OSCAR BESSI: Pacote sem tampa

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TGFPor Oscar Bessi

Quinta-feira, após o anúncio do “pacote” do governo estadual, o sentimento dos profissionais de segurança pública gaúchos era de frustração. Ou de aceitação. Afinal, só se confirmava o que já era esperado. “Melhor que nada”, e um beiço torcido, era o comentário mais positivo que se ouvia entre os que labutavam, naquele momento, contra o crime nas ruas, delegacias, quartéis, presídios, salas de perícias e viaturas pampa afora, enquanto a Rádio Guaíba e o Correio do Povo faziam chegar a todos as novas notícias das ações. Pelo menos o governador reconhece que essas são insuficientes. O Rio Grande do Sul não vive dias fáceis nem os enxerga no horizonte. Incompreensível para um estado rico, de potencial econômico gigante, que tem super porto, refinaria de petróleo e polo petroquímico, que conta com intensa e forte tradição agropecuária, indústrias pujantes e um povo que nunca foi chegado à malandragem. Incompreensível saber que o Acre não tem essa arrecadação toda, mas anda melhor nas finanças, respeita seus funcionários e o seu povo. Quem mexeu tão fundo nesse queijo, afinal? O que me incomoda, nestes chamados “pacotes de segurança”, é a visão curta. Restrita. Está certo que todos nós sabemos o quanto a política e os políticos jogam para a torcida. Mas esse desprezo contínuo à inteligência coletiva parece só mais um capítulo escrito, e com roteiro revisado, da novela na qual somos escalados para fazer o papel de gado no reponte. Ora. Digamos ao diabético que ele terá remédios, terá cirurgia, mas não digamos que ele precisa mudar hábitos alimentares e de comportamento. Adiantará? Ou só deixaremos certa uma próxima e necessária intervenção? A caixa d’água vaza. Vamos anunciar um pacote de compra de baldes e panos que sequem o vazamento. E os buracos seguirão lá, livres para trabalhar e mandar mais água para baixo. Adianta? Ao olhar de uns, resolve. Seca o chão. Mas se existir alguém disposto a resolver de fato o problema, vai exigir um pouco mais. Os “pacotes de segurança”, aqui ou no Rio de Janeiro, de governos estaduais ou federal, são sempre resumidos à mesma matemática: uns milhões (sempre parcela bem tímida da arrecadação) em material, mais soldados e fim de papo. Vamos contratar gente só para morrer ou matar em combate? É assim que se busca a paz, apenas fortalecendo um lado da guerra e dando a missão como cumprida? Não. É óbvio que precisamos vencer, e com força, atitude e ação esta onda de criminalidade que cria um exército inimigo solto nas ruas a matar inocentes. Precisamos estancar essa fábrica de bandidos. Frear a realidade brutal que incentiva jovens ao crime, tirar da vitrine essa grife do mal. E enquanto um pacote de segurança não falar com força, e conjunto, em incluir investimentos fortes e amplos em educação e cultura, não frise que é preciso mudar futuros e olhares, será assim, mero pacote sem tampa. É secar o chão. Varrer a sujeira para debaixo do tapete sem resolver o problema.

CORREIO DO POVO