Porto Alegre registra um assalto a cada 15 minutos

182

19581966Entre os alvos, pedestres são os mais vulneráveis. Uma média de 67 pessoas são assaltadas por dia nas ruas da Capital. Significa três assaltos por hora, uma vítima a cada 20 minutos. Enquanto população vive sensação de insegurança, polícia rema contra a falta de efetivo. 

Por: Schirlei Alves

Assim como os homicídios, que batem recorde nas estatísticas, os crimes contra o patrimônio estão entre os que mais assustam e geram sensação de insegurança.

O roubo, popularmente conhecido por assalto, faz vítima a pessoa que está caminhando na rua, o motorista do carro, o proprietário do comércio e, por vezes, quem está até mesmo dentro de casa.

Dados da Polícia Civil indicam que Porto Alegre registrou 26,3 mil assaltos a pedestres, veículos, residências e comércio em 2014. Em 2015, esse tipo de crime aumentou 30,6% e alcançou a marca de 34,4 mil: uma média de 94 vítimas por dia.

Nos primeiros cinco meses de 2016, a polícia já registrou 15,2 mil ocorrências: 100 casos diários, ou seja, um assalto a cada 15 minutos.

Moradores ouvidos pela reportagem do Diário Gaúcho sentem o aumento da criminalidade. Eles sequer querem mostrar o rosto por medo de represálias. Segundo eles, os criminosos voltam, ameaçam e não se intimidam.

— A sensação de insegurança é horrível. A gente tem que trabalhar com grade. Só o fato de abrir a porta do meu estabelecimento para ir até em casa (na mesma quadra) já me deixa com medo — relata uma moradora da Capital.

Pedestre na mira

O tipo de roubo que mais fez vítimas nos últimos dois anos foi o de pedestre. Em 2014, havia uma média de 45 casos por dia – 16,6 mil ocorrências no ano. Em 2015, aumentou 32% e chegou a uma média de 60 casos diários, ou seja, 22 mil no ano.

Este ano, até maio, a média é de 67 casos por dia, o que equivale a 10,2 mil ocorrências. Nelas estão incluídas os registros de assaltos a transporte coletivo, também diluídos nos de veículos.

O tipo de roubo que mais cresceu em 2015 foi o de veículo, com 37% mais casos que no ano anterior. Em 2014, era uma média de 19 casos por dia, que somados, correspondem a 7,1 mil. Em 2015 foram 26,7 casos diários que equivalem a 9,7 mil no ano. Em 2016, o número se mantém semelhante: cerca de 28 ocorrências por dia.

O roubo de casa sofreu uma variação de 10%, porém o número de registros é menor: uma média de 0,7 ocorrências por dia. O de comércio aumentou 1,2% em 2015, o que corresponde a uma média de 6,4 casos por dia.

— Temos que trabalhar trancados. Se abandonarmos o comércio, como vamos nos sustentar? Minha filha tem curso técnico, mas não consegue emprego. E não é só no comércio, os vizinhos são assaltados quando estão entrando com o carro na porta de casa — lamentou a proprietária de um mercado que foi assaltado duas vezes em oito meses.

Pouco efetivo prejudica polícia

Com queda de 30% no efetivo em 13 anos e a perda mensal de mais uma fatia de profissionais que está fora por afastamento, férias ou doença, a Polícia Civil tem dado prioridade à investigação dos crimes mais graves.

De acordo com o delegado regional, Cleber Ferreira, o número de policiais é infinitamente menor do que o número de ocorrências registradas todos os dias nas delegacias de Porto Alegre. Forças-tarefas são empenhadas em situações específicas. Recentemente ocorreram operações contra desmanches de veículos, arrastões em coletivos e assaltos à farmácias.

— Há um plano da atual administração para combater o crime contra o patrimônio, cada delegacia emprega a força policial disponível. Acredito que a tendência é diminuir os roubos de carros com as operações e os assaltos dentro de ônibus deram uma amenizada. Mas o nosso efetivo é pequeno.

Para o delegado regional, o grande fomentador dos assaltos é o tráfico de drogas. Na avaliação dele, os usuários de droga cometem os crimes para sustentar o vício.

