Capitão da BM leva projeto de policiamento comunitário a Guiné-Bissau

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CAPWasenkeski está no continente africano desde fevereiro em missão de paz da ONU

“Quem não treinou sua humildade com o passar do tempo, terá muita dificuldade na vida, mas muita mesmo”.

Essa já é a principal lição que o capitão Wagner Wasenkeski, 36 anos, aprendeu em apenas dois meses participando de Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU) na Guiné-Bissau. Até então comandante do Policiamento Comunitário e coordenador da chefia operacional do 3° Batalhão de Polícia Militar (BPM) de Novo Hamburgo, o capitão Wasenkeski desembarcou em 19 de fevereiro deste ano no país africano, em meio a um clima tenso de instabilidade política, diante da iminente possibilidade de um golpe de Estado e entre relatos de ataques terroristas frequentes nos países vizinhos.
Porém, nem isso, nem as ruas e estradas destruídas, a falta de água e de energia elétrica, o calor que passa fácil dos 40 graus e a saudade de casa tiram o foco do capitão para cumprir a missão que lhe foi dada. Disposto a ajudar sem medir esforços, o capitão usa a experiência do dia a dia no Vale do Sinos para tentar levar paz e segurança ao povo guinense. Em 21 de março, junto de uma comissão oficial, ele deu início a uma viagem que percorreu cidades do interior, além da capital, Bissau, para levar aos efetivos locais a implantação do projeto de Reforma da Polícia de Ordem Pública.
“Percorremos ilhas com barcos, passando pelas mesmas rotas dos conquistadores portugueses, cruzamos as regiões do interior da Guine-Bissau divulgando os valores do modelo de polícia comunitária, falamos sobre direitos humanos, integração da polícia com a comunidade, alertamos sobre o correto e o não correto uso da força, sobre a eficácia do trabalho de polícia em conjunto com as pessoas da região”, conta. As visitas foram detalhadas em um relatório entregue ao escritório de paz da ONU no país, indicando as possibilidades para a implantação do Modelo de Policia Comunitária.
Durante a viagem, o capitão Wasenkeski conta que teve a oportunidade de vivenciar de perto a cultura local, alimentando-se, dormindo e passando até algumas necessidades que são habituais para os moradores. A previsão é de que a missão dure um ano, ou seja, ainda há 10 meses pela frente no continente africano. “O caminho é longo, mas já temos muitos frutos, como a atuação na reforma da polícia local e divulgação do policiamento comunitário”, avalia.
Orgulho para a corporação

 

Capitão da Brigada Militar na Guiné-Bissau
Foto: Arquivo Pessoal Capitão da Brigada Militar na Guiné-Bissau

Há oito anos na Brigada Miliar, o capitão Wasenkeski vem de uma família de militares e se inspirou no pai, Estanislau Wasenkeski, coronel da reserva da BM, e no tio, Evaldo Wasenkeski, que integrou uma missão de paz na década de 60, para seguir para Guiné-Bissau. Agora, leva ao país africano um jeito diferente de fazer policiamento para os guineses, que propõe uma relação mais próxima com a comunidade.

“Nem sempre os oficiais da ONU têm essa capacidade que ele tem, essa experiência com polícia comunitária, e ele conseguiu levar esse aporte para a ONU. Já neste primeiro momento, conseguiu uma grande interação, está representando muito bem a Brigada Militar e o Rio Grande do Sul”, diz o chefe da sessão de pessoal do comando regional 3º Batalhão Comando Regional Vale do Sinos, major Cilon Freitas da Silva.
Realização de um sonho
O capitão Wasenkeski é natural de Porto Alegre e viveu a infância entre Montenegro e Novo Hamburgo. Desde a juventude, quando participou do Curso de Liderança Juvenil (CLJ) por 13 anos, gostava de ajudar as pessoas. Em 2004, alistou-se para o programa de voluntariado aos vitimados do Tsunami de 2004 e participou de uma missão médica na Amazônia em 2005. Há um ano e meio, quando o Comando de Operações Terrestres do Exército abriu inscrições para a missão de paz, o militar decidiu se alistar. Depois que sua inscrição foi homologada, ele teve de uma série de provas e entrevistas para então participar de um treinamento no Rio de Janeiro antes de embarcar.
País devastado

 

