OSCAR BESSI: Caminhar com medo em Porto Alegre

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Lojas fecharam as portas antes do horário previsto
IMAGEM ILUSTRATIVA

POR OSCAR BESSI

O centro histórico de Porto Alegre é lindo. A Cidade Baixa também. Mas, dias desses, pude perceber a tensão das pessoas ao caminharem nestes lugares. E era de dia. Final da manhã, início da tarde. Eu resolvia questões burocráticas – e como são chatas essas questões burocráticas, como exigem retrabalhos e taxas apenas por detalhes! – e resolvi, para fazer hora, caminhar pelo centro.

Pois bem. Eu seguia num ritmo calmo. Não sou do tipo que dá bandeira para assaltante. Não uso celular, não uso relógio ou óculos de sol, gosto de me vestir discretamente (bermuda, camiseta, sandália, essas coisas), então sigo invisível. No máximo a minha bolsa de livros poderia despertar a atenção de algum larápio. Mas bolsa de livros ninguém rouba.

Pois bem. Eu fui atravessar a rua e uma moça, que falava ao celular, seguia na mesma direção, um pouco mais à frente. Ela percebeu que eu estava atrás dela. Era coincidência, repito. Atravessávamos a rua, quase em frente à prefeitura da capital, e não havia muita opção. Mas ela passou a espiar com frequência, como se sentisse seguida, ficou nitidamente nervosa e mudou o caminho. Depois, de longe, me olhava de soslaio. Medo.

Passeia perceber que a cena se repetia. Na Rua da Praia eu seguia meu ritmo calmo de andar. Vez em quando alguém ficava próximo, com passos semelhantes, e pronto. Batia a desconfiança e a pessoa ou acelerava seu ritmo ou mudava de rumo. Sempre me espiado disfarçadamente.

Medo. Medo de quem está próximo por algum tempo num lugar onde todos estão próximos o tempo inteiro.

Certo, já vi mais policiamento nessas ruas centrais, noutras épocas. Mas não fui assaltado. E não presenciei nenhum assalto. Mas deve ter acontecido algo, eu era apenas um nada naquela multidão e perdido numa geografia imensa. Há possibilidades de que as coisas aconteçam? Há. Mas a facilitação, o contexto favorável para isto se torne cada vez mais rotina, transforma o cotidiano dos cidadãos em algo tenso, desconfiado, doentio. Estressante.

Será que são os grandes laboratórios de tarjas pretas que estão financiando a insegurança pública brasileira?

CORREIO DO POVO