Cleber também destaca a dificuldade de investigar este tipo de crime, pois não existe relação entre o autor e a vítima. Os objetos roubados normalmente são vendidos rapidamente, então, a polícia fica na dependência de a vítima reconhecer o autor ou de imagens de câmeras de monitoramento mal instaladas e com pouca qualidade.

Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Prende e solta é um dos problemas

De acordo com o comandante do policiamento da Capital, tenente-coronel Mário Ikeda, o roubo a pedestre, que é o de maior incidência, ocorre principalmente no Centro.

A maior causa, na avaliação dele, é a reincidência dos ladrões que cometem pequenos delitos e ficam pouco tempo na cadeia, aliada ao comércio informal dos produtos roubados.

— É importante que a população saiba que tudo o que está sendo vendido abaixo do preço de mercado normalmente é oriundo de roubo, principalmente se não houver procedência e estiver na informalidade — alerta.

Para combater esse tipo de crime, Ikeda afirma que a Brigada Militar tem empregado efetivo a pé, com viaturas e a cavalo na região Central. Sobre os demais roubos, embora haja pouco efetivo com a saída dos aposentados, a corporação garante que tem otimizado o trabalho em operações específicas como, por exemplo, no combate a receptação de veículos.

A pé

Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Dois alunos do curso de engenharia civil de uma faculdade no Bairro Teresópolis, na Zona Sul de Porto Alegre, foram surpreendidos por assaltantes há três semanas, após saírem da aula.

Eles caminhavam pela rua em direção à parada onde pegariam o ônibus de volta para casa quando foram abordados por dois homens, sendo que um deles estava armado com uma faca.

— Era uma faca grande, dessas de açougueiro — contou um dos alunos.

Os assaltantes fizeram os estudantes tirarem os calçados e entregarem todos os pertences, inclusive as mochilas em que carregavam o material de aula. Pelos corredores da faculdade, os alunos comentam que os assaltos na rua são frequentes.

— Às vezes eu tento vir de carro. Mas quando precisa descer (para pegar o ônibus) não tem jeito, tem que ir embora — avaliou um dos jovens.

No carro

Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

O fim de tarde do último sábado de maio já não estava sendo fácil para uma moradora de 32 anos do Bairro Jardim Floresta e os familiares do inquilino dela que acabara de morrer de infarto.

A família do falecido estacionou o carro em frente à casa para pegar os últimos pertences quando perceberam a aproximação de um jovem bem arrumado, de mochila nas costas.

Ele apontou uma arma na direção deles e ordenou com voz mansa que entregassem a chave do carro. Sem hesitar, o dono do veículo obedeceu a ordem do desconhecido.

O rapaz entrou no carro, bateu a chave e saiu dirigindo até desaparecer no horizonte. A luz do dia e o movimento na rua não o intimidaram a cometer o crime.

— Na mesma semana levaram o nosso carro e outros carros aqui na rua. No meu estabelecimento já fui assaltada duas vezes. Essa onda de assalto começou no fim do ano passado e não parou mais — contou a moradora.

No comércio

Foto: Carlos Macedo / Agencia RBS

Faz oito meses que a família de uma moradora de 53 anos do Bairro Jardim Floresta tira o sustento do próprio negócio. Estava tudo caminhando bem até os proprietários do mercado simples à beira de uma esquina serem vítimas de dois assaltos. A violência mudou a rotina deles e resultou na perda de clientes e dinheiro.

No último episódio, que ocorreu há menos de um mês, o prejuízo foi de R$ 7 mil.

— Entraram em dois anunciando o assalto. Mandaram todo mundo ficar quieto. Fizeram a limpa — contou a filha.

Depois do susto, a dona investiu R$ 8 mil em segurança. Contratou ronda particular de empresa privada e instalou câmeras de monitoramento. Mas, o principal meio de segurança encontrado por ela foi a instalação de uma grade na porta.

Agora, só entra quem já é da casa.

— Quando eu trabalhava com a porta aberta a clientela era bem maior. Sinceramente, estou no negativo, peleando. É terrível, tu trabalhas insegura e nunca sabe o dia de amanhã — lamentou a proprietária.


Roubo de residência aumentou 10% de 2014 para 2015

ZERO  HORA