Oscar Bessi: O assassinato da menina que curava o olhar

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Por Oscar Bessi CORREIO DO POVO

A doença social se espalha pelo corpo da capital dos gaúchos. E trouxe a triste marca de mais uma vítima, nesta madrugada. Um assalto – mais um entre tantos -, um carro roubado – mais um, entre tantos – uma arma nas mãos de bandidos – mais uma arma, e mais um bandido, entre tantos e tantos – e ela se foi. De um jeito assim, banal. Brutal. Como um sopro de crueldade sem chance de defesa, e o pior, sem chance de reversão. Uma menina de 32 anos. Sim, uma menina. Apesar de médica oftalmologista, das diversos especializações que já constavam em seu currículo, apesar de todo o esforço empregado por tanto tempo, com tantas renúncias, no sonho da belíssima carreira que tinha pela frente – e tinha, com certeza, pois estava, como os grandes profissionais, muito bem encaminhada. Apesar de tudo isto e da grande profissional que todos atestam, entre lágrimas, uma menina. Com jeito de menina. Olhar de menina.

Mas…

Só mais uma vítima.

Do descaso. Da falta de interesse. Da falta de percepção. Da falta, fundamentalmente, de sensibilidade.

Na segunda-feira que chora sua falta inesperada, o jornal traz outras mortes. Outras vítimas. Com os adolescentes executados sem, ao menos, ter tido a chance de entender o mundo, as opções equivocadas que ele oferece, os outros caminhos possíveis que ele possui. Executados. Antes dos 15 anos.

Como o porteiro de quase seis décadas de vida. Que não voltará para a família, para os seus, para a mesa que seu esforço supria depois de tantos anos de labuta diária. Porque ladrões queriam sua moto. E para levar sua moto, levaram também a sua vida.

Assim. Matando por nada.

Enquanto isto, um assaltante de alta periculosidade recebe progressão de regime  e, é claro, não volta à noite para cumprir sua “pena”. Quantas novas vítimas fará? Quem?

Quantas vezes, imagina-se, deve ter sido preso o assassino da médica-menina, cujo sonho de vida era curar nossos olhares?

É triste. Desesperador.

Frustrante e nojento.

Falta seriedade, acima de tudo. Falta noção de realidade, para uns, e um mínimo de comprometimento, a outros.

Falta o básico respeito à vida do próximo.

É. Nossa sociedade está doente. E nas mãos, infelizmente, de quem não parece interessado em salvá-la.

*

Leia também em meu site, no link oscarbessi.com.br/?nid=7844 , “O menino, a girafa e os livros – a importância e as consequências de ler para os filhos”. Os primeiros e fundamentais passos para uma sociedade mais humana, menos violenta.

 

(ilustração do site o Mistérios do Mundo – imagens que retratam nossa sociedade doente)