Gravataí: porque a morte nunca vem parcelada

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20151130112926Por Oscar Bessi

Gravataí, Centro, 14h45 de um quase dezembro. Um trio armado invade a ótica Fialho e anuncia o assalto. Gritos. Pânico. Medo. A Brigada Militar é acionada e uma guarnição intercepta o veículos com os criminosos. Mas estes não titubeiam: recebem os policiais à bala. O soldado Rafael de Ávila de Oliveira, um jovem de apenas 30 anos, é atingido no tórax. Era a sua última ocorrência.

O tiro entrou em seu corpo onde o formato do seu colete de proteção considerava alvo imprevisível. É assim.  O destino é um alvo imprevisível.

O soldado Rafael se foi. Talvez uma de suas preocupações, nesta segunda-feira de sol envergonhado, fosse o parcelamento do seu salário. As contas. O décimo terceiro que não vem, o final de ano, o sorriso amarelo à família que, com ele, divide as dificuldades de sua escolha profissional.

Mas, ao saber do assalto, ele foi. Sem parcelar sua vontade. Com gana de trabalhar, de proteger, de resolver a ocorrência. De lutar pela sua sociedade e o seu povo, seja que nome ou status tiver. De honrar os tributos que esta gente sofrida paga, para muitas vezes apenas beliscar alguns farelos de cidadania.

A dedicação de Rafael, assim como a de seus colegas, nunca foi parcelada. Foi integral. Sempre.

Sua disposição de morrer pelo que não é seu, pelo que jamais seria seu, de arriscar a vida por quem sequer conhece, nunca foi parcelada.

Seu amor ao povo gaúcho nunca foi parcelado. E só quem ama, e ama muito, é capaz de se oferecer ao risco por aqueles que decidiu proteger. E haverá maior ato de amor, na natureza, do que oferecer proteção?

Como as asas dos pássaros. Como as asas dos anjos.

O respeito de Rafael pela cidadania nunca foi parcelado.

Mas andam parcelando a consideração que merecem ele e seus colegas. A consideração que merecem os policiais que não deixam de cumprir seu dever, como merecem também os professores públicos que, abandonados, dão aulas nos cantos esquecidos em meio à violência.

Por nada. E um nada parcelado. Respeito parcelado.

Mas a dor, esta nunca será parcelada. Nunca.

Rafael deixa este plano no cumprimento do dever. Com o respeito máximo de seus colegas de serviço, de seus amigos e familiares, dos bons cidadãos deste terra.

E sem ter a chance de ter sido respeitado por quem mais deveria fazê-lo.

CORREIO DO POVO