OSCAR BESSI: Quanto vale uma vida afinal?

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IMAGEM ILUSTRATIVA

Por Oscar Bessi Correio do Povo

Nada de novo no front. Um jovem soldado da Brigada Militar, em roupas civis, tenta evitar assalto a joalheira e é baleado na cabeça pelos bandidos, em shopping pelotense. Um oficial da Brigada Militar é morto em Caxias do Sul. Latrocínio. Quase sexagenário, o cacique caingangue Claudino é executado no interior de Ronda Alta. Em Porto Alegre, mais de 40 tiros matam homem em frente a uma escola. A capital gaúcha também é palco da execução de uma adolescente de 16 anos, com antecedentes por tráfico de drogas na zona Sul, e, na zona Norte, mais três assassinatos. A Polícia gaúcha revela instrumentos de tortura usados por facções criminosas, inclusive um machado, enorme, que pode ser a arma das decapitações em série. E que foi uma menina de apenas 12 anos a autora da morte da colega no crime da sala de aula. As notícias são tristes, mas seguem a macabra rotina desses sangrentos dias atuais. Pelas frestas da insanidade, um grito de indignação me chega através das redes sociais. Como mensagem particular, de amiga. Um desabafo. Ela é enfermeira e policial. Trabalha com socorro imediato de vítimas, vive de salvar vidas o tempo inteiro desde que a conheço. Ela foi uma das primeiras pessoas que atendeu ao morador de rua, assassinado a tiros na Praça da Matriz esta semana. Durante 15 minutos ou mais, até que chegasse o Samu, ela e um colega de serviço tentaram evitar a morte do homem com a chamada reanimação cardiopulmonar (RPC). Não adiantou. E nem é pelo fato de perder a vítima que tenta manter viva, este é um risco inerente a qualquer profissional da saúde. É pelo contexto. Pelo que acontecia ao redor enquanto eles se esforçavam para que aquela alma continuasse entre nós. Não eram poucas as pessoas que se aglomeravam ao redor da tragédia. Quem ajudava ou, pelo menos, oferecia ajuda? Ninguém. Celulares a postos ocupavam os curiosos, na busca de um melhor ângulo para filmar ou fotografar o homem que agonizava. Só para postar em suas redes sociais. A urgência pelo melhor flagrante da desgraça alheia. Fora os comentários jocosos, os gritos de “deixa morrer”, por se tratar de um morador de rua. O ódio e a indiferença de mãos dadas. E era um assassinato brutal e covarde. Ah, ele era usuário de drogas? Sim, ouvimos dizer que era. Igual a muitos por aí. E muitos com teto e bela posição social. Há quantos anos o problema das drogas desgraça vidas em série neste país? O que se fez de efetivo para evitar que famílias sejam, a todo instante, violentadas pelo vício, que vidas se desgraçassem sem volta nesta estrada torpe e ingrata, que oferece lucro fácil a tantos? Era apenas um ser humano como qualquer outro. Nobres senhores também podem ser assassinados. Penso, nestas horas, no valor de uma vida. No que nos leva a tratar o semelhante como lixo descartável. E o que afinal nos difere, em certos momentos, dos piores bandidos?