carros e perda de documentos, devem ser registrados pela internet. As investigações, entretanto, estão mantidas.

Segundo o sindicato que representa os 5,5 mil escrivães, inspetores e investigadores de Polícia (Ugeirm), a adesão da categoria é total — agravada pelas condições precárias dos equipamentos. No Instituto Geral de Perícias (IGP), os serviços não foram suspensos.

— Apesar da pressão intensa do governo, 100% dos colegas estão em operação-padrão. Até os delegados estão apoiando o movimento — disse o inspetor Isaac Ortiz, presidente da Ugeirm.

Ortiz informou que o sindicato vai ingressar na Justiça com um mandado de segurança com pedido de habeas corpus para impedir que o governo corte o ponto dos grevistas — a medida foi anunciada na terça-feira à noite pelo governador José Ivo Sartori (PMDB). Segundo o advogado da Ugeirm, Luís Alberto Bergamaschi, o pedido é baseado numa decisão de 2012 do Supremo Tribuna Federal (STF). De acordo com ele, o corte só é possível se a greve for considerada ilegal ou abusiva pela Justiça.

Na Brigada Militar, 80% do efetivo de 28 mil PMs continuam na patrulha ostensiva nas ruas. A corporação anunciou nesta quarta-feira o início da Operação Dignidade, e que a estratégia é intensificar as blitzen contra prédios e veículos públicos que apresentem algum tipo de irregularidade. No Corpo de Bombeiros, os servidores pretendem fazer uma ofensiva para denunciar PPCIs (Planos de Prevenção e Combate a Incêndios) desatualizados em prédios de órgãos governamentais.

De acordo com o presidente da Associação de Cabos e Soldados da Brigada Militar (Abamf), Leonel Lucas, carros podem ser recolhidos e prédios interditados em caso de flagrante de irregularidade. A entidade editou uma cartilha para orientar os PMs a participarem da operação sem correr risco de enquadramento no estatuto disciplinar, o que pode resultar em expulsão.

Lucas avaliou que a insatisfação na categoria é grande e mandou um recado ao governador gaúcho:

— Caso o governo insista em projetos que atacam os direitos dos servidores públicos e não garanta o pagamento integral dos salários, no dia 31 de agosto acontecerá a Operação Fecha Quartel. Aí vamos impedir integralmente a saída de viaturas e de militares das unidades.

A greve geral dos servidores públicos foi decidida na tarde de terça-feira depois que uma assembleia conjunta que reuniu cerca de 30 mil pessoas referendou decisões setoriais tomadas em reuniões pela manhã. A assembleia reuniu adversários históricos, como professores e PMs. Depois do ato, os servidores seguiram em passeata até o Palácio Piratini.

A greve atinge cerca de 160 mil servidores da ativa em setores essenciais — além de escolas, Brigada Militar e Polícia Civil, técnicos-científicos, servidores de empresas públicas e fundações e serviços de saúde estão parados. A partir da próxima segunda-feira, com a volta ao trabalho, os funcionários públicos permanecerão mobilizados até o final do mês. Se os salários de agosto não forem pagos integralmente no dia 31, último prazo legal do governo, a greve será retomada por tempo indeterminado.

No início da noite, o governador reuniu a imprensa no Palácio Piratini e anunciou que cortará o ponto dos servidores que não trabalharem. Sartori disse que considera a greve “democrática”, mas que as razões para uma paralisação “não existiam”, já que os salários foram pagos. O governador não mencionou, porém, o atraso de 11 dias na quitação dos vencimentos.

— Continuamos dialogando, todos os servidores foram recebidos e atendidos em todas as épocas e em todas as horas. Nunca faltou diálogo e nem respeito. Mas determinei aos secretários que a partir de hoje presença será presença e falta será falta. Isso significa que o ponto será controlado e os dias serão descontados dos que não trabalharem — disse Sartori.

O GLOBO