OSCAR BESSI: A ditadura do medo

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TGFPor Oscar Bessi

A s notícias apavoram. No jornal, TV ou rádio, nas conversas de mercado e no ônibus. Alguém conta que foi assaltado. Ou foi algum dos seus. Ninguém parece escapar. E tudo é muito banal. Qualquer um, a qualquer hora, em qualquer lugar. A nuvem de medo é pesada e asfixia. E o conselho de recuo se repete como um débil e gasto discurso oficial, diagnóstico de que a toalha está jogada, os poderes públicos se renderam, se é que entraram na luta, e a sociedade fica acuada, presa entre proibições e temores, subjugada pela violência. Não faça isso, não faça aquilo, não fique aqui nem acolá, não use, não ande assim ou assado, não saia de casa. Não, não, não! E não reaja. As vozes da derrota. O eco chega aos que veem no crime um negócio seguro, ou que fazem da insegurança sua fonte de renda. Eles sorriem. O direito de ir e vir está nas mãos deles. Absurdo, se render. Então nossa vontade e liberdade, nossos passos e prazeres, nossos direitos mais básicos são delimitados por criminosos? Já não basta abdicarmos de toda e qualquer beleza arquitetônica nesta cidade para nos enfiarmos em tocas de concreto soterradas por grades? Percebam como é feia a cidade sob os ferros do medo. Não há casa em que se arrisque um palmo de fresta descoberta. Como não há meio metro urbano sem ameaças por todos os lados sobre cães ferozes, choques fatais, alarmes, câmeras e o escambau. O problema é que a cada passo de recuo, cedemos terreno aos criminosos. Oferecemos o espaço ao domínio deles. É como terreno fértil: plante e nascerão flores e frutos, ou abandone ao vicejar dos inços. O que queremos? Não seria mais lógico o sujeito que anda fora da lei estar acuado, e não nós? Não. Quem é louco o suficiente para se arriscar? Temos medo de morrer. E anda se morrendo por nada, cada vez mais. Por bens materiais descartáveis, surrupiados para alimentar máfias nascidas de um consumismo canceroso, mercantilista e desumano. Ainda mais que sabemos, não há vontade de mudar isto. E a fórmula nem seria tão complexa. Em resumo, investir no aparato de segurança pública, que garante a execução e cumprimento das leis, e investir ainda mais pesado em educação e cultura, para que a fábrica de novos bandidos cesse a sua produção tresloucada e que uma geração mais humana, com sensibilidade e respeito ao próximo, ocupe os espaços. Mas é justamente onde governos cortam investimentos. Mesmo que tantos recursos se percam em desvios. O resultado está aí, é uma guerra injusta, na qual quem deveria acabar com isto faz o contrário, abastece o caos. Aos de bom senso, resta se esconder. E aos ousados, que amam sua liberdade acima de tudo, sobra correr entre os tiros.

CORREIO DO POVO