Parcelando a valentia

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Sem títulodddUm dia sendo homenageado como herói, no outro dia  sendo humilhado por não ter saldo suficiente para  liquidar suas dívidas

Dois movimentos realizados pelo governo do Estado ao longo desta quinta-feira expuseram um paradoxo, no mínimo, coincidente. Em poucas horas de diferença, autoridades do Rio Grande do Sul, sob muita pressão, congratularam os Policiais Militares que mataram quatro bandidos, semana passada, em frente a um hospital de Porto Alegre. Em uma diferença inferior a dois turnos, o mesmo governo, através da secretaria da Fazenda, anuncia o parcelamento dos servidores em nove vezes. Dependendo do salário do funcionário, ele poderá ser esquartejado em até movimentos.

Talvez a cena-símbolo da atual condição financeira do Estado tenha sido ilustrada nas imagens que percorreram o mundo, onde quatro policiais armados com pistolas e a bordo de um Chevrolet Prisma, vergaram marginais em carro importado, fuzis, além de um calibre de restrição militar.

Ontem, mais do que nunca, qual o sentimento do policial que ostenta uma medalha na farda por entendida bravura, ao mesmo tempo que terá que selecionar as contar a serem pagas? Quis o destino, ou seja lá qual for o fenômeno, que a condição decisiva tenha aparecido uma semana antes do pagamento dos ordenados. E se fosse nessa sexta-feira, com cerca de 60% do salário na conta, será que a postura seria a mesma?

Não devemos entrar no mérito, no julgamento e na hipótese da ação de um policial. Trata-se de um serviço inútil. Entretanto, é preciso refletir sobre outro ponto: colocar o trabalho da Brigada Militar (ou as demais categorias) em dúvida a partir de um descompromisso do próprio empregador.

O governo José Ivo Sartori brinca com setores nobres de um Estado. Embora alegue recessão e escassez de recursos, a situação é inaceitável. Antes de se eleger, o nobre peemedebista defendia investimento prioritário nas respectivas áreas. Não tinha noção do precipício que se encontrava? Ainda em setembro do ano passado, acelerou a tramitação para o tarifaço que desencadeou o aumento de serviços básicos sob a justificativa de acabar com o drama do salário pingado. No segundo mês de gasolina a mais de R$4, os servidores estaduais voltaram a receber salários às mínguas. O pior: a tendência é que nos próximos meses a situação piore. A valentia dos policiais? Corremos sérios riscos de termos o comportamento parcelado.

FONTE: Jornal da Manhã