As moradas sob tensão

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Screen-Shot-2012-07-18-at-6.18.48-PM-600x318Estranha a proposta de moradia para PMs que coloca suas famílias de prontidão

Discretamente, quase sem ruídos, fracassou, em Porto Alegre, o projeto de moradias para policiais com aluguéis pagos pela prefeitura, que anunciou a impossibilidade de arcar com tais despesas devido à corte no orçamento. Caso o projeto funcionasse, em 44 núcleos dos chamados Territórios da Paz, que são áreas consideradas violentas, quatro brigadianos residiriam em cada um deles com seus familiares e, dentro das possibilidades da pasta da Segurança do Estado, com viatura disponível. Assim, os policiais estariam ao alcance da mão das comunidades 24 horas por dia. Pareceu-me, numa visão primeira, uma ideia de primeiro mundo, embora, sem as muletas da prefeitura, seja irrealizável. De outra banda, este penduricalho que a política transversal da segurança está implantando no RS – as prefeituras do interior estão sendo chamadas para compor o projeto – apresenta aspectos aos quais os PMs só se submeterão por absoluta necessidade de morar e conservar seus empregos. Sigam-me

Prontidão

Os PMs que residirem nos chamados Territórios da Paz estarão de serviço 24 horas por dia, o que me parece ser uma condição de trabalho não amparada pela lei. Mais ainda: os PMs que dormem no quartel, mesmo de folga (a casa alugada nada mais será do que um posto da Brigada, que é um segmento do quartel), podem ser chamados a qualquer momento, pois não deixam de estar de prontidão, segundo os costumes da caserna. E a prefeitura que pagar o aluguel contará sempre com a prontidão desses policiais. Paralelamente, as famílias desses brigadianos também estarão permanentemente sob tensão e não há aluguel que compense isso. Aliás, chego a crer que, sobre esta moldura, já foram consultados os profissionais da saúde que operam na Brigada Militar. Portanto, o projeto fracassado, por ora, em Porto Alegre, tem questões um pouco mais profundas do que o orçamento da prefeitura.

Esclarecimentos da pasta da Segurança

Alguns detalhes são apontados para informar a população

Sobre o programa de Policiamento Comunitário, tema que abordei ontem, recebi mensagem do coordenador de Comunicação Social da Secretaria da Segurança Pública do RS, jornalista Antonio Candido, que está longe de ser uma contestação direta da análise que fiz e, sim, o que o colega chama de “esclarecimentos”. Eis a íntegra da mensagem: “Mais uma vez, peço espaço em sua prestigiada coluna para informar à população sobre o funcionamento do Policiamento Comunitário. É importante que todos saibam que os servidores participantes do programa de Policiamento Comunitário residem no mesmo bairro onde trabalham apenas para que tenham uma maior percepção dos problemas de segurança daquele local. Em hipótese alguma as casas são transformadas em referência para a população procurá-los. Os policiais participam do programa voluntariamente e têm a mesma jornada de trabalho que os demais brigadianos. Atualmente, o Policiamento Comunitário já existe em oito municípios do Estado e será ampliado para mais dez, atingindo um total de 391 policiais em 2014. Contando com seu apoio quanto a esses esclarecimentos, desde já agradeço sua atenção”. Isto posto, sigam-me

Marés

Acompanho, há algumas décadas, as marés dos mais diferentes projetos na área da segurança pública do RS. Invariavelmente, todos carecem do item que exige continuidade e estrutura crescente. O programa de Policiamento Comunitário, ainda na faixa embrionária, apresenta vários flancos em aberto. Um deles é revelado pela própria mensagem da pasta da Segurança. Atento para o fato de que numa cidade com carência de policiamento ostensivo-preventivo, policiais são colocados a morar nos bairros em que trabalham, considerados violentos, para que “tenham uma maior percepção dos problemas de segurança naqueles locais”. No entanto, a comunidade não esta autorizada a procurá-los. Enfim, é um tema, como todos os que envolvem a segurança pública, a ser tratado, por partes, durante muito tempo

Wanderley Soares

O Sul