Divulgação de blitze em grupos de WhatsApp preocupa BM

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Autoridades analisam novas estratégias diante de trocas de informações na internet – Foto: Cláudio Fachel/Divulgação CP Memória
Autoridades analisam novas estratégias diante de trocas de informações na internet – Foto: Cláudio Fachel/Divulgação CP Memória

Órgãos de segurança admitem trocar locais de fiscalização se houver baixa movimentação

Os grupos de WhatsApp viraram uma febre entre usuários de smartphones. A cada dia, amigos, familiares e até desconhecidos se reúnem para jogar conversa fora e trocar imagens ou vídeos. Mas há quem use o facilidade do aplicativo para compartilhar informações de barreiras policiais ou de trânsito, o que acaba preocupando as autoridades.

A divulgação das blitz enão é novidade na Internet. As duas maiores redes sociais – o Facebook e o Twitter – acabaram perdendo a preferência dos internautas na hora de compartilhar essas informações. Muito pela falta de confidencialidade para o “informante”. O número infinito de seguidores ou usuários no Facebook ou Twitter acaba inibindo o caráter privado do usuário. Qualquer informação pode ser compartilhada com um clique. Há grupos de acesso restrito, mas a Polícia pode rastrear. No WhatsApp, o número de participantes não pode ser além de cem.

Segundo a Polícia, a preocupação é de quem tem acesso a essas informações. Recentemente a Brigada Militar prendeu três homens em um carro roubado na rua Luiz Afonso, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. E qual foi a surpresa? Encontrar um celular conectado no grupo de WhatsApp “Radar da Gurizada 3”, no qual acompanhavam barreiras da Polícia e da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC).

A reportagem teve acesso a uma imagem do celular, com o conteúdo da conversa, que foi fornecida pelo comandante da 2ª Companhia do 9º BPM, capitão Fernando Maciel. Em uma das mensagens, um participante diz: “Barreira na frente do Shopping do Vale na Assis Brasil. EPTC e Brigada Militar”. Em seguida, outro internauta alerta: “EPTC na Bento na frente da Ufrgs, sentido Viamão”.

Pouca movimentação faz órgãos mudarem locais

Para contornar a situação, os órgãos admitem que chegam a trocar as barreiras de lugar, caso percebam pouca movimentação de veículos. O capitão Fernando Maciel explica que a ideia é deixar o bloqueio mais dinâmico, evitando que o ponto fique ocioso.

O chefe da Divisão de Fiscalização de Trânsito do Detran, Jéferson Fischer Sperb, reconhece que há possibilidade de troca de lugar em blitze da Balada Segura. Mas, diferentemente da Brigada, a mudança não ocorre tão rapidamente. “Temos toda uma estrutura montada, com balão e mesas, o que leva mais tempo para desfazer. Mas, se a gente percebe que está muito parado, nós fazemos a troca. Mas ultimamente não tem acontecido.”

Sperb reforça que o foco das barreiras do Detran e da Brigada são diferentes. O primeiro se detém a infrações de trânsito, enquanto que a Polícia se restringe a crimes ou na localização de suspeitos. Também muda o tempo de permanência em cada local, com barreiras mais curtas no caso da Polícia (entre 30 minutos a 1 hora) do que do Detran, que podem começar às 22h e se estender até as 5h.

O gerente de Fiscalização de Trânsito da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Paulo Gumercindo Machado, é outro que admite a mudança de lugar da barreiras, caso se perceba o esvaziamento do ponto. “A gente tenta fazer o mais rápido possível.” No caso da EPTC, são montadas cerca de dez barreiras/dia, o que dificulta esse remanejo. “Temos quatro a cinco blitze de manhã, quatro à tarde e duas à noite.”

Exposta falta de cidadania

A troca de informações sobre barreiras policiais ou de fiscalização de trânsito expõe a falta de cidadania no trânsito. É o que entende o professor da Unisinos Lúcio Garcia, especialista em Psicologia do Trânsito. Para muitas pessoas, esclarece, as blitze são encaradas como uma agressão do Estado, da qual é preciso desviar e fugir. “No entanto, as barreiras são uma forma de o Estado verificar e garantir a segurança de todos: pedestres, motoristas e usuários. Mas muita gente não consegue reconhecer isso. Vê como uma forma de agressão do Estado, na qual se precisa driblar.”

Garcia esclarece que o entendimento sobre o trânsito varia da maneira com que a população lida com as regras de trânsito. Cita uma experiência vivenciada na Inglaterra. Um motorista sai de um pub e, ao chegar ao seu automóvel, ao invés de se encaminhar ao veículo, vai em direção a um pequeno bafômetro instalado no carro. Por ali vê se tem condições de assumir o volante.

O consultor técnico do Sindicato dos Centros de Formação de Condutores do RS Eduardo Cortez diz ser quase impossível coibir os grupos que informam barreiras. A alternativa, aponta, seria fortalecer a educação de trânsito. “A gente percebe a diferença daquele aluno que vem tirar a primeira habilitação daquele que vem aprender a dirigir”, observa.

Fonte:Correio do Povo