“O nível de estresse está muito elevado”, afirma comandante regional da BM

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Foto: Claudio Vaz / Agencia RBS
Foto: Claudio Vaz / Agencia RBS

Coronel Worney Mendonça diz que policiais não estão preparados para enfrentar esse tipo de situação imposta pelo parcelamento dos salários

O momento vivido pelos servidores públicos do Estado é de tensão e pressão. Na Brigada Militar, o parcelamento dos salários dos policiais e as mobilizações de familiares em frente aos portões dos quartéis estão atingido em cheio o psicológico dos policiais militares.
Além do fato de segunda-feira, quando um grupo de PMs não conteve as lágrimas, na semana passada, pelo menos 29 policiais apresentaram atestados médicos por abalo psicológico.

Para o comandante do Comando Regional de Polícia Ostensiva Central (CRPO Central), coronel Worney Mendonça, a situação é constrangedora e o nível de estresse dos policiais está bem acima do normal.
Worney afirma ainda que se houver ainda mais casos, com a redução de policiais saindo para as ruas, a criminalidade pode crescer.
Worney também falou que há diálogo com os policiais e ninguém é obrigado a sair.

Além disso, o comandante explicou a questão das cestas básicas que foram oferecidas as policiais militares e admitiu que a prática de “bicos”, relatada por um policial para enfrentar o parcelamento dos salários, pode ser cada vez mais recorrente.

Veja os principais trechos da entrevista, concedida na tarde de segunda.

PSICOLÓGICO
“A situação que se passa hoje é constrangedora para os policiais, porque está se exigindo uma superação que vai além daquela que o policial está preparado para o dia a dia. O nível de estresse está muito elevado. Isso justifica o choro das policiais. O policial é preparado para outras situações e não para este tipo de situação que está ocorrendo agora, que estão afetando o seu dia a dia, o sustento da sua família”.

ATESTADOS
“Tivemos alguns que tiraram atestados, alguns já retornaram, outros estão entrando com atestados, isso é muito de cada um. Estamos em um nível de tolerância que nos é permito a lei. Aos comandantes, também temos o mesmo regulamento, que alcança do soldado ao coronel. Estamos tendo todo esse cuidado. É um momento crítico dentro da instituição”.

PROTESTOS
“Os protestos estão ocorrendo no lugar errado. Não é adequado fechar a frente dos quartéis. Tivemos a frente dos nossos quartéis fechadas por agentes da Susepe, da Polícia Civil e do Cpers, estamos evitando qualquer tipo de ação com relação a essas categorias. Esses protestos deveriam ser feitos em outros ambientes e não nos quartéis, porque temos policiais que querem ir trabalhar e só não estão indo para não haver uma ação contra as esposas e familiares dos próprios colegas”.

DIÁLOGO
“O diálogo é tranquilo, não estamos forçando ninguém a sair, para justamente evitar esse confronto com familiares. De certa forma, em alguns momentos, entendemos que ficamos reféns da situação. O policial é preparado para outro tipo de situação. Ele é preparado para enfrentamento com delinquente. Por isso, acho que esse choros das policiais se justifica. Eu, outro dia, chorei em uma entrevista ao vivo, porque eu também estou em uma situação de estresse e isso vai acumulando”.

CONFLITOS
“Não acredito e espero que não aconteça nenhum confronto com os familiares. Da minha parte estou juntando todos os esforços para que isso não aconteça, mantendo contato com os próprios policiais, com as esposas, não só eu, mas todos os comandantes, para que se evite isso”.

CRIMINALIDADE
“A criminalidade está se capitalizando, estamos vendo em todo o Estado, não só em Santa Maria. Se com a Brigada trabalhando no dia a dia, com todas as ações que vínhamos desenvolvendo, com essa presença de forma reduzida ou prejudicada na rua, até pela condição do próprio policial, a criminalidade vem se capitalizando, ocupando um espaço que, talvez, depois seja difícil de recuperar”.

APOIO
“Estamos precisando ouvir o que a comunidade pensa a respeito dessa situação. Até o momento, eu, como comandante, não ouvi de determinados segmentos da comunidade o apoio necessário que deveria ouvir. Não ouvi o apoio que os policiais gostariam de receber. Somos tão importantes no dia a dia para a sociedade, então, agora, os policiais estão precisando de uma palavra de apoio da sociedade”.

PUNIÇÕES
“Desde o início temos orientado os policiais. Eu mesmo expedi uma mensagem aos comandantes de unidades, me dirigi aos policiais, fiz reuniões com associações de todos os níveis da Brigada, para que orientassem os policiais até que ponto eles podem participar. Não sou eu que determino, é o regulamento da Brigada. Todos os policiais têm conhecimento do que eles podem e o que eles não podem. Até o momento não tivemos nenhum caso que tenha alcançado algum policial. Mas, não descartamos essa possibilidade, mas isso é muito do ato dele (policial)”.

CESTAS BÁSICAS
“Tivemos a oferta de cestas básicas, que foi bastante criticada. Na situação de comandante, se eu não aceito, sou insensível. Se aceito, estou aceitando esmola. Então, não aceitamos e pedimos que essas pessoas guardassem e estamos fazendo um levantamento. Apareceram vários policiais que acenaram que estão tendo dificuldade e que querem aceitar. Até o recebimento da segunda, terceira parcela, o nosso temor é que a situação vá agravando”.

BICOS
“É uma situação que pode se agravar. Isso já em uma condição normal, os policiais já buscam um segundo emprego. Não é de hoje que o salário da Brigada é um dos mais baixos do Estado. Então, sabe-se que o policial vem buscando uma segunda renda e certamente essa situação pode se agravar”.

Menos policiais nas ruas de Santa Maria, mais sensação de insegurança

Entre o começo da tarde de sexta e a manhã de domingo, ocorreram nove assaltos

Ainda é cedo e faltam dados para avaliar se a paralisação dos policiais militares está gerando mais crimes em Santa Maria ou no Estado. Mas a sensação de medo certamente está maior. Paralelamente à solidariedade com as famílias que estão sem receber integralmente os salários, os gaúchos convivem com o sentimento de insegurança frente a assaltos e aos boatos de arrastões e rebeliões.

À exceção de ontem, dia em que militares do Exército foram às ruas para saudar a Pátria, e nenhum roubo a estabelecimento foi registrado, nem na Polícia Civil nem pela Brigada, os dias anteriores foram de uma sucessão de ocorrências do tipo na cidade.

Entre o começo da tarde de sexta e a manhã de domingo em Santa Maria, ocorreram nove assaltos. No mais recente, as vítimas foram um casal de idosos, de 65 e 71 anos, que tem uma loja de materiais de construção no bairro Tomazetti, na região Sul. Armados com revólveres, dois homens entraram na loja e renderam os donos e o neto, de sete anos, que estavam no local. Os bandidos obrigaram as vítimas a deitar no chão enquanto pegavam dinheiro e objetos pessoais.

A filha do casal, Luciane Bitencourt, 36 anos, que tem um salão de beleza nas proximidades, conta que acionou a Brigada Militar (BM) pelo 190, logo após a saída dos bandidos do local, mas os policiais não apareceram.


– Disseram (a BM) que mandariam uma viatura, mas ninguém apareceu. Eles não vão mais abrir aos domingos, como faziam – diz Luciana, acrescentando que uma agropecuária e um minimercado foram alvos dos criminosos há pouco tempo.

A sala de operações da Brigada Miliar nega ter recebido a chamada na manhã de domingo.

DIÁRIO DE SANTA MARIA