“Sempre levarei o sorriso dele comigo”, diz viúva de PM morto em Gravataí

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Jeniffer guarda as recordações em todos os lugares da casa | Foto: Fabiano do Amaral
Jeniffer guarda as recordações em todos os lugares da casa | Foto: Fabiano do Amaral

Família pede justiça, porém, os responsáveis pela tragédia não estão todos presos

Três tiros foram suficientes para modificar o destino de quatro pessoas. E revoltar milhares. O soldado Rafael de Ávila Oliveira, 30 anos, que atuava no Pelotão de Operações Especiais do 17º BPM, foi morto dia 30 de novembro, às 15h30min, em Gravataí, enquanto tentava intervir no roubo de uma joalheria que estava sendo atacada por criminosos.

Durante a ação, duas balas atingiram o coração e uma outra o tórax do soldado. Ainda vivo, ele chegou a ser levado ao Hospital Dom João Becker pelos colegas, mas não resistiu. Naquele dia, o retorno para casa não ocorreu às 20h, como estava programado. O jantar também não foi servido na moradia 160 da rua Taquara Salazar no bairro Santa Cruz.

Mais de 40 dias após a segunda-feira cinzenta, assim descrita pela família da vítima, a telefonista Jeniffer Santos de Souza Oliveira, 26, teve que deixar o emprego para cuidar dos dois filhos do casal. Rafael fazia isto nas horas de folga. A esposa também teve que empilhar em uma caixa de papelão os livros da faculdade de Direito, que o companheiro cursava havia um ano.

Rafael queria ser capitão. Junto dos livros estão os acessórios que compunham a farda, o cinto, roupas íntimas e a bandeira do RS que cobriu o caixão no dia da despedida. As lembranças também estão guardadas no armário do quarto. “As camisetas já estão perdendo o cheiro do meu marido”, lamenta.

A esposa carrega no dedo a aliança nova que mandou fazer para celebrar as Bodas de Madeira. O casal comemoraria cinco anos de união dia 30 deste mês, com uma festa. Logo depois, pretendiam mudar de residência. Jeniffer tenta dar continuidade à vida. Para isso, ela estuda para passar em concursos e pretende também cursar Direito. “Vou tentar ser feliz, lembrando como ele era. Um homem carinhoso, engraçado e que tinha um sorriso bonito. Vou levar o sorriso dele comigo”.

Apenas um pedido: justiça

Apesar de os dias terem passado, a revolta que paira sobre a morte do soldado ainda é grande. Rafael foi vítima, como tantos homens de farda e cidadãos comuns, de criminosos. Ele caiu e levantou durante os tiros, para depois nunca mais ficar em pé. “A gente ainda não acredita no que aconteceu”, lembra José Cardoso Souza, 53, sogro da vítima.

Hoje, ele tenta diminuir o sofrimento da filha e netos. “No enterro, um dos meus netos perguntou quando o pai iria sair daquela caixa. Isso acabou comigo.”

A família pede justiça. Porém, os responsáveis pela tragédia não estão todos presos. Cinco criminosos já foram identificados e indiciados. Dois foram presos em flagrante, um está foragido e outros dois aguardam a decisão da Justiça em liberdade.

Segundo o titular da 1ª DP de Gravataí, delegado Alencar Carraro, as investigações estão em andamento. Se os bandidos forem condenados à pena máxima devem pegar 80 anos de prisão. Porém, pelas leis brasileiras ninguém cumpre mais de que 30 anos de detenção.

Nova história a ser construída

Os pequenos Ryan Henrique, 4 anos, e Arthur Pierre, 3, desde o dia que o soldado Ávila não voltou para casa e não os colocou mais para dormir, começaram a questionar. “Falo que o papai é uma estrelinha e cuida deles lá de cima das nuvens”, conta Jeniffer, mãe dos meninos. “Ele (Rafael) rolava no chão, brincando com os meninos”, lembra a mãe, ressaltando que os três primeiros dias após a morte foram os piores que a família já enfrentou.

CORREIO DO POVO