O BATALHÃO DE FERRO

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O Baluarte Invicto da Brigada Militar

Romeu karnikowski
Romeu karnikowski

As unidades da Brigada Militar se dividem, historicamente, em três grandes grupos: as originárias militares ou especiais; as militares intermediárias que nasceram sob o signo das necessidades bélicas das guerras insurrecionais e as que foram criadas puramente sob o prisma do policiamento. No grupo das primeiras estão as originárias, que são as especiais, porque são as unidades formadoras da Brigada Militar e são quatro: 1º Batalhão de Infantaria, o primeiro entre os primeiros, o 2º Batalhão de Infantaria, o 3º Batalhão de Infantaria e o 1º Regimento de Cavalaria; as modernas militares são outras cinco: o 4º e o 5º Batalhões de Infantaria, o 2º e o 3º Regimentos de Cavalaria, além do Regimento Bento Gonçalves de escolta e guarda palaciana. Essas cinco unidades foram criadas numa instância mais moderna e também, como as originárias, forjadas nos combates das guerras insurrecionais, todas elas treinadas pela Missão Instrutora do Exército, a partir de 1909. Essas nove unidades, as originárias e as modernas, formam o tronco guerreiro, moldado no ethos bélico-militar que foi uma das características vitais da Brigada Militar, nos primeiros cinqüenta anos de sua história. Elas constituem a ossatura da Brigada Militar enquanto ela vigorou como exército estadual. Todas as demais unidades foram criadas para atender os objetivos constitucionais do policiamento, para cumprir a nobre missão de polícia e constituem fundamentalmente as unidades policial-militares da mais respeitada milícia do Brasil.

TIPOS DE UNIDADES DA BRIGADA MILITAR
Originárias Militares Modernas Militares Policiais Militares
1º BI, 2º BI, 3º BI e 1º RC 4º BI, 5º BI, 2º RC, 3º RC, RBG (4º RPMon) 6º BPM, 7º BPM, 8º BPM, 9º BPM em diante
EXÉRCITO ESTADUAL POLÍCIA

