Oscar Bessi: Carta a Jovens Policiais

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Foto: eu, jovenzinho, há quase três décadas, vivendo meus primeiros dias nas fileiras da vida escolhi. Rastejando atrás de sonhos. Sinto decepcioná-los: eles continuam os mesmos.

Por Oscar Bessi

A pedido de dois leitores muito queridos, assinantes do CP, vou republicar aqui no blog este texto, que saiu numa edição impressa do Correio do Povo em 2013. Claro, aproveitei para fazer alguns mínimos ajustes.

Querido leitor desta, cuja vida ainda tens por viver. Quem te escreve traz uma vida a contar. O bom de nossas caminhadas humanas é que, em determinado momento, elas nos fazem carregar duas malas pesadas. Uma de acertos e vitórias, nem todas conscientes. Outra de erros e equívocos que, precisamos admitir, alguns talvez tenham sido até necessários, outros simplesmente abalizados por qualquer julgamento de instante. Ser humano é assim. Ser imperfeito.

Há um momento, entretanto, em que paramos à beira de nossa própria estrada, querendo ou não, e abrimos estas malas. Contemplamos o que dela salta: nossos passos, nossos pesos. E, quase em defesa de nós mesmos, pensamos no que pode ser deixado ali pelo caminho, antes de prosseguir. Aí descobrimos que nada é descartável. Nem o que não gostamos. O que foi feito está feito, está vivido e sentido, só resta transformar em lições. A grande sacada de nossas vidas: a possibilidade de aprender. E então ensinar.

Será sempre a primeira lição: ter cuidado. És único, sem superpoderes. Mas ninguém te tolerará imperfeito, ainda que continue humano. Terás poder sem ter poder algum, pois o que fizer ou cercear não será em teu nome, mas em nome de um povo. Terás que pensar por ele. Decidir e optar por ele. Matar ou morrer por ele. Quase sempre em átimos, cacos de instante. E por teus atos serás sempre e até severamente questionado por qualquer um que se sinta prejudicado ou ofendido, ainda que tenhas agido pleno de razão e apuro. Nem sempre a justiça dos homens é justa. E a divina te parecerá desatenta. No vão destas, um desejo quase incontrolável justiça pelas próprias mãos arderá na alma inquieta. Eis o pior remédio.

Não te habitues à espera do elogio. Os beberrões amaldiçoarão tuas providências, mas culparão tua ausência pelas mortes na estrada. Os manifestantes jogarão pedras em ti, não nos governos que dizem combater. O traficante será denunciado pela mesma sociedade que aprecia suas drogas e as consome cada vez mais. Os que considerarão barbárie o ato do assaltante, mudarão de alvo caso a tua indignação deixe escapar um gesto a mais de raiva ao prendê-lo. E os que gritam contra a impunidade, ah, estes serão os mesmos a negociar contigo, entre sussurros, as multas de seu carro.

Só as crianças e as vítimas te olharão com algum sonho.

Eleger-te-ão a imagem da injustiça. E a foto de quem bem sabes que a semeia todos os dias, ao teu redor, ao redor de todos feito uma serpente em seu bote, não te acompanhará. Levarás contigo um amor alvejado de ódios. Serás continuamente heroico, invariavelmente anônimo. Quase sempre invisível. Diariamente alvo.

E alguém te oferecerá vantagens. Lucro em tua própria ausência, ou glórias efêmeras, medalhas ou posições sob exemplos distorcidos. E te oferecerá valores que, talvez, quem deveria te dar já esqueceu.

Aí, verás se tua dignidade tem preço. Pois também há um preço no sustentar de tua família.

O que sai mais caro?

No compromisso que juraste, saberás quem paga a conta e quais são os caminhos de luta. Terás a chance da escolha. Pense no corpo que adoece e se entrega, ou resiste à chaga. Pois há alguém que leva teu amor, perto ou longe de ti, e este alguém está sob os cuidados de um colega teu. Que vive os mesmos dilemas. E que também fez as suas escolhas.

CORREIO DO POVO

VÍDEO INTERNET POSTADO NO ARTIGO PELA ABAMF (VALE A PENA ASSISTIR)