CORREIO DO POVO: Guerra do tráfico espalha terror em Porto Alegre

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BM auxilia família pressionada por traficantes | Foto: Brigada Militar / Divulgação / CP
BM auxilia família pressionada por traficantes | Foto: Brigada Militar / Divulgação / CP

Polícia registrou 584 homicídios em 2015

A guerra do tráfico vem disseminando o terror nas ruas da Capital. A violência atingiu níveis assustadores. De acordo com policiais, a maioria das ocorrências é fruto da disputa entre gangues de traficantes, que se digladiam pela hegemonia em uma determinada região. Um dos delitos com relação direta com o tráfico é o homicídio. “Cerca de 80% dos assassinatos possuem alguma relação com o tráfico de drogas”, afirmou o diretor do Denarc, Odival de Souza Soares. No ano passado, a Polícia contabilizou 584 assassinatos, em Porto Alegre.

Porém, não é somente os homicídios que são instigados pelo mundo das drogas. Outros crimes também têm ligação direta com o consumo ou venda de entorpecentes. É o caso do furto e roubo a pedestres, residências e estabelecimentos comerciais. “O furto é o crime que está mais relacionado ao usuário de drogas”, apontou Soares.

A insegurança sentida pela população também tem em sua raiz a histórica pulverização do tráfico de drogas na Capital. Os traficantes estão espalhados por diversas regiões da cidade, desde a Vila Cruzeiro, na zona Sul, até os bairros Vila Jardim e Bom Jesus, na zona Leste, onde nos primeiros 18 dias do mês passado pelo menos 17 pessoas foram assassinadas.

O diretor de Investigação do Denarc, delegado Mário Souza, concorda que o tráfico potencializa outros crimes. “O traficante pode ceder armas e drogas para outros tipos de criminosos”, comenta. Entretanto, Souza ressalta que o entorpecente não é o único fator que potencializa o crime. “O tráfico de drogas é uma mola propulsora da criminalidade, mas ele não é o único”, opina o delegado, lembrando que há outros fatores que contribuem para o incremento da violência. “A questão social é uma delas e está presente nas principais áreas onde há o tráfico de drogas, como é o caso da Vila Cruzeiro”, salientou.

O diretor de Investigação ainda destaca que o tráfico vem sofrendo perdas. Souza dá como exemplo a Operação Gênesis, ocorrida em outubro do ano passado, quando foram presos 46 suspeitos. Além das detenções foram cumpridos 100 mandados de busca e apreensão, resultando no fechamento de diversos pontos de venda de entorpecentes. “Foi um ataque avassalador ao tráfico de drogas na Restinga”, comentou Souza. “Foi perceptível a queda dos homicídios na região após a ação”, alegou. Segundo Souza, um dos objetivos do Denarc é a realização de mais operações especiais nas áreas sensíveis de Porto Alegre. De acordo com ele, a maneira correta de lidar com o tráfico é tirando o capital das quadrilhas de traficantes e dificultando o acesso ao entorpecente. “A nossa função não é acabar com o tráfico, mas controlá-lo”.

“É preciso cortar o mal pela raiz”

Proteger a criança e o jovem das drogas é a maneira de cortar o mal pela raiz, na opinião do diretor de Investigação do Denarc, delegado Mário Souza. Segundo ele, o círculo vicioso formado entre traficante, droga e usuário precisa ser rompido. “A droga é a causadora do problema. Ela traz o vício e o traficante. E se existe o tráfico é porque há usuários”, argumentou o diretor de Investigação do Denarc.

Crianças e adolescentes, conforme Souza, são os alvos dos traficantes. Os criminosos cooptam esses jovens para serem soldados do crime ou usuários. Como forma de barrar a ação do tráfico, o Denarc promove a Operação Anjos da Lei. As equipes da instituição prenderam vários traficantes que atuavam perto de escolas. “É uma operação híbrida, que atua na prevenção e repressão, visando retirar o traficante das ruas”, ressaltou Souza. O delegado ressalta a necessidade de um trabalho de prevenção. “É preciso prevenir o jovem para diminuir o consumo do cigarro de maconha. Sem demanda, não tem droga”.

Escolta para mudar de casa

Um homicídio, a expulsão da família do suposto autor do crime de casa e outro assassinato em represália ao primeiro: esta foi a sequência ocorrida durante o dia 11 deste mês no bairro Nonoai, na zona Norte da Capital. A disputa pela hegemonia no tráfico de drogas, promovida por facções que ocupam a vila Cantão e a vila Formiga, é a origem desse espiral de violência. O clima de tensão fez com que brigadianos do 1º BPM ajudassem os avós e tios do suposto autor do assassinato a recolherem seus pertences para abandonarem o imóvel em que viveram por mais de 30 anos.

O estopim da pressão foi o atentado a tiros sofrido por dois irmãos, integrantes da comunidade da vila Cantão. Eles foram baleados no início da manhã. Ambos foram perseguidos por um Fiesta. Três homens com toucas ninjas desceram do carro e desferiram vários tiros contra os irmãos. Felipe Rafael Ilha Lopes, de 31 anos, morreu no local. A outra vítima foi levada ao HPS e sobreviveu. O irmão ferido teria dito que um dos autores dos disparos seria um homem conhecido como “Cachorro”. O irmão sobrevivente não tem antecedentes, assim como Felipe também não tinha passagem pela Polícia.

Segundo a BM, Cachorro residia na vila Cantão, mas passou a morar na Formiga. Ao terem conhecimento do suposto envolvimento de Cachorro no crime, os integrantes de uma quadrilha rival exigiram a expulsão dos familiares do suspeito. “A família ligou para o 190 e pediu apoio para conseguir sair da vila”, disse o comandante interino do 1ºBPM, major Sérgio Rocha. Os brigadianos que foram ao local não se limitaram em proteger as pessoas, mas também ajudaram a transportar os pertences.

Fonte:Marco Aurélio Ruas/Correio do Povo