País apresenta uma série de problemas socioeconômicos
Foto: Arquivo Pessoal País apresenta uma série de problemas socioeconômicos
Localizada na costa ocidental da África, Guiné-Bissau, assim como o Brasil, foi colônia de Portugal, mas só conquistou sua independência em 1974. Desde então, nunca um presidente conseguiu cumprir um mandato, em um cenário político marcado por divergências que envolvem partidos representados no parlamento.
A religião predominante é o islamismo e o país apresenta vários problemas socioeconômicos, o que o coloca entre um dos seis piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do planeta. A maioria da população vive a baixo da linha de pobreza, com menos de 1,25 dólar por dia, e a expectativa de vida é uma das menores do mundo, de 46 anos.
De acordo com Wasenkeski, o país está devastado e é necessário restabelecer a segurança pública para que possam ser constituídas as estruturas de paz. Conforme a Unicef, a Guiné-Bissau também está entre os 30 países que aparecem em um estudo sobre mutilação genital feminina. O país presencia com frequência ataques terroristas bem próximos de suas fronteiras.
Entrevista
Como tem sido esta experiência na Guiné-Bissau?
Capitão Wasenkeski – Tem sido muito boa. Os colegas de missão ajudam-se mutuamente. Somos de vários países e um colabora com o outro naquilo que pode. Vivemos um clima de partilha e solidariedade, exatamente o que se prega em missão de paz. O povo daqui é acolhedor, me tratam muito bem e sabem que viemos para ajudar. Uma pena o clima tenso.

 

Capitão levou projeto de policiamento comunitário para o país africano
Foto: Arquivo Pessoal Capitão levou projeto de policiamento comunitário para o país africano
Quais as principais dificuldades enfrentadas?
Capitão Wasenkeski – As principais dificuldades aqui são a falta de meios no país para executarmos as operações de consolidação da paz. A ONU dá suporte, mas as estradas e ruas das cidades estão destruídas, às vezes o deslocamento para as regiões fica dificultado, falta água, luz, o calor passa de 40 graus, os militares e policiais militares frequentemente contraem malária, a água não pode ser bebida diretamente de casa, deve ser sempre comprada. Em muitos locais não existe água encanada e sim de poço. Energia elétrica em sua maioria é de gerador. Às vezes a dificuldade com a língua local complica os trabalhos. O povo fala em sua maioria crioulo, nem todos compreendem o português. A saudade de casa, dos amigos, da família constituem grande fator a dificultar o trabalho. Sem contar os ataques de extremistas nas proximidades do país, como Costa do Marfim, Mali, Saara Ocidental, Sudão do Sul, etc. Fora as mortes de boinas azuis no Congo e Mali, somando se mais de 60.
O que já aprendeu nesta missão?
Capitão Wasenkeski – Em dois meses já de missão, apreendemos muitas coisas. A principal delas é que quem não treinou sua humildade com o passar do tempo, terá muita dificuldade na vida, mas muita mesmo. Nem sempre viveremos no conforto. A vida é muito dinâmica e nada se sabe sobre o futuro. Se não tivermos treinados para viver no simples ou para servir, se um dia houver essa necessidade, não se saberá como fazer, não se saberá se superara e principalmente não saberá pedir ajuda. Nisso consistirá seu fracasso. A nobreza do povo guinense evidencia-se no fato de que sabem pedir ajuda. Quando embarquei do Vale do Sinos para a missão de paz, um sonho de adolescente cristão, militante do Curso de Liderança Juvenil (CLJ), paróquia Pão dos Pobres de Porto Alegre, me disseram: “Parabéns, você é uma pessoa especial”. Eu respondi: “obrigado, obrigado mesmo, mas eu não sou especial e sim eles, o povo local. Afinal de contas, uma missão internacional inteira foi organizada por eles e para eles. Portanto, eles são os especiais. Quanto a mim, sou apenas mais um servo, de tantos. E outros virão depois de mim”

 

Apesar das dificuldades do país, o capitão encontrou sorrisos
Foto: Arquivo Pessoal Apesar das dificuldades do país, o capitão encontrou sorrisos
E como você lida com a distância da família?
Capitão Wasenkeski – Aprendi aqui nesse pouco tempo também, que não importa se você tem dinheiro, se é branco, preto, verde ou azul… Se é terrorista ou soldado da paz, Faca na Caveira ou Proerdiano, ou qual o posto que você ocupa. Quando você estiver sozinho, longe de casa, longe das pessoas que ama e das pessoas que lhe amam, voce se tornará um ser humano igualzinho a qualquer outro. Você precisará de amigos, de gente para lhe ajudar, de colegas para conversar, alguém para até mesmo lhe oferecer comida, água… Algo que na sua casa você tem com fartura. Mas você não estará em casa. De outra banda, a vida também é feita de decepções. Então não se deve dar valor demasiado as pessoas que a vida inteira você esperava que lhe dessem valor. A estas, diga simplesmente: “Vá com Deus, eu tenho Força e honra”.
Como fica a comunicação com a família?
Capitão Wasenkeski – Não é muito fácil. Tenho mantido contato com esposa (Rosana Correia) e família através do WhatsApp, embora a Internet seja muito lenta, o que dificulta uma maior interatividade. Eles me apoiam bastante, pois a saudade é grande.
DIÁRIO DE CANOAS