Entre as unidades que nasceram sob o signo das batalhas está o primeiro batalhão, o primeiro da mais respeitada e temida força pública do Brasil. Assim que foi criado em 21 de outubro de 1892, já partiu para a guerra federalista, onde combateu os libertadores também denominados de maragatos. O 1º Batalhão não nasceu para o policiamento, nasceu para defender as instituições nos campos de batalha, forjando o seu heroísmo insuperável. Na tremenda guerra civil de 1893, o 1º Batalhão de Infantaria, sob o comando do tenente-coronel Carlos Frederico de Mesquita, se integrou como unidade da 3ª Brigada da legendária Divisão do Norte comandada pelo general-de-brigada Rodrigues Lima. Albino Coutinho narra na sua estupenda obra Marcha da Divisão do Norte os feitos bélicos e os infinitos elogios do coronel Antonio Pedro Caminha, comandante da 3ª Brigada da Divisão do Norte, aos bravos do 1º Batalhão da Brigada Militar na defesa da República e do ideário de Júlio de Castilhos. O 1º Batalhão coberto de glórias, na dura luta contra um inimigo heróico e abnegado como foram os federalistas (maragatos), tomou parte na luta de dois gigantes na guerra civil de 1893: a Divisão do Norte e a extraordinária e também legendária Coluna do grande general Gumercindo Saraiva, o Stonewall Jackson dos federalistas. A Revolução de 1930 trouxe novos horizontes ao Brasil e com isso conflitos imensos, entre os quais a Revolução de 1932, onde brilhou definitivamente a glória do 1º Batalhão, sobretudo, no Combate de Buri, onde tombou heroicamente o seu comandante. Na tarde do dia 26 de julho, o batalhão avançou sob as ordens do então tenente-coronel Aparício Gonçalves Borges (1893-1932), que determinou ao seu major-fiscal a flanquear o inimigo bem postado. No entanto, sob o som estridente do seu clarim, cabo Timóteo Rosa, avançou temerário e sem medo, recebendo uma rajada de metralha. O 1º Batalhão todo estremeceu e tomado de ira e ferocidade avanço sob uma chuva de balas para resgatar o seu bravo comandante com seu não menos heróico clarim. Os brados, a coragem furiosa e o destemor diante da morte dos soldados do 1º Batalhão provocaram tanto espanto aos constitucionalistas que estes passaram a ser denominados de soldados de ferro e a unidade ganhou a alcunha de batalhão de ferro, que é a marca de sua grandeza. A morte do tenente-coronel Aparício Borges, insigne comandante do batalhão de ferro, assinalou o fim dos coronéis guerreiros da Brigada Militar onde se perfilam tantos nomes que entraram para história e para lenda do Rio Grande do Sul: tenente-coronel Fabrício Pillar (1856-1894), imortal comandante do 1º Regimento de Cavalaria e que tombou no Combate das Laranjeiras, em setembro de 1894, diante das tropas federalistas do lendário coronel Inácio Cortes; Afonso Emílio Massot (1865-1925), o professor de francês que se tornou comandante-geral e patrono da milícia gaúcha e seu irmão coronel Amadeu Massot, que também comandou o 1º Batalhão; o excelso Carlos Frederico de Mesquita, que bem poderia ser elevado ao patamar de uma espécie de patrono do batalhão que tanto amou e se dedicou; o coronel Cipriano da Costa Ferreira, que foi comandante-geral, mas que se imortalizou, com seu 2º Batalhão de Infantaria no Combate das Traíras em 1894 (Bagé); o general Salvador Pinheiro Machado criador da 4ª Brigada da Divisão do Norte, quando era intendente em São Luiz Gonzaga; tenente-coronel Emerenciano Braga, o bravo das Traíras e o coronel Claudino Nunes Pereira, comandante-geral e filho ilustre de São Luiz Gonzaga, entre tantos outros que definiram a era dos coronéis e soldados guerreiros da briosa e invicta Brigada Militar. E o canto de cisne dessa era gloriosa não poderia ser mais grandioso, assinalado pela morte em combate do seu comandante, na defesa dos ideais mais elevados do Brasil e de suas instituições, o 1º ganhou a denominação eterna de batalhão de ferro, atingindo o fulgor da glória da milícia gaúcha. No final dos anos 1960, guando a União destinou a exclusividade do policiamento ostensivo nos Estados às suas milícias, ele foi rebatizado de 1º Batalhão de Polícia Militar (1º BPM) com as funções pertinentes. Atualmente, o heroísmo dos seus militares está voltado para o difícil e desgastante trabalho de policiamento, na defesa e garantia da vida dos cidadãos e do patrimônio e na preservação da ordem pública. E na atribuição de policiamento ostensivo e preservação da ordem pública, o Batalhão de Ferro demonstrou o DNA da sua grandeza originária, impedindo o avanço da violência em algumas das áreas mais conflagradas da cidade de Porto Alegre, através de um duro e persistente trabalho executado com perícia, técnica e abnegação incomuns dos seus oficiais e soldados, dignos de seu renome, aferidos nos seus grandes feitos. Outrora o batalhão de ferro devotou em defender as instituições políticas do Estado e do Brasil e nos dias atuais, ele tem o elevado e nobre encargo constitucional, posto no art. 144 da Carta Magna, do policiamento ostensivo e da preservação da ordem pública, juntamente com todas as demais unidades da ínclita força pública do Rio Grande do Sul. Este é o 1º Batalhão da Brigada Militar, nascido para ser grande, glorioso e sublime, o imortal batalhão de ferro, baluarte invicto da mais gloriosa e respeitada das polícias militares do Brasil.

Romeu Karnikowski
Doutor em Sociologia pela UFRGS
ABAMF/RS